Licenciamento

 

A polêmica do marco REGULATÓRIO

É urgente e necessário que o licenciamento ambiental tenha um marco regulatório. O Projeto de Lei nº 3.729/2004, já redigido e à espera de votação na Câmara dos Deputados, é bom e pode dar segurança aos procedimentos de proteção ao meio ambiente. Porém, ainda há pontos nebulosos e também subjetivos

Samanta Pineda, consultora jurídica da Frente Parlamentar de Agropecuária

Oassunto já foi objeto de outro artigo meu aqui n’A Granja. Na ocasião, o foco do debate era a lentidão e a insegurança dos processos de licenciamento ambiental, o que originou diversas propostas de regulamentação do tema, dentre elas um projeto Leandro Mariani Mittmann do senador Romero Jucá (PMDB/PE) que dispensava de audiências públicas grandes empreendimentos de infraestrutura como estradas e ferrovias. Entendida como flexibilização das exigências ambientais, a proposta causou grande polêmica e teve diversas modificações. Está aguardando inclusão em pauta para votação, mas sem previsão.

Já na Câmara dos Deputados, as discussões evoluíram muito em relação ao Projeto de Lei nº 3.729/2004, cuja redação está pronta para ser votada, já com pedido de pauta à presidência da Casa. Há indícios de acordo, mas isso não quer dizer que há consenso entre os segmentos ligados ao ambientalismo e o setor produtivo, representado por agricultura, pecuária, construção civil, energia, indústria e outros. Os pontos de divergência diminuíram a ponto de não haver acordo nas discordâncias restantes, sendo a votação a única saída.

Relembrando a situação atual do tema: não há no Brasil uma lei federal geral sobre licenciamento ambiental, embora haja uma lei determinando que qualquer empreendimento ou atividade potencialmente poluidora deve ser licenciada. Assim, cada estado tem procedimentos e exigências diferentes, muitos sem qualquer regularidade ou padronização, o que gera insegurança jurídica, principalmente em relação à possibilidade de mudança das regras no meio do jogo.

O PL nº 3.729/2004 cria normas gerais para o licenciamento ambiental, institui novos tipos de licença, dispensa do licenciamento ambiental algumas atividades e traz a novidade da Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), que deverá ser feita pelos responsáveis pela formulação de políticas públicas da União, estados e municípios. Trata-se de uma ferramenta de planejamento para integrar os aspectos ambientais macro ao contexto social, político, econômico e territorial.

O instrumento é bom e pode facilitar a celeridade dos licenciamentos caso seja realizado. No entanto, a experiência nos diz que o Poder Público não é muito bom em seu dever de casa e que, na maioria das vezes, a falta da realização da sua parte prejudica o todo. Tomem-se por exemplo os Programas de Regularização Ambiental que os estados deveriam ter feito para a implantação efetiva do Código Florestal. Muitos estados não o fizeram ou editaram diversos decretos, portarias e instruções normativas que não atingiram o objetivo de criar realmente um procedimento de regularização ambiental aos produtores, dificultando ou impedindo esta regularização.

Pelo projeto, algumas atividades serão dispensadas de licenciamento, como a área rural consolidada, a do Código Florestal, com agricultura, silvicultura ou pecuária implantada antes de 22 de julho de 2008

Outra novidade da proposta são novas modalidades de licença. Atualmente a maioria dos estados trabalha com o licenciamento tradicional, composto pela Licença Prévia (LP), que aprova a localização do empreendimento; Licença de Instalação (LI), que permite sua implementação desde que cumpridas as condicionantes da LP; e Licença de Operação (LO), que permite o funcionamento do empreendimento ou atividade, quando constatada a regularidade da instalação e o cumprimento das imposições da LI.

O PL, no entanto, propõe a criação de outras modalidades de licença para preencher lacunas encontradas na realidade do funcionamento de empreendimentos existentes e atividades já implantadas. É o caso, por exemplo, da Licença de Operação Corretiva (LOC), que pretende regularizar empreendimentos que estejam operando sem licença ambiental, adequando as atividades à legislação vigente mediante apresentação de relatório de controle ambiental (RCA). Fica instituída também a Licença Ambiental Única (LAU), que autoriza, em uma só etapa, a instalação e operação de um empreendimento, determinando ações e condições para seu funcionamento, monitoramento e desativação, quando necessária.

Uma novidade que será de grande utilidade é a Licença Ambiental por Compromisso (LAC), para aqueles empreendimentos e atividades cujos impactos e características já são conhecidos e o procedimento pode ser abreviado pela adesão do empreendedor aos critérios e às condições estabelecidos pelo órgão licenciador, mediante apresentação de um relatório de caracterização do empreendimento (RCE). Essa modalidade permite, por exemplo, a emissão rápida de licenças ambientais eletrônicas, sendo muito mais célere e menos burocrática. Essas novas modalidades de licença são certamente uma resposta à grande diversidade de atividades existentes e que muitas vezes ficavam na ilegalidade por não haver um procedimento adequado ao caso concreto.

O texto propõe também a padronização dos prazos de validade das licenças e condições para renovação que variavam muito entre os estados e tinham critérios diversos para sua definição. Uma grande vitória é a obrigatoriedade de existência do termo de referência, uma espécie de guia que deve listar a documentação necessária, o conteúdo dos estudos a serem apresentados e demais exigências para cada tipo de atividade no processo de licenciamento. A existência desse termo vai acabar com aquele sem-fim de pedidos de complementação de documentos feito por órgãos ambientais e irá nortear a tomada de decisão do empreendedor, já que este poderá dimensionar o tamanho do investimento ambiental.

Critérios subjetivos — Algumas atividades serão dispensadas de licenciamento ambiental, segundo o projeto. Uma delas é a velha conhecida área rural consolidada, aquela do Código Florestal com atividade de agricultura, silvicultura ou pecuária implantada antes de 22 de julho de 2008. No entanto, o projeto condiciona essa dispensa à adesão a um programa de regularização ambiental, que, na prática, não é obrigatória pelas regras do Código. O ponto mais polêmico e criticado do projeto está na criação, pelo Ministério do Meio Ambiente, de critérios, tidos como subjetivos pelo setor produtivo, para definir o procedimento a ser utilizado no licenciamento e os estudos necessários.

Há vários tipos de estudos e de procedimentos para se obter a licença ambiental, uns mais complexos e custosos, outros céleres e simples. Ocorre que, segundo o texto proposto, o que vai determinar qual tipo de estudo será necessário e qual o procedimento de licenciamento aquela atividade ou empreendimento irá se submeter é a análise da relação entre três critérios: a) seu potencial poluidor; b) seu porte; e c) se o local em que se encontra ou pretende se instalar está em área de grande relevância ambiental e, como dizem na roça, é aí que a porca torce o rabo!

O projeto segue descrevendo critérios para classificar essa relevância com variáveis que vão de locais prioritários para conservação da biodiversidade, existentes em mapa do Ministério do Meio Ambiente, à existência de unidades de conservação, terras indígenas, quilombolas e outros. Já o potencial poluidor será definido por ato normativo do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).

Certamente existem áreas ambientalmente frágeis e empreendimentos e atividades com diferentes níveis de potencial poluidor e degradador. No entanto, dependendo da análise dos critérios citados, pode-se chegar ao ponto de haver grande restrição de uso em determinadas áreas sem qualquer contrapartida ao produtor.

Não se pode esquecer que as áreas com grande relevância ecológica ou que abriguem espécies importantes da fauna ou da flora dispõem do instrumento legal unidades de conservação, listadas e classificadas em vários níveis de proteção na Lei nº 9.985/2000, que prevê indenização àqueles que tiverem suas atividades prejudicadas. No projeto em discussão, no entanto, poderá haver necessidade de estudos e procedimentos tão complexos e dispendiosos que serão formas indiretas de inviabilização de determinados tipos de atividades, sem qualquer previsão de indenização ou compensação.

De fato, é extremamente necessário e urgente o marco regulatório do licenciamento, porém é preciso muita cautela. A burocracia sempre foi a responsável por atrasos na evolução da nossa economia, sem nos dar resultados eficientes de proteção, seja ambiental, trabalhista, tributária ou outra.

Samanta: “Aconselho deixar a proteção de áreas de relevante interesse ecológico e prioritários para a conservação para uma das categorias de unidade de conservação, descritas detalhadamente na Lei nº 9.985”

O conjunto do projeto é muito bom, soluciona diversos problemas com instrumentos eficientes e bem descritos que certamente irão dar mais segurança a todo procedimento e ajudarão a cumprir o objetivo principal da lei, que é a proteção do meio ambiente. No entanto, a base de todo o licenciamento são os critérios em que vão ser apoiadas as exigências. E é exatamente nesse ponto que as coisas ainda estão nebulosas, truncadas e subjetivas, dando margem a interpretações diversas, o que compromete todo o restante da proposta.

Como não gosto de apresentar um problema sem sugerir a solução, aconselho deixar a proteção de áreas de relevante interesse ecológico e prioritárias para a conservação para uma das categorias de unidade de conservação, descritas detalhadamente na Lei nº 9.985, e que indenizam o proprietário da área caso o desenvolvimento da sua atividade seja incompatível com os objetivos da unidade. Nem mesmo a falta de recursos atrapalha esta criação de unidades de conservação, já que a possibilidade de compensação de Reserva Legal em seu interior desincumbe o Poder Público das indenizações aos atingidos.