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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

SOJA

Proução cai com a falta de renda

O agronegócio nacional começa a planejar a próxima safra de verão, diante de um cenário bastante negativo. O setor enfrentou a pior crise em quarenta anos, com endividamento grave, lucratividade negativa, preços baixos e quebra de safra devido a problemas climáticos. Para completar o cenário ruim, o câmbio sacrificou as exportações e os problemas de logística estão longe de ser superados. Diante de uma situação tão desfavorável, é consenso de que a área a ser plantada na temporada 2006/07 deverá cair. Até mesmo o ministro da Agricultura, Luís Carlos Guedes Pinto, projeta a safra de grãos 2006/07 com redução na área plantada pelo menor uso de tecnologia. “As medidas tomadas pelo governo para atenuar os efeitos da crise nos últimos dois anos atenderam cerca de 90% dos produtores. Mesmo assim, os prejuízos no agronegócio atingiram R$ 10 bilhões diante da perda na produção e renda”, lamenta.

Principal commodity nacional, a soja não vai escapar deste contexto crítico. Ao contrário, a oleaginosa deverá liderar a perda de área na próxima temporada. Os produtores brasileiros de soja deverão semear entre 19,775 milhões e 21,155 milhões de hectares na temporada 2006/07, com média de 20,465 milhões de hectares. Se a média for confirmada, a área a ser plantada deverá ser 7,6% inferior ao plantio do ano passado, que cobriu 22,156 milhões de hectares. A área de 2006/07 deverá ficar praticamente inalterada nos Estados da região Sul, com a possibilidade de uma leve queda no Paraná. “Os produtores não têm outras opções. Talvez a soja perca espaço para a cana-de-açúcar, mas isso só deverá ocorrer no norte do Paraná”, avalia o analista de Safras & Mercado, Flávio França Júnior.

“O desempenho da safra passada foi muito ruim no Paraná. Os preços caíram e houve quebra em função do clima”, confirma o gerente técnico e econômico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Flávio Turra. Com isso, a situação financeira se agravou, dificultando o pagamento de seus compromissos financeiros. Já nos Estados das regiões Sudeste e Centro-Oeste, o plantio deverá apresentar retração, cedendo espaço para a cana-de-açúcar e também para a pastagem. “As áreas com boa produtividade e com condições climáticas ideais tendem a ser mantidas. Já as regiões sem este quadro, as áreas que foram adicionadas para o cultivo da soja nos últimos três anos, podem retornar para a pecuária”, explica o analista, que não acredita que culturas com maiores custos de produção ganhem espaço da soja. “Só quem tem estrutura vai optar pelo o algodão e o milho, que têm custos mais elevados e apresentam preços fracos”, aposta.

“A crise na agricultura, os baixos preços praticados e os custos elevados deverão fazer com que o produtor cultive menos”, enumera o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado do Mato Grosso (Aprosoja), Rui Otoni Prado, que é mais drástico em relação ao plantio no Estado. “Estamos trabalhando com um recuo entre 10% e 30% na área a ser plantada na próxima temporada”. O desestímulo do produtor para a próxima safra tem origem na descapitalização do setor. “2006 é o segundo ano consecutivo de lucratividade negativa, combinando perda de safra, devido ao clima, aumento nos custos, derivado principalmente da ferrugem, e preços baixos em Chicago, com pressão cambial”, contextualiza França Júnior, alertando que o aumento dos custos não é conseqüência só da ferrugem, mas também dos preços dos combustíveis e de logística inadequada.

França Júnior alerta para o perigo do produtor deixar de investir em tecnologia. “A procura por adubo é baixa. Neste momento, a produtividade faz diferença. Com o quadro de custos elevados e preços baixos, quem não colher bem – e já sofremos com problemas climáticos em três anos – pode ter prejuízo”, finaliza. O reflexo mais evidente desta situação ruim deverá ser sentido na diminuição da utilização de tecnologia nas lavouras, principalmente no uso de fertilizantes. “Em relação aos agroquímicos, a demanda vai depender do desempenho das lavouras. O controle de pragas e doenças tem que ser feito de qualquer jeito. Mas no caso dos fertilizantes, a redução está mais clara”, frisou Turra. Este menor uso de fertilizantes preocupa o gerente. “Isso já ocorreu no ano passado. Se repetir este ano, o impacto na produtividade pode ser mais expressivo”.

Turra reitera que o produtor está desestimulado e descapitalizado e que o sentimento inicial aponta para uma redução nos custos. “O mais fácil é reduzir os custos variáveis, principalmente o fertilizante”.

Área cai no Brasil — Mantendo a direção já observada na safra passada, o relatório de intenção de plantio para a nova safra brasileira de soja realizado por Safras & Mercado apontou grande indefinição, mas tendência de novo corte significativo da área plantada. Mesmo assim, embora seja cedo para definir o tamanho dessa redução, muito dificilmente a direção dessa postura dos produtores será alterada. O problema central está na descapitalização geral dos produtores pelo segundo ano consecutivo, e também pela falta de um cenário mais claramente positivo para o próximo ano. Pelo levantamento, a área a plantar ficaria entre um intervalo de 19,8 milhões e 21,2 milhões de hectares, com média de 20,5 milhões ha, 8% abaixo dos 22,2 milhões cultivados em 2005.

Mais uma vez os fatores negativos devem predominar na decisão dos produtores. São os seguintes: preços internos mais baixos em 2006, influenciados pelo recuo combinado na taxa de câmbio e na Bolsa de Chicago; perdas de produtividade pelo terceiro ano consecutivo; lucratividade negativa pelo segundo ano seguido, intensificando o processo de descapitalização; custos de produção menores que em 2005/06, mas ainda elevados; oferta de crédito ainda mais enxuta em função do endividamento; expectativa de mercado apenas um pouco melhor em 2007.

Considerando esse recuo na área, a expectativa de outro ano com provável recuo na utilização de insumos, e a incômoda presença da ferrugem asiática, projetamos inicialmente produtividade média em apenas 2.701 kg/ha. Isso considerando condições climáticas regulares, portanto, melhores que as observadas nas últimas três safras. Mesmo assim bem abaixo do potencial para o País de 2.800 a 2.900 kg/ha em condições de normalidade de clima e investimentos. Com isso o potencial desta nova safra ficaria projetado inicialmente em 55,3 milhões de toneladas, 0,4% superior à revisada safra de 55,1 milhões obtida em 2006.

Com esse volume potencial de produção, montamos uma primeira sinalização para o quadro de oferta & demanda do complexo soja brasileiro no ano comercial 2007/08, onde podemos eleger alguns destaques. Na soja em grão, aumento de 7% no esmagamento e corte nas exportações, visando atender ao aumento na demanda interna de subprodutos, com recuo nos estoques. No farelo, aumento razoável no consumo interno e busca por novos mercados na exportação, embora com geração de estoques elevados de passagem. E no óleo, forte aumento do consumo interno para atender a demanda para a produção de biodiesel.

Indefinição é grande — Os produtores brasileiros se preparam para definir o planejamento para a safra de verão 2006/07 e a palavra predominante é indefinição. A exemplo do que já foi observado no ano que passou, passamos o mês de agosto com os produtores muito atrasados na definição de sua postura para o cultivo de soja. E isso acontece em relação ao tamanho da área a ser semeada e também ao próprio nível tecnológico a ser empregado, já que a escassez de crédito é intensa e as compras de insumos estão bastante atrasadas. Em tese essa foi a principal conclusão do levantamento anual de intenção de plantio realizado por Safras & Mercado e divulgado no último dia 21 de julho. Em outras palavras isso significa dizer que a tendência já estabelecida na safra passada estaria mantida, ou seja, queda expressiva na área cultivada com soja e redução no nível de investimento das lavouras. É preciso deixar claro que ainda há muito tempo para a definição desses números e uma reviravolta do mercado, para cima ou para baixo, mexeria na decisão dos produtores. No entanto, acreditamos que uma nova redução de área seja inevitável.

O problema central que vai determinando essa falta de motivação para a soja, conforme veremos com mais detalhes logo na seqüência, está na descapitalização observada pelos produtores brasileiros pelo segundo ano consecutivo, combinado com a sinalização de um mercado apenas levemente melhor em 2007. Portanto, sem condições aparentes de reverter a crise iniciada na temporada passada. Salvo na ocorrência de grandes alterações que possam surgir no mercado internacional ou em relação à taxa de câmbio.

Menor área em quatro anos — Pelo levantamento, a área a ser cultivada no Brasil na safra 2006/07 ficaria abaixo em 12,1% ao recorde de 23.284 mil ha plantados na safra 2004/05. Isso significa o menor plantio no País em quatro anos, superando apenas os 18.336 mil ha cultivados em 2002/03. Na safra atual de 2005/06 a intenção de plantio realizada por Safras & Mercado ficou em 22.536 mil ha, portanto apenas 1,7% acima da área efetivamente cultivada de 22.156 mil ha. Em 2004/05 a intenção ficou ainda mais ajustada, considerando que os 23.095 mil ha do levantamento de julho ficaram apenas 0,8% abaixo da área plantada de 23.284 mil ha.

Essa redução deve ser concentrada nos Estados do Centro-Oeste e Sudeste. No primeiro caso, a queda está inicialmente projetada em 14%, com áreas sendo transferidas parcialmente para a cana-de-açúcar, um pouco para algodão e arroz, e com retorno para a pecuária. Além de áreas que seriam simplesmente deixadas de lado. De todo o modo, entendemos que a retração ocorreria em áreas marginais e menos nobres, e que áreas de boa produtividade não ficarão sem plantar. No Sudeste o recuo de área está avaliado em 13,5%, também com algumas áreas retornando para a pecuária, mas, principalmente, sendo destinadas à cana. No Norte e Nordeste a redução seria menos expressiva, de 7,1% e 2,0%, respectivamente, seguindo o mesmo padrão de transferência. Apenas na região Sul é que chegamos a uma sinalização de área estável sobre a safra anterior, diante das melhores condições de mercado e de rentabilidade, e também pela falta de opções para as outras culturas alternativas. Exceção feita à cana, que pode tomar um pouco de área no norte do Paraná.

Fatores de desestímulo — Para chegarmos a esse sentimento outra vez negativo em relação à área a ser cultivada com soja no Brasil percebemos o predomínio do impacto dos fatores de desestímulo aos produtores, conforme observamos na seqüência:

(a) Preços internos baixos em 2006 – Da média brasileira de R$ 24,10/saca de 60 kg no primeiro semestre deste ano, temos uma retração de 15% sobre a média de R$ 28,39 observada durante todo o ano de 2005. Esse resultado ruim está ligado à combinação de perdas no mercado de futuros em Chicago e na taxa de câmbio;

(b) Queda na Bolsa de Chicago – No primeiro semestre a soja no mercado de futuros da Bolsa de Chicago teve média de US$ 5.83/bushel, com queda de 4% sobre os US$ 6.08/bushel do ano passado. Pressão exercida basicamente pelo acúmulo de estoques recordes nos Estados Unidos e no mundo;

(c) Menor taxa de câmbio – Entre janeiro e junho de 2006 a taxa média de câmbio ficou em R$ 2,1907, com perda de 10% sobre os R$ 2,4339 da taxa média do ano anterior. Esse movimento esteve mais uma vez ligado ao grande volume de entrada de divisas no País;

(d) Perdas de produtividade – Pelo terceiro ano consecutivo o País sofreu com a irregularidade climática e com as perdas por pragas e doenças, especialmente no caso da ferrugem asiática. Com isso a produtividade média em 2006 está avaliada em 2.489 kg/ha, apenas ligeiramente superior aos desastrosos rendimentos de 2.321 kg de 2005 e de 2.330 kg de 2004. Além de ter ficado muito abaixo do potencial de 2.800/2.900 kg/ha, em condições normais de clima e tecnologia;

(e) Custos de produção elevados – Embora os primeiros indicativos sejam de que os custos de produção desta nova safra sejam menores que os praticados em 2005, esses números continuariam elevados e atuando decisivamente nessa limitação de cultivo da soja, notadamente nos Estados da região central;

(f) Lucratividade negativa – Considerando a somatória de custos elevados, baixa produtividade e receita menor, temos como resultado o segundo ano consecutivo de lucratividade bruta negativa para a soja no Brasil. A safra 2004/05 já teve resultado médio predominantemente negativo de lucratividade, ficando em -17% no Paraná, -10% no Mato Grosso e de -190% no Rio Grande do Sul (perdas distorcidas pela ínfima safra colhida no Estado). Para a safra 2005/06 os resultados parciais apontam lucratividade negativa em 30% no Paraná, 45% no Mato Grosso e de 9% no Rio Grande do Sul;

(g) Crédito privado ainda mais enxuto – A queda na renda dos produtores combinada com o endividamento observado nos últimos anos e o elevado nível de inadimplência deve reduzir ainda mais a disponibilidade de recursos privados para o financiamento desta nova safra. Movimento seqüencial ao já observado no ano que passou;

(h) Expectativa de mercado modesta para 2007 – Por último, a sinalização de que o mercado em 2007 esteja apenas levemente melhor do que em 2006. Esse sentimento está ancorado na perspectiva de safra mundial estabilizada para o próximo ano e possibilidade de que os estoques se mantenham ou até caiam um pouco. Mas o suporte está limitado pela possibilidade de que a safra dos EUA fique acima do previsto atualmente e por uma retração de área no Brasil menor que o esperado pelo mercado;

Fatores inibidores da queda — Por outro lado, devemos também destacar a existência de alguns fatores que devem atuar no sentido de amenizar essa expectativa de recuo da área no País:

l Mal ou bem existe chance dos preços internos em 2007 serem ao menos um pouco melhores que em 2006, seja por uma taxa de câmbio subindo um pouco, ou por algum avanço em Chicago, caso os estoques mundiais realmente não avancem. Nessa condição e obtendo uma boa produtividade, muitos produtores podem ter resultado positivo no próximo ano, principalmente na região Sul e Sudeste;

l Falta de alternativas empolgantes entre as outras culturas concorrentes à soja, com exceção à cana-de-açúcar, já que o mercado também se mostra limitado para milho, arroz, algodão e feijão. Tanto que o levantamento de intenção de plantio apontou queda de 2,6% na área de verão no milho, aumento de 1,9% no arroz e de 1,2% no feijão. Apenas o algodão avançaria 16,3%, mas em cima de uma área muito pequena da safra atual e com peso relativamente modesto sobre a soja;

l Opções de crédito ainda mais complicadas nas culturas alternativas à soja;

l Custos de produção ainda mais altos no milho e no algodão;

l Decisão a favor da soja pesando em função de sua elevada liquidez e da relação direta com o mercado internacional. Ou seja, soja atuando como poupança e reserva de valor;

l Lei agrícola nova nos EUA, que deve continuar limitando a expansão da área de soja; l Avanço esperado na utilização de variedades transgênicas.

Produção potencial mostra estabilidade — Mas apesar do que se possa imaginar inicialmente, esse forte recuo na área a ser cultivada nesta nova safra pode não resultar necessariamente em diminuição na produção. Basta para isso que tenhamos desta vez um clima mais regular, do que as problemáticas últimas três safras. E que também seja possível um melhor controle e a redução das perdas decorrentes da ferrugem asiática. Inicialmente estamos considerando um rendimento médio potencial de 2.701 kg/ha para o País, 8,5% acima dos 2.489 kg da safra atual, considerando as limitações impostas por uma menor utilização teórica de tecnologia e pela presença disseminada da ferrugem. Mesmo assim ficaria bem abaixo do potencial normal que em condições boas de clima e de utilização de insumos ficaria entre 2.800 e 2.900 kg/ha. Nessas condições temos um potencial de safra avaliado preliminarmente em 55.278 mil t, que ficaria apenas 0,4% acima da revisada safra de 55.082 mil t que colhemos em 2006.

Considerando esse posicionamento preliminar da nova safra, montamos uma indicação inicial para o quadro de oferta & demanda para o próximo ano comercial (2007/08), de onde destacamos:

* Na soja em grão, aumento em 7% no esmagamento visando atender o aumento da demanda interna de subprodutos, passando a 30.000 mil t. Corte nas exportações de 8%, passando a 23.500 mil t. E estoques finais menores em 22%, caindo a 430 mil t. Na safra atual, corrigimos para cima a produção, em função do fluxo acima do esperado nas exportações;

* No farelo, aumento avaliado em 4% no consumo interno, passando a 9.800 mil t, em cima da razoavelmente boa expectativa para o setor de carnes. Aumento de 6% no potencial de exportação, passando a 13.200 mil t, pela busca de novos mercados decorrente dos excedentes de produção. Mesmo assim os estoques subiriam 37%, passando a 928 mil t;

* No óleo, profunda mudança no perfil de consumo decorrente do avanço na utilização para a produção de biodiesel. Para 2007 estamos estimando que 700 mil a 800 mil t sejam destinadas a esse objetivo. No total o consumo interno saltaria 27%, passando a 4.050 mil t. Como efeito, teríamos as exportações caindo mais 9%, fechando a 2.000 mil t; aumento nas importações; e estoques recuando a 162 mil t, com perda de 24%.