Internacional

 

Produtores NORTE-AMERICANOS são exemplo de foco

Colunista d’A Granja conhece os problemas, as soluções e, sobretudo, os exemplos da agricultura americana e dos seus agricultores, ao participar de conferência das associações de produtores de soja, milho, sorgo e trigo dos EUA

Glauber Silveira, presidente da Câmara Setorial da Soja, vice-presidente da Abramilho e diretor conselheiro da Aprosoja

Estive no Commodity Classic, a conferência das associações de produtores de soja, milho, sorgo e trigo dos EUA, em San Antonio, Texas, no mês passado. Já participei em diversas oportunidades e sempre fico impressionado com o exemplo de determinação, foco e organização das entidades. Nas diversas reuniões que acompanhei com outros diretores da Aprosoja/MT e Aprosoja Brasil, pude observar quais são suas prioridades e preocupações. E é isto que irei relatar. O representante do Usda (equivalente ao Ministério da Agricultura do Brasil), Joining Mayfield, diz que tem pressa em rever a Farm Bill (Lei Agrícola dos EUA), pois os consumidores estão mais exigentes nas questões de sustentabilidade. Eles terão uma reforma tributária, mas não sabem ainda qual será o impacto na agricultura.

O presidente da Associação dos Produtores de Soja (ASA), Ron More, disse que estão tendo pressão sobre preços, insetos e ervas daninhas, e que precisam buscar ferramentas para amenizar esses problemas. Estão atentos a cobranças com a qualidade da água e a aprovação de novas tecnologias, afinal, o mundo exige uma produção mais sustentável a cada ano. O desafio é entregar para a próxima geração uma agricultura mais sustentável do que a que recebemos. O grande desafio nesse quesito é comunicar o que de positivo estão fazendo. E cada fazendeiro deve ser um precursor na sua região.

E é importante que compartilhemos as Glauber Silveira tecnologias da produção sustentável.

Devemos ser contadores de histórias, contar a nossa história de como chegamos até aqui e o que queremos para o futuro. More disse ainda que eles estão levantando fundos para estudos da qualidade da água e para pesquisas, que os produtores apoiaram Donald Trump, mas que precisam conversar com o Presidente para mostrar o quanto a agricultura é importante para os EUA. Ele lembrou que Trump tem compromisso com um grande programa de infraestrutura, ou seja, se esperam investimentos de US$ 1 trilhão em infraestrutura nos próximos anos.

O presidente da Associação Nacional de Milho, Wesley Spurlock, revelou que nos últimos anos o preço do cereal caiu, e que é preciso achar novos caminhos para que a produção cresça. A indústria de ração é fundamental para isso, precisa continuar tendo acesso aos consumidores, que depende também dos acordos comerciais, mas está confiante no aumento da produção de milho devido ao avanço da tecnologia. O presidente da Associação de Sorgo, Don Bloss, explicou que os produtores estão focados no desenvolvimento de novos híbridos, que a produtividade tem crescido muito, que a universidade tem estado muito próxima dos produtores e que os produtores começaram a investir em mais tecnologia, além da busca por mais mercado, assim como o uso intensificado para a produção de etanol. O sorgo tem um grande potencial, pois a cultura tem maior resistência ao estresse hídrico.

O presidente da Associação Nacional de Trigo, Gordon Stoner, contou que é preciso mudar o cenário da produção do cereal nos EUA, afinal, o produtor da China tem mais rentabilidade e, além disso, a produtividade americana tem caído. É preciso, portanto, buscar tecnologia para melhorar a produtividade e trazer rentabilidade. A produtividade do trigo nos últimos 15 anos não melhorou e também não buscou agregar valor, como é o caso da soja e do milho. O consumidor continua buscando qualidade e é isso que precisa ser oferecido.

Relação agricultura e economia americana — Qual a importância da economia agrícola para a economia dos EUA? A economia dos EUA não passa por um bom momento. Sendo assim, a economia agrícola é uma segurança ao país. Se a economia agrícola passa por dificuldades, o país é afetado, pois a agricultura é a base da economia dos EUA. O Governo tem falado que vai gerar mais empregos, e os agricultores estão preocupados, afinal, todos são exportadores. Se Trump fizer retaliações às importações, a agricultura será afetada.

Os produtores americanos dizem que é importante continuar conscientizando as pessoas da importância da agricultura. Nos EUA, apenas 2% da população vive no campo. O gerenciamento de risco é fundamental para a sobrevivência da agricultura, ou seja, é fundamental que continue o subsídio ao seguro agrícola norte- americano. Quando se tem uma política bem implementada em gerenciamento de risco, a renda aumenta. Sendo assim, eles estão focados em aumentar a exportação para dar oportunidade de crescimento à produção com rentabilidade.

Silveira: “Sem dúvida eles estão à frente na organização, e servem de inspiração para nossas associações. E tenho certeza que assim como o produtor brasileiro é insuperável na produção, será também na representação”

A American Soybean Association (ASA) vai completar 100 anos. Os principais objetivos da associação é advogar junto ao Governo federal nas resoluções ligadas à agricultura, e também tem um foco em busca de mercado e tecnologia. E tem uma atuação forte na legislação. Os produtores priorizam o que pode ser aprovado. Para discutir a Farm Bill, eles criam comitês de discussão onde priorizam os pontos mais importantes da lei, e ficam naquilo que pode ser resolvido. Como o voto é distrital, os agricultores têm um apoio de uma base de deputados. Mas também precisam fazer o convencimento da importância da agricultura. E como na lei tem uma parte social, eles conseguem apoio de mais deputados.

Aqui está uma dica importante para nós olharmos na elaboração de nossa lei. Nos EUA, todo produtor é obrigado a pagar 0,5% da venda da soja para o fundo da soja dos EUA. E dentro dos estados também tem uma contribuição de 0,5%. O dinheiro para o fundo não pode ser usado para lobby, mas pode para ações de desenvolvimento da soja, como pesquisa, marketing, despesas da associação, etc. O dinheiro usado para desenvolvimento do lobby vem da contribuição voluntária. Eles também levantam recursos junto a multinacionais que veem a importância do trabalho. O USB, o instituto mantido pelos produtores, focado na exportação e novos mercados, investe em pesquisa.

Desse investimento existe um retorno, sendo que para cada dólar investido eles buscam US$ 2 de retorno. Há 12 anos eles criaram um conselho exportador de soja cujo trabalho é abrir mercado, e trabalham em conjunto com o Isga (International Soybean Growers Alliance), a aliança internacional dos produtores de soja, da qual a Aprosoja é associada, para aprovação de importação de soja originária de novas tecnologias, um dos exemplos foi o trabalho realizado para a liberação da importação da soja intacta pela China. O USB possui uma atuação forte na China e na Índia, onde faz um trabalho de abertura de mercado e aumento do consumo de soja, um exemplo foi o trabalho desenvolvido para que os chineses usassem ração na criação de suínos, o que fez com que a China aumentasse a cada ano o consumo de soja e milho.

Problemas com a resistência de daninhas — Com os diretores da ASA conversamos sobre questões técnicas. Uma delas foi a resistência de ervas daninhas, que nos EUA é muito séria. Tanto que formaram um consórcio para orientar o produtor sobre o manejo dos químicos. Eles estão tentando também orientar o produtor a usar diferentes princípios ativos. E estão desenvolvendo um programa para acompanhamento dos defensivos, orientando sobre manejo e rotação de princípios ativos. Nos EUA não foi adotada a soja Intacta, pois os produtores já usufruíam a resistência em outras culturas. O grande problema deles não é o inseto, mas sim as plantas daninhas.

A ASA leva todos esses problemas de produção aos legisladores para a busca de soluções, com marcos regulatórios, como aprovação de novas tecnologias. Nos EUA, os produtores têm também problema com comunicação referente à imagem: 50% dos norte-americanos não entendem a agricultura. Eles estão mudando a forma de comunicação dos transgênicos, dizendo que é uma forma de sustentabilidade.

Com a eleição do presidente Trump, boa parte do meio agrícola viu a oportunidade de eleger um não politiqueiro, e sim um homem de sucesso nos negócios. E é por isso que ele virou presidente. As coisas já estão bem consolidadas, uma coisa é o que ele falou na campanha e outra é o que vai acontecer. O mercado exterior é importante para os Estados Unidos. Com relação às taxações, eles não vão apoiar. Como podemos observar, muitos problemas deles são semelhantes aos nossos. Mas sem dúvida eles estão à frente na organização, e servem de inspiração para nossas associações. E tenho certeza que como o produtor brasileiro é insuperável na produção, será também na representação.