Eduardo Almeida Reis

 

BURROS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Pode ficar tranquilo que não vou falar dos eleitores brasileiros, mas dos animais híbridos, estéreis, produzidos pelo cruzamento do cavalo com a jumenta, ou da égua com o jumento (Houaiss). Diplomata, gourmet, poliglota, lexicólogo, se entendesse de equinos, Houaiss saberia que o produto do cruzamento do cavalo com a jumenta é o bardoto, feminino bardota, menos comum que o burro e a mula pelo seguinte: a égua é muito mais receptiva ao jumento do que a jumenta ao cavalo. Além disso, parece que o bardoto e a bardota têm "menos" qualidades, como diz o Lula, que o burro e a mula.

Qualidades discutíveis como atestou o genial Richard Francis Burton (1821- 1890) e atesta aqui o cronista. O capitão Sir Richard Francis Burton, escritor, tradutor, linguista, geógrafo, poeta, antropólogo, erudito, orientalista, espadachim, explorador, agente secreto e diplomata britânico falava 35 idiomas e entendia 50 dialetos, enquanto o cronista d’A Granja mal fala português.

Em um dos livros que escreveu sobre suas andanças pelo Brasil, Burton conta que nunca percorreu 100 quilômetros montado em um burro, que o quadrúpede não lhe pregasse uma peça.

Minha experiência foi menor, mas confirma o depoimento do inglês. De férias em Lambari, muito acima do peso suportado pelos cavalos de aluguel, aluguei o burro do Amercão, cigano estabelecido naquelas Águas Virtuosas. Burro grande, rosilho, manso, que transportava o Amercão do seu sítio até a praça onde alugava cavalos.

No trajeto, então em estrada de terra, Amercão gostava de atravessar o burro no caminho enquanto picava o fumo de rolo do seu cigarro para mostrar aos veranistas quem mandava por ali. Os automóveis parados em fila e o cigano picando seu fumo. Um dia teve a desventura de repetir a cena quando vinha pela estrada um coronel paraquedista do Exército, meu amigo e companheiro de caçadas, pilotando seu velho Ford cupê.

Como bom coronel do Exército de Caxias, pisou no acelerador e ameou o burro, que foi a óbito enquanto o Amercão, com as pernas quebradas, foi parar no hospital. Nas Águas Virtuosas daquele tempo havia um médico muito bom, que conheci pessoalmente, notável por observar os pedidos que recebia. Se o pedido era “para salvar”, o doutor fazia o possível e o impossível para curar o paciente. Sem pedidos, deixava por conta do destino, que muitas vezes colabora na recuperação.

Pois muito bem: aluguei o rosilho do Amercão e passei o mês passeando todos os dias. Na véspera da viagem de volta, depois do longo passeio matinal, parei diante da loja de queijos e doces lambarienses, comprei uma porção de presentes, meti-os em um saco branco e tentei montar no burro.

O animal disparou pelos paralelepípedos da cidade tirando faíscas, com o saco branco de um lado e o volumoso veranista do outro. Devo confessar que cheguei meio assustado à pracinha do aluguel dos animais. O saco e o ginete sobrevivemos.

Muito melhor que a firmeza dos burros é um cavalo tão firme quanto. Não nos prega as peças dos híbridos e nos permite transitar pelos mesmos caminhos que os poetas chamam de ínvios. Adjetivo que nos chegou do latim invius, a, um e significa “em que não há caminho, inacessível, impraticável”.

Tive o castanho Pensamento, professor de equitação de duas de minhas filhas. Manso, firme, leal, marchador, sabia pular se exigido. Chico Peão, irmão do citado Amercão, certa feita elogiou a marcha do Pensamento lá mesmo em Lambari. Pediu para dar um repasse, montou e chamou o castanho nas esporas. Só não caiu porque fazia jus ao nome, mas o cavalo pulou bonito.

Jamais me pregou uma peça, nem às pessoas da família. Em um dos passeios pelas serras sul-mineiras, montado por minha mulher em um trilho estreito, que beirava linda cachoeira, foram atacados por um enxame de abelhas.

Comandado, girou sobre as patas traseiras e disparou de volta pelo trilho. A amazona perdeu seus óculos escuros. Dia seguinte, um fazendeiro da região se prontificou a procurar os óculos. A pé, caminhando pelo trilho, teve imensa dificuldade para alcançar o local.

Das muitas coisas que deixei de fazer por causa da idade, sinto falta das cavalgadas. Bebi cavalarmente durante séculos, parei de livre e espontânea vontade há três anos, não tenho ressacas e não sinto falta do álcool. Raramente bebo alguma coisa só para entrar no clima da reunião festiva. Dos cavalos sinto muita falta e vivo repetindo a frase de Churchill, escritor e estadista de minha particular admiração: “Nenhuma hora passada em cima de um cavalo é uma hora perdida”.