Eduardo Almeida Reis

 

MODERNIDADE

EDUARDO ALMEIDA REIS

Fazenda no Triângulo Mineiro, 12 mil litros de leite por dia, três ordenhas, gado holandês e girolando, tecnologia moderníssima. As vacas têm tornozeleiras eletrônicas que informam seus movimentos à central de computação no escritório da fazenda. E têm colares eletrônicos, invenção holandesa recente, informando à mesma central quando estão se alimentando, ruminando ou se estão entrando no cio, permitindo a inseminação artificial na hora certa. Tudo, evidentemente, no conforto de galpões climatizados, pisos com serragem de madeira e outras conveniências. Assistência veterinária e informática 24 horas por dia.

No mesmo Triângulo Mineiro, mas em outra fazenda, uma colheitadeira de milho anota o peso do produto colhido e relaciona- o com a área percorrida pela máquina naquele trecho. Assim, a gerência tem condições de localizar os trechos que produziram menos e estudar a adubação que deve ser feita.

São algumas das novidades que vi nos programas de tevê, constatando que já não entendo mais nada. Perdi tudo que estudei. Tive biblioteca agropecuária tão grande, que impressionou duas jovens estudantes de Zootecnia quando passaram um final de semana na fazenda fluminense.

Li e reli a maioria dos livros, mas fui ultrapassado pelas modernidades. Muitos anos atrás já fiquei impressionado com os tratores trabalhando sozinhos, sem tratoristas, nos Estados Unidos e no Canadá. Agora, com o colar das vacas leiteiras e os podômetros eletrônicos, fiquei de queixo caído. Escrevi tornozeleiras aí atrás e me pergunto se vaca tem tornozelos? Estudei o exterior dos animais domésticos, tenho livro sobre o assunto, mas deixo o nome do tal aparelho a critério do leitor d’A Granja, considerando que perdi o bonde da história agropecuária.

No verão de 2017, quanto receberá por litro vendido a fazenda triangulina? Se recebesse dois reais, seriam 720 mil reais de leite vendido por mês, mas deve receber menos segundo me dizem os produtores que acabo de consultar.

Combustível, eletricidade, salários, número de trabalhadores nas três ordenhas, gerência geral, técnicos em informática, assistência de pelo menos dois médicos-veterinários, manutenção das instalações – tudo isso custa muito dinheiro.

Lucro, empate ou prejuízo são problemas da empresa que explora a propriedade, enquanto o meu é mais sério: desaprendi, perdi o bonde. A sensação deve ser parecida com a de um cantor de ópera que perde a voz, de um jogador de futebol que estoure irremediavelmente os meniscos.

O aparelho na perna da vaca não é uma boleteira, já que o boleto é articulação volumosa e arredondada nas pernas dos cavalos. Seria quartela, sobreunha ou coroa do casco? Não sei, pois o livro continua sumido. O fato é que as tais vacas transportam um colar eletrônico além do tal aparelho em uma perna. E as pessoas acham caro o leite à venda nos supermercados.

A partir do que se vê em algumas fazendas triangulinas dá para imaginar o que vem sendo feito no agronegócio brasileiro. Também pela tevê aprendi que há vitivinicultores gaúchos empenhados na produção vinícola pela energização do parreiral. Processo complexo e ininteligível por simples mortais, que envolve a manipulação de um composto à base de esterco bovino, durante uma hora, por um grupo de pessoas em silêncio e sem luvas.

A partir daí, o composto passa um ano enterrado em um tubo de tábuas, acho que orgânicas, sob supervisão de engenheiro agrônomo e enólogos. Energizado no buraco, o composto pode ser metido entre os ossos do crânio de uma vaca, ou em uma cumbuca de barro (as energizações são diferentes conforme feitas no crânio ou na cumbuca). Alfim e ao cabo, energizam as parreiras para produzir vinho de muito sucesso comercial, tanto assim que já existe em São Paulo, capital, um restaurante que só trabalha com vinhos energizados no RS ou na Europa. Restaurante que, para deleite dos que suportam música de sanfona, conta com um sanfoneiro tocando sem descanso.

Em concomitância com as vacas de coleiras eletrônicas, há gente produzindo cacau em sistema supostamente à prova de chupança, tripés, lagartas, vaquinhas, pulgões e formigas que dão cabo de 25% da produção mundial do produto amado pelos chocólatras.

Sistema que teria inspirado, em São Paulo, o agronegócio da fazenda de um dos filhos do bilionário Abílio Diniz. Ora, o só fato de um dos filhos do Abílio adotar o moderno sistema indica o caminho que deve ser trilhado pelos produtores rurais brasileiros para transformar este País grande e bobo no celeiro do mundo, se a corrupção permitir.