Plantio Direto

 

Plantio direto aprendido na ACADEMIA

Marie Bartz, Universidade Positivo, Ricardo Ralisch, Universidade Estadual de Londrina, e Rafael Fuentes Llanillo, Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), todos da Federação Brasileira do Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP)

O Brasil tem na produção agropecuária seu carro-chefe e sua galinha dos ovos de ouro, principalmente considerando os efeitos dessa atividade na balança comercial do País. Sistematicamente, o saldo tem sido positivo graças à eficiência desse setor, e é isso que permitiu a razoável estabilidade da economia recentemente. E é o que tem sustentado a economia, apesar do caos

Falta de cobertura, monoculturas, compactação e especialmente a volta do monstro da erosão corroendo os solos e deixando severas cicatrizes, cenário que tem sido visto nas mais diversas regiões do País

enfrentado nos últimos anos. Internacionalmente, o Brasil é frequentemente citado como modelo de sistema de produção agropecuária, a ser adotado genericamente.

Se existe um fato determinante para essa posição de liderança que o País ocupa atualmente, com certeza é a verdadeira revolução que aconteceu nos campos a partir no início dos anos 1970, quando os agricultores aprimoraram um sistema que transformou toda a produção e tornou o País uma referência mundial: o sistema plantio direto. O plantio direto surgiu inicialmente como uma técnica para conter o processo erosivo severo que ocorria nos solos tropicais pela sua preparação intensiva, no início dos anos 1970. Com o passar dos anos e com muito trabalho e pesquisa, o conceito evoluiu para uma visão integral e holística, chamada de Sistema Plantio Direto (SPD), que possui três pilares como base: mínimo revolvimento do solo, manutenção da cobertura permanente do solo e rotação de culturas incluindo adubação verde.

O SPD bem executado promove inúmeros benefícios individuais e coletivos. Para os produtores, estabiliza a produtividade e reduz os custos de produção, aumentando a rentabilidade. Para a sociedade, gera receitas financeiras e empregos, especialmente protegendo os recursos naturais, mantendo e/ou melhorando a qualidade dos recursos hídricos, do solo e da biodiversidade. Se tivesse sido mantido o sistema que vigorava em 1970, com preparo intensivo do solo, estima-se que a produtividade hoje seria de apenas 30% da atual, devido à degradação do solo. Portanto, para a atual produção, seria preciso o triplo de áreas em exploração, e já teria sido desmatada a Amazônia quase em sua totalidade. O reconhecimento internacional disso se evidencia quando se constata que a FAO, organização voltada à agricultura da ONU, considera como base conceitual da agricultura conservacionista o SPD desenvolvido no Brasil.

A FAO, organização voltada à agricultura da ONU, considera como base conceitual da agricultura conservacionista o SPD desenvolvido no Brasil

Porém, para que tais benefícios sejam preservados e ampliados, é indispensável que o SPD seja realizado de forma adequada, considerando todas as características naturais da área agrícola, para que a exploração agropecuária rume para a sustentabilidade, ou seja, seja economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correta.

O SPD teve adoção em massa e expressiva expansão a partir dos anos 1990, se espalhando do Sul do Brasil para as fronteiras agrícolas do Cerrado, além dos países vizinhos (Paraguai, Argentina e Uruguai), tendo apoio e suporte da pesquisa e do meio acadêmico. No entanto, após a virada do milênio e a consolidação do SPD, houve uma acomodação, tanto por parte dos agricultores, como de técnicos e cientistas. Além do mais, a pressão econômica imposta ao setor e a ganância de alguns elos da cadeia produtiva, visando lucro em curto prazo, induziram os agropecuaristas a negligenciarem alguns conceitos fundamentais do SPD e da atividade, como o respeito às características fundiárias, da topografia e do solo.

Reflexo disso foi um retrocesso visível nos campos, com perdas inevitáveis, inestimáveis e irrecuperáveis. A falta de cobertura, monoculturas, compactação e especialmente a volta do monstro da erosão corroendo os solos e deixando severas cicatrizes, cenário que tem sido visto nas mais diversas regiões do País. É desse respeito às características do local que surge a necessidade, ou não, de se adotarem práticas complementares de controle da erosão, como o terraceamento, por exemplo, do adequado dimensionamento das máquinas e gestão das operações e da eficiente avaliação das condições do solo para se empregar as melhores estratégias de correção ou manutenção de sua fertilidade. Para citar os mais importantes, é preciso competência e capacidade gerencial das pessoas envolvidas.

Capacitação — Para buscar um realinhamento virtuoso nesse quadro, várias iniciativas têm sido tomadas pela Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP) nos últimos dez anos, visando resgatar a qualidade do SPD e da atividade agropecuária. Um dos eixos principais disso é a contínua capacitação de profissionais, técnicos e agricultores para a adequada adoção do SPD. E, para tanto, apoia institucionalmente cursos de especialização e de capacitação.

O SPD teve adoção em massa e expressiva expansão a partir dos anos 1990, se espalhando do Sul do Brasil para as fronteiras agrícolas do Cerrado, além dos países vizinhos

O primeiro é o curso a distância Programa Nacional de Plantio Direto, realizado pela empresa Agropro (agropro.com.br), voltado para atender os mais variados interesses do Brasil, da América do Sul e, em breve, de outros países, com algumas turmas já formadas e em plena atividade. Esse programa é direcionado a engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas, produtores rurais e acadêmicos das Ciências Agrárias e áreas afins, que buscam se aperfeiçoar tecnicamente para o desenvolvimento de uma agricultura altamente produtiva e sustentável. Por ser a distância, permite grande flexibilidade aos alunos. Dividido em módulos, facilita a interação com especialistas em diferentes assuntos, de forma dinâmica e personalizada. Atualiza-se permanentemente, para informar os alunos sobre as mais recentes inovações e constatações cien-tíficas.

Outra estratégia é promover a capacitação de recursos humanos para determinadas realidades, como as das regiões Sul e Sudeste e seus países vizinhos com características semelhantes. Nessa ação, a iniciativa pioneira é da Universidade Positivo de Curitiba (up.edu.br), que a partir de 2017 oferece um curso de especialização em SPD presencial, com aulas em um final de semana ao mês. A primeira turma inicia em abril. Esse curso abordará problemáticas que têm atingido o manejo do solo, destacando como reverter o processo e garantindo uma produção agrícola com uso sustentável do solo a longo prazo, por meio do compartilhamento de conhecimento e experiência de profissionais de excelência na área, considerados referência devido às suas pesquisas e ao trabalho conjunto com os agricultores. Os temas abordados estarão divididos em 16 disciplinas:

Evolução da atividade agrícola

? Enfoque em sistemas de produção e visão holística
? Agricultura conservacionista
? Aspectos econômicos do SPD
? Gênese e classificação de solos
? Perfil do solo e estruturação
? Microbiologia do solo
? Fauna do solo
? Culturas de cobertura e adubação verde
? Matéria orgânica e carbono do solo
? Fertilidade química do solo
? Atributos físicos do solo
? Máquinas e equipamentos para SPD
? O SPD na perspectiva das plantas e da natureza
? Aspectos legais da agricultura conservacionista
? Plano ABC e a agricultura conservacionista

Além de visitas técnicas e disciplinas que orientarão a composição do trabalho de conclusão de curso do discente. O público-meta são agricultores e técnicos, portadores de nível superior, ligados ao setor agropecuário e às áreas afins. O primeiro final de semana do curso contará com uma aula inaugural ministrada pelo Dr. Honoris causa Herbert Bartz, o primeiro agricultor a praticar o plantio direto em escala comercial na América Latina, em 1972. Bartz é um dos ícones da agricultura nacional, um exemplo de teimosia e perseverança que mudou os rumos da agricultura mundial. Os dois cursos mencionados são chancelados pela FEBRAPDP.