Inteligencia

 

Protagonismo agrícola depende da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

O setor agropecuário brasileiro carece de uma eficiente rede de comunicação que possibilite promover e influenciar a tomada de decisões em tempo real. E cabe ao segmento exigir tal infraestrutura já disponibilizada nos competidores EUA, Europa e Ásia

Bernhard L. Kiep, agropecuarista em Itaberá/SP, gerente geral da Bermad, conselheiro da Pessl/Metos da Áustria e conselheiro da Irriger

O Brasil é um gigante na agricultura, enquanto outros segmentos como a indústria automotiva, máquinas-ferramentas ou mesmo a indústria de tecnologia não se desenvolveram como esperado nos últimos cinco anos no Brasil se comparados com a agricultura. Em parte, é devido à demasiada burocracia, falta de infraestrutura básica e leis trabalhistas e tributárias complexas. Mesmo assim, a agricultura brasileira vem crescendo e atualmente é o único segmento do nosso PIB que se mostra globalmente competitivo.

A agricultura moderna exigirá a análise dos dados transmitidos pelos sensores em tempo real interativos com dados históricos para o controle de máquinas, de insumos e, principalmente, como base para decisões gerenciais assertivas

A natureza tem abençoado o Brasil com um clima quase perfeito e campos abundantes que permitem aos agricultores cultivar duas a três culturas por ano. Aproveitando essa vantagem competitiva, o Brasil tem um grande número de agricultores profissionais que têm liderado o caminho para a construção desse milagre. No resto do mundo faltam agricultores capazes. Outro fator positivo são os programas de fomento competitivo apoiado pelo Governo federal e os financiamentos de ativos fornecidos por instituições públicas e privadas. Outro fator, a pesquisa em tecnologia de agricultura subtropical também tem desempenhado um papel importante nessa transformação. Essas vantagens inerentes, junto com o apoio governamental e institucional, tornaram o Brasil a potência que somos.

Bernhard Kiep: “Para não ficarmos para trás nessa crítica corrida da tecnologia do uso da inteligência artificial no campo, devemos, como agricultores, agir agora, através de uma iniciativa organizada e pontual”

Embora possamos ter orgulho da nossa agricultura atualmente, quais serão os maiores obstáculos para o Brasil continuar crescendo e se tornar o maior exportador de proteína do mundo? A resposta simples é a seguinte: tecnologia via inteligência artificial. Falamos sempre em melhorar a infraestrutura e em menos burocracia tributária e trabalhista. Estradas melhores, portos eficientes e armazenamento adequado, são óbvios. Todavia, existe outra: como vamos usufruir a inteligência artificial no Brasil? Ter a infraestrutura de comunicação no campo será critico.

Construir “rodovias de comunicação”, infraestrutura para transmissão de dados, se tornará o maior desafio na sustentação do nosso setor de agricultura subtropical moderno. Com a nova Revolução da Internet das Coisas (IoT em inglês), realmente poderemos melhorar e sustentar o setor agrícola brasileiro. Mas temos hoje uma estratégia clara para construir uma boa infraestrutura de comunicação na área rural? Infelizmente, não!

A maioria das pessoas agora vai dizer que o Brasil precisa de boas conexões de Internet para acomodar usuários do Netflix; ou ajudar a indústria automotiva a desenvolver e implementar carros autodirigidos via G5. Mas e o agronegócio? Fato é que grande parte da nova tecnologia disponível para o setor agrícola é cada vez mais dependente de sensores que monitoram e relatam dados aos agricultores. Seja sensores que monitoram a umidade ou o estresse das plantas podendo prever doenças; ou a utilização de inteligência artificial para controlar plantadeiras ou o monitoramento de parâmetros de manutenção em máquinas complexas.

A agricultura moderna exigirá a análise dos dados transmitidos pelos sensores em tempo real interativos com dados históricos para o controle de máquinas, de insumos e, principalmente, como base para decisões gerenciais assertivas. Quanto maior a fazenda, mais importante será essa tecnologia para controlar os custos e alcançar uma margem de lucro aceitável.

Big Data ou Right Data — Como serão transmitidos e recebidos no campo os dados advindos do chamado Big Data (eu prefiro chamá-lo de Right Data - dado correto)? A nova banda estreita (radio frequência) chamada New Narrow Band IoT está sendo desenvolvida enquanto falamos, na Ásia, Europa e EUA. Todo o Hemisfério Norte está investindo ativamente e buscando soluções para essas demandas. Na França, podemos ver a radiofrequência LORA tornar-se o novo padrão para os agricultores na gestão de inteligência artificial no campo.

Sem a capacidade de monitorizar instantaneamente os dados através de sensores, a agricultura biodinâmica/orgânica seria muito mais complicada na Europa e será fundamental para a produção agrícola sustentável no futuro. Ter o diagnóstico da cultura em tempo real é a melhor maneira de intervir preventivamente. Pergunte aos produtores de maçãs na Áustria ou Polônia (os maiores produtores da Europa) como eles controlam as doenças e reduzem o uso de produtos químicos. É através de sensores que usam a comunicação IoT!

O Brasil precisa tomar rapidamente consciência dessa questão e trabalhar com os gigantes dessa tecnologia como Telefônica, Claro ou TIM para apoiar e iniciar ações. Será que o Governo vê a necessidade de facilitar e regulamentar esse segmento? Em relação às outras potências da agricultura do mundo, o setor agropecuário brasileiro está muito carente de uma boa rede de comunicação que seja eficiente para promover e influenciar a tomada de decisões em tempo real.

Para não ficarmos para trás nessa crítica corrida da tecnologia do uso da inteligência artificial no campo, devemos, como agricultores, agir agora, através de uma iniciativa organizada e pontual. Não podemos colocar em risco a posição conquistada ao longo das últimas décadas. Cabe a nós, agricultores, o dever de influenciar nessa necessária mudança para o nosso País, antes que seja tarde demais.