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Clima agradável para o ALGODÃO

O algodão desta safra promete altas e até históricas produtividades em todas as regiões. As chuvas colaboraram e foram uma bênção, principalmente em se comparando à decepcionante safra anterior, duramente comprometida pela estiagem. E as cotações atuais próximas a 80 centavos de dólar/libra-peso oferecem uma boa remuneração ao produtor. Além disso, em 2017, pelo segundo ano seguido, a produção global deverá ser inferior ao consumo, o que significa um horizonte interessante aos preços globais. No mercado interno, o segmento busca ampliar o consumo da pluma no varejo com a campanha Sou de Algodão

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com

Bons e favoráveis ventos estão sacudindo as belas lavouras do algodão brasileiro da safra 2016/17. “Ventos bons e favoráveis”, no sentido literal e também no figurado. Em princípio, trouxeram nuvens que distribuíram as chuvas pelo ciclo da cultura de uma forma tão equilibrada que parecem ter sido programadas pelo painel computadorizado de um pivô. Bem ao contrário da safra passada, quando o clima jogou contra as plantações como raras vezes ou, no caso do Oeste baiano, nunca se tinha visto nada igual. Em segundo lugar, as cotações estão remunerando o cotonicultor, ainda que a recente valorização do real tenha arrefecido um pouco os ganhos. Em síntese, apesar de a área da pluma ter encolhido nesta temporada em relação à anterior, a produção vai crescer.

O sexto levantamento de safra da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em março, apontou retração de 3,1% na área nacional, para 925,8 mil hectares, ante 955,2 mil em 2015/16. Já a produtividade estava sendo estimada com o incremento de 15,5%, para 3.900 quilos/ hectare, ante 3.378 quilos. Em razão da boa performance das lavouras, a Conab previa uma safra 11,9% maior – 3,610 milhões de toneladas de pluma, contra 3,226 milhões em 2015/16. Já o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Arlindo Moura, estimava ser “muito provável” o crescimento da produção em 19%. Segundo a definição dele, as lavouras de todas as regiões estão em “excelente qualidade”.

As boas produtividades generalizadas justificam uma ótima produção a caminho. A Bahia, segundo maior produtor, plantou 14,3% menos, ou 201,5 mil hectares. Já a produção estimada em março era de 738,9 mil toneladas, 19,5% a mais, visto o incremento fantástico da produtividade em 39,5% – de 3.667 quilos/hectare, ante 2.629 de 2015/16. Já no maior produtor, o Mato Grosso, a safra esperada é 11,1% maior, ou 2,446 milhões de toneladas, com área 2,5% superior – 615 mil hectares. A Conab explica que até o quinto levantamento, em fevereiro, no estado, a expectativa era de área menor à anterior. Mas os produtores mudaram de ideia. “A explicação do movimento está relacionada à recuperação dos preços, observados a partir de dezembro, época do início do cultivo no estado”, justifica a Conab.

“As previsões do tempo são boas. A produtividade será muito boa, com potencial excelente. Está todo mundo animado”, descreve o Oeste baiano o presidente da Abapa, Júlio Busato

Fora das lavouras, mais precisamente na Bolsa de Nova York, as coisas estão bem melhores do que já estiveram alguns meses atrás e também nos anos recentes. O mundo está demandando mais pluma do que a produzida, sobretudo a Ásia – um reflexo do aquecimento das economias mundiais. E, em 2017, pelo segundo ano consecutivo, o planeta vai produzir menos pluma que a demanda do período. Segundo o Comitê Consultivo Internacional de Algodão (IAC), a produção global de 2016/17 era estimada, ao final de fevereiro, em 22,69 milhões de toneladas, e, em 2017/18, de 23,11 milhões. Para um consumo de 24,05 milhões em 2016/17 e 24,33 milhões em 2017/18. Essa combinação refletiu nas cotações. Moura considera os preços atuais, próximos a 80 centavos de dólar por libra-peso, como “altamente positivos”, sobretudo se comparado à média dos últimos anos. “É de melhor margem. A margem vinha apertada nos últimos anos”, analisa. Moura só lamenta que o “dólar não está ajudando muito”, sendo que o Brasil exporta entre 40% e 45% de sua produção.

Bahia com “safra excelente” — A Bahia penou demais com uma seca histórica no ano passado, que ajudou o estado a reduzir ainda mais a área de algodão – que já foi de 398 mil hectares anos atrás e agora supera um pouco os 200 mil. “Foi muito ruim (safra 2015/16) para os produtores e para a região como um todo”, descreve Júlio Cézar Busato, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Ele lembra que a pluma gera três vezes mais renda e mais empregos que milho e soja, por exemplo. Agora, tudo mudou. “Temos perspectivas de uma safra excelente”, prevê Busato. “As previsões do tempo são boas (até o final da safra). A produtividade será muito boa, com potencial excelente”, analisa. A média esperada é de 280 arrobas por hectare, com alguns produtores conseguindo de 300, de 330 arrobas. “Está todo mundo animado”.

Busato também considera a cotação de 78 centavos de dólar/libra-peso como “excelente” para o produtor “travar” sua colheita. “Isso é muito bom”, resume. “Só precisamos produzir”, acrescenta. E produzir significa ser eficiente mas, sobretudo, não gastar muito em uma cultura de alto custo de produção. Sobre esse aspecto, o dirigente ressalta como eficiente meio de reduzir dispêndios e defensivos o programa fitossanitário da Abapa, que tem enfrentado o bicudo a partir da destruição de soqueiras e de controle de plantas à beira de estradas, além da implementação da rotação de culturas, entre outras ações. “O bicudo é uma praga coletiva. São ações em conjunto com todos os produtores”. E o cotonicultor ainda usufrui eventos transgênicos que resolvem ou ao menos suprimem as lagartas.

A produtividade nacional terá um incremento de 15,5%, para 3.900 quilos/ hectare, ante 3.378 quilos, segundo estimativa da Conab divulgada em março

Já a lagarta Helicoverpa armigera, que, segundo ele, “quase quebrou” os produtores da região nos anos recentes, tem sido controlada com variedades modificadas e o inseticida benzoato de emamectina, mas que impõem um custo extra de US$ 150/hectare. O dirigente reclama mesmo é da logística para escoamento da safra do Oeste baiano. A pluma da região precisa se deslocar até o Porto de Santos/SP, por 1.800 quilômetros, já que o Porto de Salvador, a 1 mil quilômetros, não tem rota de navios para a China, importante compradora.

Oeste baiano. A pluma da região precisa se deslocar até o Porto de Santos/SP, por 1.800 quilômetros, já que o Porto de Salvador, a 1 mil quilômetros, não tem rota de navios para a China, importante compradora.

No Centro-Oeste, o presidente da Associação Mato-grossense de Algodão (Ampa), Alexandre Schenkel, prevê a volta nesta safra da “produtividade histórica” do algodão, cultura que sentiu em muito a estiagem no ano passado. A produtividade foi de 1.460 quilos/ hectare em 2016, e agora é esperada em 1.580 quilos. No Mato Grosso, 80% do algodão é de segunda safra, plantado depois da retirada da soja da lavoura, com colheita a partir de junho, mas principalmente em julho e agosto. Schenkel é mais cauteloso ao avaliar a cotação recebida pelo produtor mato-grossense. “Pelo menos não recuou. Dá um pouco de estabilidade e segurança ao produtor”, analisa. “O clima tem ajudado para a qualidade do algodão”, acrescenta outro benefício das chuvas regulares.

A cotação no estado, segundo o dirigente, a 70 centavos de dólar/libra-peso, tem facilitado aos produtores vender a safra de um a um ano e meio antes, e assim antecipar a aquisição de insumos para 2017/18. “Nos últimos anos, o algodão tem liquidez melhor”, considera. Schenkel reclama do aumento dos custos, sobretudo porque a tecnologia transgênica, apesar de impor dispêndios de US$ 200 a US$ 300 superiores por hectare em comparação à convencional, não tem resolvido como deveria o ataque de lagartas. Conforme ele, mesmo no plantio de variedades transgênicas se reduz em apenas duas a três aplicações de inseticidas para lagartas. No Mato Grosso, o algodão exige de 15 a 20 aplicações de defensivos por ciclo, nove apenas para o bicudo. Mas Schenkel considera que a mobilização coletiva dos cotonicultores e as ações de conscientização da entidade têm reduzido as pulverizações para a praga em 30% a 50%.

Conjuntura nacional e internacional

— A quebra da safra anterior valorizou a atual no mercado interno, que, ultimamente, tem sido mais interessante ao produtor do que o externo. “A menor oferta tende a valorizar o preço”, justifica o momento Cezar Marques da Rocha Neto, analista de Safras & Mercado. “Possivelmente o estoque de passagem vai ser pequeno de uma safra para outra”. Já no mercado externo, a boa demanda pela pluma americana tem dado sustentação às cotações. Até meados de março, as vendas americanas já representavam 65,2% da safra, ante 51,2% da mesma época em 2016 (27,34% superior). A China, a principal demandadora global, e que detém 55% dos estoques mundiais, voltou a comprar pluma visto a melhora das economias dos países após a crise financeira mundial. Em tempos de crise, caem as vendas de roupas no varejo, e isso reflete na cotação da pluma.

Até dezembro as exportações estavam aquecidas, mas desde janeiro, com a falta de produto no mercado em razão da queda de safra, o mercado interno se mostrou mais demandado – e valorizado. Para se ter uma ideia, em janeiro de 2016 foram exportadas 92 mil toneladas, enquanto que em janeiro deste ano foram 31 mil toneladas. E o futuro? Rocha Neto prevê “cotação firme” até o início da entrada da safra. “O preço para o mercado interno deve estar favorável”, estima o analista. E a exportação deverá “cair drasticamente” porque não haverá pluma para vender ao exterior. “A demanda pela pluma deverá continuar firme”, sintetiza.

“A produção brasileira foi menor em 2016, porém, o consumo doméstico também cedeu e elevou a disponibilidade interna. Esse fator por si só pressionaria as cotações. Entretanto, as exportações brasileiras conseguiram manter um bom ritmo praticamente nos últimos três anos, conseguindo enxugar o excedente”, esclarece Lucilio Rogerio Aparecido Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). Inclusive, acrescenta, está liberada a importação de 75 mil toneladas até meados do ano, sem a Tarifa Externa Comum. “O menor excedente elevou os preços internos, distanciando os patamares da paridade de exportação, que, por sua vez, determina um limite inferior de preços de produtos que são livremente transacionados internacionalmente”.

Quanto ao futuro, Alves explica que preços internos dependerão dos níveis de cotações internacionais e da taxa de câmbio, os quais têm relação direta com a paridade de exportação. “Certamente no primeiro semestre os preços domésticos devem manter um distanciamento superior da paridade, cujos níveis de preços podem se aproximar um pouco no segundo semestre, com a entrada da nova safra”, prevê. O pesquisador esclarece que a produção do ano passado foi a menor desde a safra 2009/10, e nesta é esperada a recuperação, ainda que não deverá ser expressiva. “Mesmo assim, índices de sazonalidade mostram que, em média, os preços tendem a ceder a partir de abril, atingindo um mínimo em julho e depois voltando a se recuperar nos meses seguintes, a depender do ritmo de exportação”, analisa.

Safra “muito boa”, mas dólar jogando contra — O Grupo Brisot de Marco plantou nesta safra 30% a menos de algodão em Itiquira e Rondonópolis, no Mato Grosso. Foram 6 mil hectares ante 8.500 na safra passada. O encolhimento de área se deu pela estiagem em 2015/16, que provocou 30% de perdas, e também pelo planejamento agronômico das lavouras da empresa, que ainda cultiva milho de segunda safra (na mesma época do algodão) em 9 mil hectares, e soja, em 22 mil hectares. “No ano passado, foi uma safra atípica, foi bem agressiva (a perda)”, revela Alexandre de Marco, diretor do Grupo. Na empresa, o algodão passou a ser de segunda safra, após a soja, como em 80% das lavouras do Mato Grosso. Segundo De Marco, o ciclo mais curto em 45 dias reduz o custo de produção em US$ 300/hectare (de US$ 2.100 para US$ 1.800), visto exigir menos pulverizações. Além de a lavoura usufruir a adubação residual da soja. No caso da segunda safra no estado, De Marco ressalta que foram desenvolvidas cultivares específicas para essa época de cultivo, que se expandiu a partir 2009.


SOU DE ALGODÃO: DAS LAVOURAS AO SÃO PAULO FASHION WEEK

Um ambiente aparentemente sem nenhuma relação com uma plantação agrícola foi escolhido para ser lançada uma campanha institucional para beneficiar justamente quem empreende nas lavouras. A Abrapa apresentou no mais badalado desfile de moda do País, o São Paulo Fashion Week, em outubro, junto com os influentes estilistas Alexandre Herchcovitch e Martha Medeiros, a campanha Sou de Algodão, que busca convencer os consumidores sobre as vantagens das roupas feitas de algodão em comparação às confeccionadas a partir de fibras sintéticas. O “adversário” é o poliéster, feito a partir do petróleo, cuja cotação é a mais baixa em dez anos, o que barateia o tecido sintético. A indústria têxtil nacional tem consumido pouco algodão. No ano passado, foram 780 mil toneladas, o menor volume em quase uma década, e bem menos que o 1 milhão de toneladas de 2008. A Sou de Algodão se baseou em campanha semelhante dos Estados Unidos, que nos anos 1980 reverteu a queda do consumo.

Um levantamento apurou que as roupas femininas utilizam apenas 21% de fios naturais em sua composição, sendo que nos anos 1960 eram três vezes mais, enquanto as roupas masculinas utilizam 64%, e nas infantis e de cama, mesa e banho chega a 83% cada, e as roupas esportivas, 11%. A meta da campanha é conscientizar o consumidor, sobretudo as mulheres, que, normalmente, na família são as que vão às compras, sobre as vantagens do tecido de algodão, visto ser um produto de qualidade, oferece conforto e leveza, tem bom caimento e, sobretudo, é nacional. A primeira fase da campanha foi o lançamento no SPFW, mas a segunda, explica João Carlos Jacobsen, (foto) idealizador da campanha na Abrapa, da qual foi presidente até 2016, é chegar no varejo, nas grandes magazines. “Sempre com o objetivo de mostrar para o consumidor as qualidades do algodão”, revela.

Os detalhes da segunda etapa estavam em alinhamento ainda em março, e envolveria agências de publicidade. A ideia é encontrar uma maneira para que as pessoas consultem a etiqueta da roupa para verificar sua matéria-prima. “Para que o cliente exija algodão, se acostume a pedir algodão”, lembra Jacobsen. Assim como os vendedores precisam ser treinados para justificar as vantagens da fibra natural. “Somos altamente competitivos (na produção). Queremos chegar mais próximo do consumidor. Estamos perdendo mercado para outros tecidos”, lamenta ele, que também é produtor na Bahia. O objetivo é ampliar o consumo da pluma em 5% nos próximos cinco anos, o que representaria a produção de algo como 50 mil a 70 mil hectares. “Estamos comedidos na nossa meta”, entende. “Estancar a queda de consumo de algodão é o mais importante”, acrescenta. Afinal, em 2013 a pluma representou 60% de todas as fibras consumidas no País, e dois anos depois caiu para 54,6%.

Além de convencer os brasileiros sobre as qualidades da pluma, Jacobsen revela que o segmento, por meio um estudo, buscará elucidar “onde está ficando a margem de lucro” do algodão. Afinal, essa matéria-prima representa apenas de 2% a 3% no custo final de uma roupa. Um quilo de tecido impõe ao consumidor final cerca de R$ 300, mas o valor do algodão embutido é de R$ 6. “Existe uma incógnita, e nós temos alguns indicativos”, afirma, esclarecendo que se buscará avaliar os impactos da tributação e da distribuição. “A agregação grande está na confecção”, avalia. E ele lembra que as roupas nos Estados Unidos costumam custar ao comprador metade das idênticas encontradas nas lojas brasileiras. “Isso não é só tributação”, entende. “Para que o consumidor brasileiro pague menos”, justifica a investigação.


A falta de chuvas pode ser um problema eventual, mas a ação do bicudo é sempre uma realidade a ser administrada a cada safra. “É o grande desafio manter em um nível aceitável o ataque do bicudo”, comenta. Por isso, há 18 anos na empresa uma das estratégias de enfrentamento à praga é a rotação de culturas. Os cultivos são definidos semestralmente a partir do equilíbrio entre a necessidade de rotacionar culturas e também conforme o seu momento econômico. E nas lavouras do Grupo Brisot de Marco 20% do algodão são plantados de forma adensada, com entrelinhamento de 45 centímetros, metade do plantio normal. Isso representa uma garantia no caso de que ocorra estresse hídrico, visto que, apesar de o número de maçãs por planta ser menor que na lavoura convencional, pela maior população de plantas, a quantidade de maçãs das duas lavouras se equivale.

De Marco revela que no início da safra os preços da pluma não se mostravam atrativos. “A Bolsa de Nova York não estava sinalizando com preços altos”, lembra. Porém, teve uma reagida “inesperada” com a entrada de fundos americanos nas commodities em geral, o que refletiu na pluma. O produtor diz que a cotação de 78 centavos de dólar por libra-peso em meados de março representava 15% de incremento ao início da safra. Mas lamenta que o dólar “joga contra” em razão da valorização recente do real frente à moeda americana.

Mesmo assim, o produtor avalia a margem de lucro da lavoura em 25%. “É uma margem bem aceitável para a agricultura”, considera. No entanto, lembra que o algodão, ao longo do tempo, vem remunerando menos, visto que cinco, seis anos atrás os custos eram inferiores pela menor incidência de pragas. Além disso, a cultura tem um ciclo longo em relação às outras anuais, de 180 dias, o que impacta em mais dispêndios como mão de obra e mecanização. “O produtor tem que ser mais eficiente”, avalia.

Depois de uma safra muito ruim em razão da falta de chuvas, o produtor Paulo Schmidt e três irmãos reduziram a área da pluma de 3.500 para 2.600 hectares, em Barreiras/BA. A área menor também teve como razão as cotações inferiores ao que eles gostariam. “Viemos de uma safra muito ruim e estamos em uma safra muito boa”, sintetiza o engenheiro agrônomo, que é o responsável técnico pelas lavouras dos sócios-irmãos da Fazenda Orquídea. Schmidt espera a produtividade ótima em torno de 300 arrobas de pluma por hectare. E comenta que os insumos não têm aumentado tanto de preços, mas o custo de produção se incrementou em razão do maior ataque de pragas, com destaque para mosca-branca e ácaros. “Estamos conseguindo controlar”, ressalta.

Já a cotação da pluma é considerada por Schmidt “abaixo do que imaginava”, sobretudo em razão da valorização do real. “A queda do dólar impactou os preços em real”, lamenta, ao mencionar que quatro meses antes o dólar estava cotado a R$ 4, sendo que em meados de março o câmbio girava em R$ 3/US$ 1. “A média de preços foi bem abaixo do que gostaríamos de comercializar”, lembra. Mas Schmidt lembra que a cotação sempre pode aumentar. “Em 30 dias pode estar espetacular”, diz. “O preço está subindo dia após dia”. E os irmãos Schmidt já estão comercializando a safra 2017/18, por meio da modalidade barter, com empresas para a aquisição de insumos. “As empresas facilitam os contratos”.

Vem aí um transgênico brasileiro anti-bicudo? — O maior problema do algodão brasileiro, o causador de um rombo estimado em R$ 1,5 bilhão por safra (somando-se prejuízos e custos), tem uma solução relevante a caminho. E poderá se tornar pública de 29 de agosto a 1º de setembro, no 11º Congresso Brasileiro do Algodão, em Maceió. O consultor Eleusio Freire, coordenador da Comissão Científica do evento que reunirá 2.500 participantes de 20 a 25 países e promoverá seis conferências máster nacionais e internacionais, a apresentação de 120 palestras e 300 trabalhos científicos, revela que um dos “assuntos principais” será a divulgação do trabalho desenvolvido pela Embrapa Algodão e a Abrapa no desenvolvimento de material genético modificado resistente à praga. A Abrapa participou da pesquisa ao fazer aportes financeiros para acelerar o processo da unidade de pesquisa. Freire não revela mais detalhes sobre o assunto, menciona apenas que é o “maior sigilo”, mas que a pesquisa está em “testes finais”.


HORITA: UMA SAFRA DE 300 A 345 ARROBAS A CAMINHO

O entusiasmo não contido do produtor Walter Horita (foto) ao descrever sua atual safra de algodão dispensaria a menção de números para justificar o otimismo. “É unanimidade entre o pessoal da fazenda. Nunca tivemos uma lavoura tão uniforme”, descrevia, em meados de março, a plantação que ainda estava na dependência de umas quatro semanas do clima perfeito que vinha usufruindo até então, para gerar uma das melhores colheitas de algodão do produtor do Oeste baiano, que cultiva a pluma há 18 anos. “A chuvas foram bem distribuídas”, conta, e acrescenta que o clima permitiu as escalas de plantio e os tratos culturais nas épocas certas nos 35 mil hectares, assim como nos 63 mil hectares de soja, que, igualmente, têm colheita histórica (“lotes com 90 sacas por hectare”). Apesar da diferença de área, o faturamento do algodão no momento é maior. “Entre as culturas anuais é a que dá mais resultado”, afirma.

Todo produtor vibra quando o clima colabora com o desenvolvimento da lavoura. Mas no caso de Horita e dos colegas produtores do Oeste baiano, que produz a segunda maior safra de pluma do País, a exultação de hoje é também consequência do que aconteceu na safra 2015/16, a mais frustrante dele e dos baianos, devido à estiagem histórica que assolou a região. “A anterior foi um desastre! A pior de todas”, descreve em poucas palavras. E a lavoura esplendorosa coincide com o bom momento do mercado para a commodity. Mas, afinal, quais são os números que justificam a euforia de Horita?

1 – Na safra passada, a colheita nos 37 mil hectares dele foi 42% inferior ao planejado (177 arrobas/hectare e não 300). Nesta safra, em 35 mil hectares, a meta é 300 arrobas, mas poderá superar as 345 da safra 2007/08, a mais produtiva até hoje. Tudo depende do clima as últimas semanas de safra.

2 – A pressão de pragas tem sido aceitável, visto que os materiais transgênicos permitem “conviver” com as lagartas. Já a pior das pragas do algodoeiro, o bicudo, tinha o controle “tranquilo”, visto que o trabalho conjunto dos produtores – e essa praga impõe ações coletivas e não isoladas – tem mantido a ameaça a níveis aceitáveis. O bicudo tem imposto menores demandas em químicos que em outras safras. O normal são de 18 a 20 aplicações de inseticida por ciclo, e nesta Horita estima que serão menos de 15. Mas a praga ataca até a pré-colheita. Portanto, em março era cedo para comemorar.

3 – A cotação da pluma, beirando os 80 centavos de dólar por libra-peso, “é um número bastante interessante”, classifica o produtor. “Para o produtor brasileiro, é bom”, entende. “O pior (em cotações) do algodão já passou”, avalia. No início do ano passado, a cotação chegou a estar em 50 centavos de dólar. Em 2011, aconteceu um número fora da curva: US$ 2/libra peso, o que levou a um excesso de produção e, por consequência, os preços a desabarem na sequência. “Se subir, tem excesso de produção”. E uma das explicações para o bom preço é que no ano passado, pela primeira vez, a produção global foi menor que o consumo, o que deverá ocorrer de novo neste ano. “O consumo do algodão está bastante demandado, principalmente na Ásia”, justifica Horita.


O evento que debaterá o que de mais avançado está em pauta sobre a pluma vai abordar três ramos de inovação da cadeia. Um é a inovação digital: “os produtores compram máquinas digitais, mas não são familiarizados com elas.

Colhedoras de R$ 1 milhão e não sabem como manusear”, avalia. Especialistas vão explicar como, por exemplo, é possível acompanhar o desempenho de uma máquina pelo celular. A sustentabilidade econômica, social e trabalhista é outro tema a ser abordado no evento. Como os programas Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e Better Cotton Initiative (BCI), que têm a adesão de 80% da cotonicultura brasileira. Assim como o controle biológico de pragas, visto que a ênfase dos últimos 20 a 30 anos foi o combate químico. Quatro biofábricas com produtos específicos para a cultura participarão do evento para apresentar suas tecnologias. “A tendência é aumentar o uso desses produtos e diminuir os químicos”, destaca Freire.

Primeira variedade transgênica de fibra longa — O melhoramento genético desenvolvido pela Embrapa ao longo dos anos, mais precisamente pela unidade Algodão, contribuiu decisivamente para o Brasil ter se tornado player global na cotonicultura. Sobretudo pelo desenvolvimento de variedades tolerantes ou resistentes a determinadas ameaças fitossanitárias e adaptadas a condições climáticas adversas, como a restrita pluviometria na região semiárida. Em síntese, busca-se desenvolver cultivares produtivas e que demandem menores dispêndios na lavoura. “Para dar segurança ao produtor e diminuir os custos de produção”, resume Camilo Morello, coordenador do melhoramento genético do algodoeiro da Embrapa Algodão. Além da genética de elevada qualidade, em termos de cultivares e linhagens- -elite convencionais, tem-se o desafio de transformar muitas dessas tecnologias em materiais modificados geneticamente, para atenderem melhor ainda as demandas dos cotonicultores.

Ao longo dos anos, essa unidade da Embrapa desenvolveu cultivares resistentes, ou ao menos tolerantes, a diversas das ameaças fitossanitárias. E são muitas as ameaças fitossanitárias, como o “dano invisível” causado pelos nematoides, as doenças fúngicas foliares, como a mancha de ramulária, que pode exigir de oito a dez pulverizações, assim como outras doenças causadas por bactérias e vírus.

Agora a empresa trabalha para disponibilizar as cultivares transgênicas, uma exigência do mercado, como foi a BRS 371RF, tolerante ao glifosato, também resistente à doença foliar ramulária e com tolerância intermediária a nematoides de galhas. Em parceria com a Fundação Bahia, o objetivo para a safra 2017/2018 é disponibilizar ao cotonicultor cultivares resistentes às lagartas, sobretudo dos gêneros Spodoptera e Helicoverpa, e tolerantes ao glifosato. “Essas características nas cultivares proporcionam segurança e facilitam os manejos das áreas”, sintetiza Morello.

Serão contempladas nas novas variedades BRS 430 B2RF, BRS 432 B2RF e BRS 433FL B2RF.

A Embrapa ainda se empenha em desenvolver uma cultivar de fibra de comprimento longo, que, no futuro, poderá receber melhor valorização do mercado. A fibra média, em cultivo atualmente, possui de 27,5 a 30,5 milímetros. A variedade convencional BRS 336, lançada pela Embrapa Algodão em 2013, foi a primeira cultivar com esse padrão de fibra longa, acima de 32,5 mm. Agora, entre os lançamentos para a safra 2017/18, está a variedade BRS 433FL B2RF, que deverá ser a primeira variedade com transgenia para resistência a lagartas e tolerância a herbicida, portadora de fibra classificada como longa, com comprimento médio superior a 32,5 mm, mas podendo atingir até 34 mm. O produtor deverá ter sementes disponíveis dos três lançamentos, ainda que em pequena escala, já na safra 2017/18. “Queremos contribuir para melhorar o padrão da fibra e, consequentemente, o valor do produto nacional”, comenta o pesquisador.


“NOSSO ALGODÃO TEM ACEITAÇÃO COMO DE EXCELENTE QUALIDADE”

Arlindo Moura, presidente da Abrapa

O senhor assumiu há pouco a Presidência da Abrapa para os próximos dois anos. Quais são as metas para o período?

A grande meta é aumentar a participação do algodão dentro da roupa. Temos uma dificuldade um pouco grande em alguns setores do uso do algodão. A grande compradora de roupas para o homem é a mulher. E quando não compra, influencia. Na moda masculina, o algodão faz parte de 64%; no caso de roupas infantis, 83%; no caso de jeans, 78%; e nas demais, em cama, mesa e banho, 83%. E na linha esportiva ainda é pior: 11%. E os 89% restantes são fios sintéticos. E tudo isso é comprado pela mulher. Mas quando a mulher compra para ela, é só 21% de algodão. Ela compra menos algodão para ela. Foi lançado em outubro do ano passado o programa Sou de Algodão, com o qual a gente pretende levar um pouco mais de informação ao consumidor para ele ver as vantagens de comprar um produto de algodão. Tem algumas vantagens do sintético, que é mais barato. E o grande fornecedor desses produtos são os chineses. Em uma magazine, 70% não é algodão, é fio sintético. Por quê? Porque visa muito ao preço. O algodão tem vantagens de conforto, mais original, mais suave, mas nem sempre o consumidor percebe isso. Ele acaba olhando o preço. Por que a mulher compra algodão para o filho, para a casa e não compra para ela? É uma curiosidade, e a gente está tentando entender isso. A meta nos próximos cinco anos é aumentar o share do algodão em 5%. Hoje em todo o consumo a participação do algodão é de 54,6%. Queremos levar esse número a próximo de 60%. O que é um desafio muito grande. Vamos ter que trabalhar muito para isso.

E quanto à expansão de mercado externo, quais são os objetivos, as ações?

São ações que sempre fazemos. Eu já tive diversas reuniões com o ministro Blairo Maggi (Agricultura), em que tratamos exatamente desses assuntos. Alguns mercados que não atendemos com o algodão, para passar a atender. E nos que já atendemos, talvez atender outros segmentos. Em alguns mercados, atendemos bem as indústrias de jeans, mas não bem a de cama, mesa e banho. Vamos intensificar isso neste ano, um trabalho junto ao Ministério da Agricultura para focar alguns mercados nesse sentido. E, principalmente, são os mercados asiáticos. A Ásia está tomando conta do consumo de fibras e esse tem sido o mercado que tem consumido a maior quantidade do algodão do mundo.

O que tem sido feito no Brasil por entidades e instituições como Abrapa e Embrapa para se medir a qualidade do algodão?

A fibra brasileira é tida como a segunda melhor do mundo. Ela tem bom reconhecimento. Não deixamos de vender por problemas de qualidade. Pelo contrário. Nosso algodão é normalmente comprado para ser usado no blend. O cliente compra o algodão chinês, o colombiano, e usa o algodão brasileiro para melhorar a qualidade desse algodão. Nosso algodão tem esse respeito, essa aceitabilidade no mundo como um algodão de excelente qualidade. O algodão da Austrália tem uma qualidade um pouco melhor do que a nossa. Como lá todo ele é irrigado, eles conseguem ter uma uniformidade melhor, o que facilita o beneficiamento e a tecelagem por ser mais uniforme. E o nosso, como é de sequeiro, em alguns momentos chove mais, em outros chove menos, e ele tem variações de uniformidade.

E como estão os programas de responsabilidade socioambiental Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e Better Cotton Initiative (BCI)?

O BCI e o ABR são praticamente os mesmos programas. O ABR é, inclusive, um pouco mais rigoroso que o BCI porque foca algumas coisas como o trabalho escravo, como a legislação trabalhista, que no BCI não são tão exigidas. Porque muitos países que produzem algodão não têm uma legislação trabalhista, uma legislação ambiental como temos aqui. Se aplicássemos só o BCI aprovaríamos mais produtores do que aprova o ABR. Tanto que o próprio BCI não faz avaliações. Pega os aprovados no ABR e praticamente certifica. Tem algumas exigências que muitas vezes o produtor não quer fazer. Para eu fazer o BCI, tenho que informar todos os produtos que eu uso: químicos, fertilizantes, sementes. Tem produtores que não querem passar essas informações, que acham que são sigilosas. Esses não são certificados pelo BCI, mas são pelo ABR. São problemas que andam em paralelo. Hoje do algodão BCI no mundo, 50% são brasileiros. Já chegamos a ser 70%. A empresa que tem um algodão certificado BCI tem um prêmio, mas com o tempo esse prêmio não vai mais existir. Ela tem o prêmio pela escassez, mas na hora que todos tiverem esse certificado, o prêmio não vai existir. Mas quem não tiver a certificação também não vai ter o mercado.