Solos

 

O BEM que as raízes das forrageiras fazem aos solos

O sistema radicular das braquiárias é muito eficiente em melhorar a estruturação dos solos e, assim, proporcionar um ambiente favorável ao crescimento das raízes da cultura seguinte, como a soja

Julio Cesar Salton e Michely Tomazi, pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste

Nos sistemas de produção de soja predominantes na Região Centro- Sul é comum se identificarem alterações de ordem física no solo, com a presença de camadas estratificadas desde a superfície até profundidades em torno dos 30 centímetros. Na superfície, verifica-se uma camada delgada de solo solto e desestruturado que ocorre, em média, até os 10 centímetros. Logo abaixo, encontra- se uma camada de solo compactado, com poucos poros e com aspecto maciço, cuja espessura varia entre 10 e 20 centímetros. A dimensão e a intensidade dessas camadas variam conforme o tipo de solo, práticas utilizadas, tempo de uso, etc.

Tais alterações no perfil do solo são decorrentes do sistema de cultivo em uso, o qual consiste na sucessão soja-milho safrinha, ou seja, um sistema de culturas com pouco retorno de palhada e de raízes ao solo. A existência de escassa cobertura do solo implica em perdas por erosão e uma série de outros danos ao solo e às culturas, reduzindo a capacidade produtiva dos cultivos. Aliado a esse fato, verifica-se que, com a antecipação da semeadura da soja, em muitas safras, a colheita da soja e a semeadura do milho subsequentes são realizadas em condições de solo úmido, agravando os danos físicos à estrutura do mesmo.

Outro aspecto muito importante relacionado à qualidade do solo são as práticas de adubação e uso de corretivos, os quais são depositados apenas na superfície do solo, reduzindo a eficiência dos produtos e atendendo parcialmente os objetivos das operações. Dessa forma, a eficiência da calagem pode ser limitada à camada superficial e, no caso da gessagem, a eficiência também poderá ser reduzida, pois a camada compactada reduz a permeabilidade do solo, dificultando a ação do corretivo em camadas mais profundas. Essa somatória de problemas proporciona reduzida capacidade de as plantas de soja suportarem a ocorrência de veranicos, comuns em várias regiões, pois o sistema radicular é muito superficial e, por consequência, o volume de solo explorado é reduzido.

Como alternativa tecnológica para solucionar esses problemas muitas práticas e/ou produtos podem ser apontados, mas o fato é que o solo necessita recuperar sua qualidade para permitir o pleno desenvolvimento das plantas, maior tolerância a veranicos e boa produtividade das culturas. A recuperação física da estrutura do solo deve ser permanente e não apenas de curto prazo, como a verificada com o uso de práticas mecânicas isoladas como a escarificação ou subsolagem. Também deve-se considerar o custo e o rendimento operacional das operações mecanizadas.

Para que se obtenha qualidade do solo e melhorias significativas e duradouras na sua capacidade produtiva, é imprescindível o aporte de massa vegetal ao mesmo, tanto na superfície como em profundidade. A palhada em superfície serve como proteção ao impacto das chuvas, insolação e redução da evaporação. E na forma de raízes, para melhoria da estrutura física do solo e na intensificação da atividade biológica.

Após a dessecação da forrageira e a consequente morte da planta, as raízes se decompõem, deixando inúmeros canais e galerias no interior do solo, além da liberação de exsudados e nutrientes

Como obter palhada e raízes sem comprometer o rendimento?

— Um dos sistemas de manejo em que é possível ter plantas tanto para cobertura do solo como para “produção de raízes” é a rotação entre a pastagem e a cultura de soja, ou sistema integrado lavoura-pecuária. O sistema radicular das braquiárias é bastante eficiente em promover uma estruturação adequada do solo, com formação de agregados estáveis, macroporosidade e canais, proporcionando ambiente favorável para o crescimento do sistema radicular da cultura subsequente, como a soja. Para isso, ao ser realizada a semeadura da soja sobre a pastagem, é fundamental que ela encontre-se em boas condições de produção de forragem e, consequentemente, disponha de um sistema radicular volumoso. A presença de um abundante e vigoroso sistema radicular, como o das braquiárias, poderá resultar em importantes benefícios ao sistema de produção, tais como os seguintes:

Crescimento do sistema radicular: mesmo que atuando por apenas alguns meses, o sistema radicular de forrageiras como as braquiárias pode contribuir para o crescimento das raízes da soja subsequente quando introduzidas em plantio direto. Após a dessecação da forrageira e a consequente morte da planta, as raízes se decompõem, deixando inúmeros canais e galerias no interior do solo, além da liberação de exsudados e nutrientes. Quando a soja é cultivada após pastagem que foi utilizada diretamente por animais, os efeitos benéficos tendem a ser mais pronunciados, pois geralmente a pastagem se desenvolve por um maior período de tempo, emitindo maior volume de raízes. Quando a pastagem é submetida a um sistema de manejo adequado, com a emissão de novos perfilhos (após o pastejo), novas raízes serão emitidas, intensificando as melhorias na estruturação do solo.

Agregação e estrutura do solo: a estrutura adequada do solo é aquela que permite bom fluxo de água, aeração do seu interior, resistência à erosão e ao tráfego de maquinários, desenvolvimento de organismos vivos (microrganismos e fauna do solo) e o apropriado desenvolvimento e funcionamento das raízes das plantas.

Matéria orgânica do solo: um dos principais benefícios das gramíneas para o solo é o acúmulo de matéria orgânica em profundidade. Como o sistema radicular está constantemente se renovando, as raízes mortas são decompostas pelos microrganismos do solo, liberando nutrientes e alterando os compostos orgânicos que, além do efeito favorável na estruturação do solo, também contribuem para a melhoria das condições químicas, como, por exemplo, aumentando a eficiência da adubação e na nutrição das plantas em geral.

Produtividade da soja: ao cultivar um solo com qualidade, aumentam as chances de se obter maior produtividade das culturas em anos sujeitos às adversidades climáticas e também na redução dos custos de produção. Essa redução pode decorrer da eventual redução no uso de insumos (adubos, herbicidas, etc.), embora vários outros aspectos possam ser apontados. A maior capacidade de a lavoura suportar condições adversas (resiliência) funciona como uma espécie de seguro agrícola e parece ser obrigatório em regiões mais marginais para culturas, onde frequentemente ocorrem quebras de produtividade decorrentes de veranicos.