A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

ALGODÃO

Hora da recuperação

As safras 2004/2005 e 2005/2006 de algodão não foram das melhores para os produtores brasileiros. “Devido à grande euforia ocorrida pelos altos preços observados em 2003, os cotonicultores acabaram investindo fortemente em capital fixo e aumento de área”, explica o analista de Safras & Mercado, Miguel Biegai. Itens como colheitadeiras, tratores, estruturas de beneficiamento e armazenagem de algodão foram adquiridos para fazer frente à grande expansão de área no País, confiando em mercado interno e exportações aquecidas. “A situação inverteu”, sentencia o analista. Os altos preços do algodão incentivaram aumentos de área plantada no mundo todo. As condições climáticas favoreceram fortemente as lavouras do Hemisfério Norte, principalmente as safras norte-americana e chinesa, repercutindo em forte queda dos preços. “E o Brasil não passou ileso”, lembra. O volume de exportação não atingiu os níveis necessários para permitir um mercado interno enxuto, resultando em quedas pesadas e remuneração baixa para os produtores.

Com essa sucessão de fatores negativos, a área e a safra brasileira de algodão recuaram 29,1%, uma redução significativa. “No entanto, desta vez os volumes de exportação de safra 2005/06 foram suficientes para manter a liquidez interna do mercado, propiciando preços razoáveis neste primeiro semestre de 2006”, acrescenta Biegai. Estima-se que será necessário importar cerca de 100 mil toneladas de algodão em pluma para fechar o quadro de abastecimento das indústrias. O mercado, em regime de paridade de importação, opera a níveis mais elevados do que sob paridade de exportação, como ocorreu nos dois últimos anos.

Para a próxima safra, a palavra de ordem não é aumento, e sim ‘recuperação’. “Ou seja, será recuperado parcialmente o que se perdeu nos dois últimos anos, especialmente na safra 04/05”, prevê o analista. A estimativa de área plantada para a temporada 2006/07 de algodão é de 939,6 mil hectares, com 16,3% de aumento sobre as 808,1 mil hectares da safra passada. De todos os Estados, o único que apresenta redução de área plantada, é São Paulo, em função da forte concorrência com a cana-de-açúcar, cuja área cresce fortemente. Nos demais Estados, o plantio deve apresentar aumento. Os preços para entrega futura (2007) são bem melhores do que os de entrega em 2006, e devem estimular a retomada. “A falta de opções também justifica o aumento de área, visto que culturas como a soja e o milho estão no limiar da inviabilidade”, frisa Biegai.

Nesta situação, estão os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia, que devem aumentar a área em 19,4%, 35,5% e 15,6%, respectivamente. Em Goiás, o aumento de área deve ser acompanhado de um deslocamento da produção das áreas de baixa altitude, para regiões de altitude mais elevada, como Ipameri e Chapadão do Céu, o que eleva a produtividade esperada no Estado, passando de 2.880 kg de algodão em caroço/hectare para 3.200 kg. No entanto, este é o primeiro levantamento de intenção de plantio da safra 2006/07.

Normalmente, no mês de julho, as primeiras idéias são formadas em torno de uma decisão de aumento, de queda de área, ou então de manutenção. “Porém, a intensidade da queda ou do aumento é definida ao longo dos meses de agosto e setembro, dependendo principalmente do mercado de clima que norteia o mercado internacional neste período”, ressalta Biegai.

Clima adverso nos EUA — E nesse quesito, o mercado internacional está encontrando suporte para oferecer perspectivas um pouco mais otimistas para o plantio da safra 2006/07. Os Estados Unidos, o principal exportador, enfrentam graves problemas climáticos em pleno período de desenvolvimento vegetativo das lavouras. As regiões mais afetadas estão no Texas, o mais importante estado produtor, com mais de 30% da área plantada, seguido também forte stress hídrico no Alabama e Geórgia. A safra americana, que tinha potencial para produzir mais de 24 milhões de fardos (5,2 milhões de toneladas), vai produzir cerca de 19 milhões a 19,5 milhões de fardos (4,1 milhões a 4,2 milhões de toneladas), configurando uma significativa quebra de safra.

O suporte altista seria suficiente para jogar o mercado para níveis de 58 centavos de dólar por libra/peso para o contrato de entrega em dezembro na Bolsa de Mercadorias de Nova Iorque (NYCE), se houvesse demanda ‘normal’ para as exportações. “Mas como as vendas estão saindo muito lentamente, e não há definição de abertura de novas quotas de importação por parte da China, o mercado deve apresentar resistência para subir muito acima dos atuais patamares”, projeta o analista. O principal problema reside na demora da China em liberar novas quotas de importação. Estima-se que os chineses precisarão importar 20 milhões de fardos para a temporada 06/07, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos esperam exportar 16,6 milhões de fardos.

Obviamente que a China não importará apenas algodão americano, assim também como os Estados Unidos não exportarão apenas algodão para o país asiático. Mas espera-se que a maior parte do fluxo de comércio ocorra entre esses dois países. “Uma hora ou outra, é bastante claro que a China precisará entrar no mercado para adquirir algodão novamente e liberar a abertura de novas quotas de importação. Quando isso ocorrer, o mercado deve refletir o fator altista nas cotações, sustentando a elevação de área plantada no Brasil, em tamanho que pode ser superior aos pouco mais de 16% apresentados nesta primeira intenção de plantio”, completa Biegai.

Manutenção do consumo — A ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) espera, pelo menos, manter o consumo do setor em 900 mil toneladas em 2006. A previsão é do diretor de operações, Rossildo Faria. “Normalmente, o consumo da indústria têxtil brasileira tem ficado em 900 mil toneladas”, lembra ele. Como o ano de 2006 é de crise, a associação já se dá por satisfeita se repetir este número. O diretor informou ainda que o segundo semestre tem sempre o consumo mais aquecido no Brasil. Além disso, o ano eleitoral e o crescimento real do salário do trabalhador podem ajudar na demanda.

Para o analista de Safras & Mercado, a tendência é que este número não se confirme. Pesa para esta previsão não tão otimista a política cambial do país. “O dólar valorizado está prejudicando fortemente as exportações brasileiras, ao mesmo tempo em que permite forte entrada de produtos têxteis no mercado interno, notadamente da China’”, adverte Biegai. A safra menor no Brasil também preocupa a ABIT. Para a temporada 2005/2006, Safras & Mercado trabalha com a estimativa de produção de 983 mil toneladas, um recuo significativo em relação a anterior, que somou 1,27 milhão de toneladas. Isto pode gerar aumento nas importações, elevando os custos de produção do setor.

Para Faria, é notório de que o dólar neste atual patamar dificulta as exportações e, por outro lado, facilita as importações. Também prejudicam o mercado os juros altos do Brasil. “Mas precisamos destacar também a capacidade do setor têxtil de reagir, gerar empregos”, frisa. De acordo com o diretor, foram investidos, nos últimos 8 a 10 anos, US$ 10 bilhões em tecnologia, o que aprimorou bastante a qualidade do produto brasileiro. Sobre os estoques da indústria têxtil, o diretor foi taxativo: “Hoje em dia, não dá mais para trabalhar com grandes estoques”. Segundo ele, o mercado atual exige agilidade, rapidez. “O consumidor quer novidade, o que impede as formações de estoques”.

Biodiesel de óleo de algodão — Recentemente, algumas empresas e associações de produtores estão buscando alternativas para a melhor utilização do caroço do algodão e seu nobre subproduto, o óleo. Normalmente, os agricultores focam a produção de algodão pensando quase que exclusivamente na produção da pluma, de alto valor agregado, enquanto que o caroço, quando em períodos de grande disponibilidade, pode ter seus preços bastante pressionados pelo mercado.

Atualmente, o mercado de esmagamento de caroço de algodão para obtenção de óleo sofreu uma concentração, em função da paralisação de atividades de algumas indústrias de esmagamento, e isso repercutiu no afunilamento das ofertas e mais pressão sobre as cotações do caroço. A saída encontrada, por alguns grupos de produtores é a utilização de esmagamento próprio do caroço de algodão para obter o óleo, e em seguida, a confecção de biodiesel, que pode substituir parcialmente o diesel convencional. Essa possibilidade pode reduzir os custos de produção de combustíveis, que chega a 8% para o algodão. E é cogitada fortemente nos Estados do Mato Grosso, Goiás e Bahia, especialmente no primeiro, onde os estudos para a implantação de uma usina de biodiesel estão em estágio bastante avançado.