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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

ARROZ

Reação, ainda que tímida

Após uma queda considerável de área do arroz na safra 2005/2006, o Brasil deve voltar a esboçar um aumento, apesar de bastante limitado. O analista de Safras & Mercado, Tiago Sarmento Barata, está prevendo uma pequena elevação de 1,9% na área a ser semeada com o cereal em 2006/2007. Passará de 3,116 milhões de hectares para 3,175 milhões de hectares. A projeção é fundamentada em uma série de fatores que influenciam na tomada de decisão do produtor no momento de dimensionar a área a ser plantada. Nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, primeiro e segundo maiores produtores 2005/2006, algumas particularidades locais fazem com que a área plantada se mantenha praticamente estável nos últimos anos. As características do solo das áreas tradicionalmente cultivadas com arroz - topografia plana e horizontes argilosos, que permitem uma fácil saturação - dificultam a substituição pelo cultivo de outras culturas, já que poucas se adaptam a tais condições.

Entretanto, lembra o analista de Safras, a definição da área a ser plantada com arroz na próxima safra nos Estados do Sul deve ser definida em função de três fatores-chaves: disponibilidade hídrica, resultados obtidos na comercialização da safra anterior e expectativas de mercado para a próxima safra. “O efeito dos resultados negativos obtidos com a comercialização da última safra deve ser compensado pela expectativa de um panorama de mercado mais positivo para a safra 2006/2007”, prevê o analista. “Entretanto, existe um passivo muito grande que pode dificultar o acesso ao crédito e que deve ser um fator complicador”, ressalta.

Os sistemas de cultivo utilizados no Rio Grande do Sul e Santa Catarina são altamente dependentes da oferta de água para a irrigação. Por isso, a área cultivada deve ser dimensionada levando em consideração a disponibilidade hídrica nos reservatórios. Segundo algumas projeções meteorológicas, o início do segundo semestre deve ser chuvoso nos dois Estados. Porém, como os níveis residuais de água nas barragens são extremamente baixos, as chuvas, provavelmente, não serão suficientes para a total recuperação dos níveis hídricos. No Rio Grande do Sul, aproximadamente 48,5% dá área cultivada depende da irrigação de açudes e barragens, segundo informações do censo do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

Nos demais Estados, outros fatores são considerados na projeção de intenção de plantio. Com a possibilidade de substituição do arroz por outras culturas, aspectos relacionados a essas alternativas devem ser avaliados. O cultivo de soja no Centro-Oeste deve sofrer uma retração em função dos prejuízos acumulados pelos sojicultores nos últimos anos, pela expectativa pessimista para o mercado da oleaginosa na próxima safra e pelo encarecimento do custo de produção em função da incidência da ferrugem asiática.

Por isso, o cultivo de arroz no Centro-Oeste ganha força por três razões: é uma cultura de custo mais baixo, tem uma perspectiva de mercado mais positiva, e está sendo visto como uma boa alternativa também para as áreas velhas, em rotação. Algodão, cana-de-açúcar e pecuária, três atividades que deverão ter a área expandida na região, são as principais candidatas a ocuparem o espaço deixado pela soja. “Mas o arroz também terá a sua contribuição na ocupação, principalmente nas áreas menos nobres”, acredita Barata.

Comportamento de preços — Após uma safra cheia, o ano comercial 2005/2006 foi caracterizado por preços baixos, resultado de um conjunto de fatores como a super-oferta, estoque de passagem inchado, demora da liberação de crédito aos produtores (em especial no Centro-Oeste) e importações de arroz uruguaio e argentino – que apesar de terem sido menores nesse ano, ainda foram volumosas. Outro fator importante foi a desclassificação do Cirad 141 como grão longo fino. A variedade, muito utilizada nos Estados do Centro-Oeste pela alta produtividade e custos reduzidos, com essa desclassificação sofreu uma grande desvalorização, nivelando por baixo os patamares de preço do arroz do mercado doméstico.

Frustrados com os resultados comerciais obtidos na comercialização da safra anterior, os rizicultores responderam com uma significativa redução da área plantada na última safra, principalmente no Centro-Oeste. Neste ano comercial, o mercado doméstico de arroz apresenta características distintas entre os Estados do Sul e os produtores de arroz de sequeiro. Além da redução da área plantada, os Estados da região Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País tiveram prejuízos na produtividade e qualidade da lavoura, principalmente no Mato Grosso, em função das freqüentes e fortes chuvas, que também causaram atraso nas colheitas e dificultaram o transporte da safra.

Nesses Estados, se observa uma estabilidade maior dos preços praticados, um nítido sinal de que o mercado regional já trabalha com uma posição de menor disponibilidade de matéria-prima, principalmente de arroz de qualidade. A produção mato-grossense foi a que apresentou a maior redução (62,8%): aproximadamente 400 mil hectares deixaram de ser plantados no Estado. Se o panorama geral da produção orizícola brasileira é de redução na safra 2005/2006, no Rio Grande do Sul, isso não ocorre. Muito pelo contrário. Mais uma vez o Estado gaúcho teve uma safra cheia. Com dificuldade de substituição do cultivo do arroz, os produtores gaúchos buscaram compensar os baixos preços com o aumento de produtividade. E também foram beneficiados pelo clima favorável.

Conforme a estimativa de produção de Safras & Mercado, o Estado registra um aumento da produção de 11,5% na temporada 2005/2006, atingindo um volume de 6.630 mil toneladas, com uma elevação de aproximadamente 10% da produtividade média. Com volume ainda significativo de estoque da safra passada, as indústrias do Rio Grande do Sul passam a ter dificuldades para armazenar o arroz colhido e um fluxo de chegada de arroz nas indústrias muito superior do que a capacidade de secagem e beneficiamento. Tal dificuldade se deve também porque mais da metade da área plantada é de uma mesma variedade, causando uma grande concentração da colheita e depósito do cereal.

O ano comercial 2006/2007 iniciou, portanto, com uma produção de 11,676 milhões de toneladas de arroz, menor do que o necessário para suprir a demanda doméstica. Porém, com um volume considerado grande nos estoques públicos, 60,3% maior do que o estoque inicial no ano anterior. Apesar da confirmação de uma safra bastante reduzida, os preços do arroz no mercado interno mantiveram uma seqüência de queda no primeiro trimestre do ano, até mesmo antes do início da colheita. É normal que os preços caiam com o início da colheita, mas também era esperado que os preços tivessem alguma valorização antes dela começar, o que não aconteceu.

As grandes redes varejistas fizeram aquisição de grandes volumes entre novembro e dezembro e formaram estoques suficientes para evitar a necessidade de terem que entrar no mercado antes do início da nova safra, quando a tendência seria de preços mais elevados. Dezembro, janeiro e fevereiro são sabidamente meses de menor consumo do cereal, conseqüentemente meses de menor necessidade de reposição de estoques. Sem terem para quem vender, as indústrias também se mantiveram praticamente fora de mercado nesse período, comprando apenas pequenos volumes de matéria-prima para manter as plantas em funcionamento.

Os produtores, precisando abrir espaço e limpar os silos para a armazenagem da próxima safra, além da necessidade de cobrir as despesas com a colheita e, principalmente, querendo evitar ter que vender o seu produto no momento de super-oferta, aumentaram a oferta do cereal com a realização de pouquíssimos negócios. Diante desse quadro, os preços entraram numa seqüência de queda, alterando a tradicional sazonalidade de preço do arroz no mercado brasileiro.

A partir de maio, o mercado passa a apresentar sinais de aquecimento e recuperação dos preços, em conseqüência da ação conjunta de uma série de fatores. As medidas de apoio ao setor, anunciadas pelo governo federal, mesmo sendo consideradas ainda insuficientes para resolver os problemas do setor, deram um fôlego maior para muitos produtores, diminuindo a necessidade de venda imediata da produção. Com a oferta fortemente retraída, os preços do arroz em casca passaram a sofrer um processo de valorização. As indústrias, no entanto, com dificuldade de repassar os novos preços às principais redes varejistas, restringiram as compras. A conseqüente baixa liquidez do mercado evidencia que o ritmo acelerado da recuperação dos preços se tornou insustentável para as atuais condições do mercado doméstico do arroz.

Importações e exportações — Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), o Brasil importou 348,790 mil toneladas no primeiro semestre de 2006, enquanto que no mesmo período do ano passado, o volume importado foi de 336,436 mil toneladas. A Argentina e o Uruguai, tradicionais ofertantes de arroz ao Brasil, seguem sendo as principais origens do cereal importando, representando respectivamente 42% e 50% do volume total. Aproximadamente 62% do volume importado é de arroz beneficiado e 32% de descascado.

Os dados do MDIC apontam um crescimento nas exportações brasileiras de arroz, mostrando que o País vem superando as inúmeras dificuldades encontradas e se consolidando, cada vez mais, como fornecedor do cereal no mercado internacional. “A qualidade do arroz quebrado brasileiro já é, inclusive, reconhecida pelos grandes importadores”, relata o analista de Safras & Mercado, Tiago Barata. No primeiro semestre, foram exportadas 183,263 mil toneladas, um volume aproximadamente 30% maior do que foi negociado entre janeiro e junho de 2005. Aproximadamente 87% das exportações neste ano são de arroz quebrado. Os países africanos, principalmente Senegal e Gâmbia, são os principais compradores. Cabe destacar dois novos mercados recém conquistados: Haiti, que comprou mais de 5 mil toneladas de arroz, e Cuba, destino de 2,28 mil toneladas, ambos para arroz beneficiado.

Mercado internacional — O relatório de julho de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), traz alterações importantes nas projeções para 2006/2007. A estimativa para a produção mundial na safra 2006/2007 teve uma elevação de 0,17% sobre o que era projetado em junho, enquanto que a previsão de demanda teve uma significativa redução de 1,6%, o correspondente a 6,7 milhões de toneladas. Em conseqüência dessas alterações, a situação de déficit na produção não mais se confirma, projetando-se um volume maior nos estoques finais. O ano comercial 2006/2007 deve terminar com um volume de 79,07 milhões de toneladas de arroz beneficiados nos estoques, aproximadamente 19 milhões de toneladas a mais do que era projetado em junho. Para o volume do cereal comercializado internacionalmente, a projeção é de 27,83 milhões de toneladas.

Analisando as projeções para cada país individualmente, observa-se as principais alterações na China, que teve a estimativa de demanda reduzida em 7,5 milhões de toneladas, e nas Filipinas, onde a procura foi reduzida em 250 mil toneladas. A Índia deverá produzir 91 milhões de toneladas em 2006/2007; a Indonésia, 35,09 milhões; o Vietnã, 23 milhões; e a Tailândia, 18,35 milhões. Para o Brasil, o USDA manteve a projeção para 2006/2007 de uma produção de 8,5 milhões de toneladas de arroz beneficiado, para uma demanda doméstica de 9,25 milhões de toneladas, refletindo num volume de 290 mil toneladas nos estoques finais.

O mercado mundial de arroz caracteriza-se por ter a produção e o consumo do cereal fortemente concentrado nos países do sudeste asiático e ainda por ter um comércio internacional muito restrito. Segundo os dados recentes do USDA, a produção mundial de arroz na safra 2005/2006 foi de aproximadamente 417 milhões de toneladas, sendo apenas 27,5 milhões de toneladas comercializadas internacionalmente. O que ocorre é que os principais produtores são também os principais consumidores do cereal, sendo, portanto, a produção doméstica utilizada para suprir as necessidades internas, com poucas exceções. A China, Índia, Indonésia, Bangladesh, Vietnã, Filipinas, Birmânia, Tailândia, Brasil e Japão são, nessa ordem, os dez maiores consumidores de arroz e são também os dez maiores produtores do cereal – apenas com uma troca de posições entre Tailândia e Filipinas. Juntos, China e Índia são responsáveis por respectivamente 52,4% e 52,7% do consumo e da produção mundial.

Para a safra 2006/2007, o USDA projeta um aumento de 1,1% da produção mundial, enquanto que para o consumo global a projeção é que haja 1,2% de aumento. Existirá, portanto, pelo sexto ano consecutivo, um déficit na relação produção e consumo de arroz, provocando, mais uma vez, uma redução dos estoques mundiais do cereal.

Na comparação com a safra 2000/2001, os estoques mundiais atuais são menores em 83 milhões de toneladas. Embora ainda muito pequeno, o volume de arroz comercializado internacionalmente terá um aumento de 1% na safra 2006/2007, com destaque à Tailândia, que exportará 950 mil toneladas a mais.