Coopavel

 

A feira das primeiras BOAS NOTÍCIAS do ano

A Show Rural Coopavel, realizada no mês passado, em Cascavel/PR, refletiu a realidade atual da agricultura brasileira, que se encaminha à safra recorde. Muita tecnologia, produtores ávidos por inovações e negócios aquecidos. Foram mais de R$ 2 bilhões em vendas, além de negócios encaminhados

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com
Texto e fotos

O momento da agricultura brasileira na temporada 2016/17 foi sintetizado em cinco dias. Assim é possível definir o que ocorreu em Cascavel/ PR, no início de fevereiro, na 29ª edição da Show Rural Coopavel, a primeira das megafeiras agrícolas do ano. Tecnologia de ponta em máquinas, insumos e serviços das principais companhias brasileiras e globais, plots expondo vistosos cultivos com manejos de ponta, empresas públicas de pesquisa apresentando suas inovações, produtores bem interessados em novidades e, sobretudo, negócios em profusão. O evento atraiu mais de 253 mil visitantes e movimentou R$ 2 bilhões em negociações – sem contar as que ficaram encaminhadas. Tudo isso na semana em que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou estimativa de safra recorde para o Brasil de 219 milhões de toneladas para a temporada 2016/17, 17,4% ou 32,5 milhões de toneladas a mais que a anterior (então comprometida pelo clima).

“O produtor está colhendo a maior safra da história na propriedade”, justificou Dilvo Grolli, presidente da Coopavel Cooperativa Agroindustrial, que promove a feira. “As perspectivas são grandes para aumentar as produtividades”, descreveu a realidade dos associados. Segundo ele, enquanto a média paranaense de produtividade de soja é de 65 a 70 sacas por hectare, há cooperados da Coopavel conseguindo 90 sacas. Grolli justifica na tecnologia os altos desempenhos, e menciona o “choque” que muitos produtores levam ao conhecer novas variedades de semente lançadas na feira. A partir das novas tecnologias, o dirigente entende ser viável aumentar entre 20% e 30% a produtividade. “Em dois ou três anos, (o incremento) vai acontecer”, avalia. “A rentabilidade está ótima”, revela, ao lembrar que os produtores têm custo médio por saca de soja de R$ 34 a R$ 36, e a comercializam a R$ 65, R$ 70.

“O produtor está colhendo a maior safra da história na propriedade”, destacou Dilvo Grolli, presidente da Coopavel Cooperativa Agroindustrial

Foram esse ritmo e a necessidade de buscar produtos mais eficientes que levaram produtores a buscar no evento a renovação de suas máquinas. Valdecir Lava, produtor de 109 hectares de soja, 60 de trigo e seis de fumo em Guamiranga/PR, trocou a colheitadeira ano 2004 de 175cv por uma de 220cv. “Queria uma mais moderna e com mais qualidade”, justificou. “Com mais qualidade de grão e mais agilidade”. Ele pagou R$ 550 mil pela máquina financiada pelo banco da montadora, em oito anos, e ainda entregou a antiga pelo valor de R$ 155 mil. Lava começaria a colheita nos dias seguintes à feira, com produtividade de 61 sacas por hectare. O preço no dia da compra estava em R$ 72/saca, sendo que ele tinha feito a comercialização antecipada de cerca de um sétimo da safra (mil sacas) a R$ 90.

Produtor Valdecir Lava (com o filho), de Guamiranga/PR, aproveitou o Show Rural para comprar uma colheitadeira“mais moderna e com mais qualidade”

Já o produtor Idair Giacomin, de Vitorino/PR, adquiriu um pulverizador autopropelido para substituir a máquina na ativa há 16 anos. “Estava na hora de trocar”, argumentou o produtor que cultiva 880 hectares, somando soja, milho, feijão e trigo. “O meu estava ficando pequeno”, revelou, ao comparar os 36 metros de barra de pulverização ante os 21 metros do anterior. “Sempre fui agricultor.

Estou melhorando cada vez mais. Tem que acompanhar, senão fica para trás, não acompanha a evolução”, prosseguiu. Giacomin investiu R$ 798 mil, 10% à vista e o restante financiado via Finame, e se disse surpreendido pela agilidade para a liberação dos recursos, pois solicitou o financiamento na segunda-feira e fechou a aquisição na quinta-feira. “Fora da feira, iria ser mais difícil”, avaliou a vantagem da compra ter ocorrido no Show Rural. O produtor contou que trabalha com três filhos, e a compra se deu já pensando no futuro deles na propriedade.

Já outros vão à feira para tomar conhecimento das técnicas e tecnologias, já que, em um ambiente como o Show Rural, têm a oportunidade de vê-las bem de perto – e com explicações dos seus idealizadores. Osmar Colossi, brasileiro que tem propriedade em San Alberto, no Paraguai, 120 quilômetros a partir de Foz do Iguaçu/PR, esteve na feira para conhecer novas variedades de soja. Colossi, que está há 22 anos no país vizinho, cultiva soja, milho e trigo, um total de 700 hectares, e esteve na Embrapa para se informar sobre os lançamentos de soja, onde se encantou com as cultivares BRS 413RR e BRS0388.

Segundo ele, as condições de cultivo de onde ele cultiva são as mesmas da região de Cascavel. “A região aqui é muito parecida com a nossa”, contou. “É uma extensão daqui”. Conforme o produtor, onde ele tem propriedade, a predominância dos produtores brasileiros é total. “Na verdade a agricultura paraguaia é brasileira”. E todas as negociações de insumos e comercialização se dão em dólar.

Idair Giacomin, com a esposa, Marilaine, de Vitorino/PR, adquiriu pulverizador para substituir o antigo de 16 anos, já pensando nos três filhos que trabalham com ele

Tecnologias que fazem render mais — Em seu amplo e diversificado Espaço do Conhecimento, a Embrapa, com profissionais de suas unidades, expôs lançamentos e disseminou informações. Como a importância da inoculação de bactérias para a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), uma possibilidade para incrementar a produtividade de culturas como soja, milho e feijão e que muitos produtores desconhecem ou até lançam mão, porém, metade dos que usam a tecnologia realiza o procedimento de uma maneira incorreta. “O inoculante é facilmente encontrado na agropecuária.

Osmar Colossi, brasileiro que cultiva soja, milho e trigo em San Alberto, no Paraguai, gostou dos lançamentos de cultivares da Embrapa

O problema é o produtor não receber a informação”, explicou o pesquisador da Embrapa Soja André Mateus Prando, que palestrou na feira sobre o tema. “Os produtores acham que dá trabalho por (buscarem) praticidade. Mas eles desconsideram o que estão ganhando”, advertiu. “O produtor está deixando de ganhar por não adotar corretamente a tecnologia”.

Pesquisador André Prando, da Embrapa Soja, mostra a diferença do desenvolvimento de plantas de soja inoculada e sem inoculação

Outro assunto divulgado pela Embrapa foi a produção de brotos de soja para a alimentação humana, mais especificamente o lançamento de um equipamento automatizado e de baixo custo chamado Tecnobroto – apropriado para associações e agricultores familiares. Para montar, são necessários componentes como caixa d’água de 100 litros, bombas de drenagem de água entre outros, a um custo de aproximadamente de R$ 3 mil.

Conforme o pesquisador da Embrapa Soja Marcelo Álvares de Oliveira, cada quilo de semente de soja (específica para essa produção) gera cerca de 2,5 quilos de brotos. No tanque, de cinco a sete dias, já é possível realizar a colheita dos brotos, que são consumidos como salada (depois de fervidos) ou em conserva. Entre seus atributos, está o baixo valor calórico, alto teor de proteína e ainda é um alimento funcional (possui isoflavona). O perfil do público consumidor é aquele que prefere alimentos naturais.

Paulo César Magalhães, da Embrapa Milho e Sorgo, ajudou a desenvolver o aplicativo Doutor Milho, que permite acompanhar como está o desenvolvimento da cultura

Diagnóstico é com o Doutor Milho — Outra das tecnologias apresentadas pela Embrapa é a que permite acompanhar o desenvolvimento da lavoura de milho por meio de um aplicativo, o Doutor Milho. “Ferramenta tecnológica que acompanha o ciclo da planta do milho em todos os estádios. Visa orientar medidas inteligentes e sustentáveis para a agricultura”, descreveu o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Paulo César Magalhães, que trabalhou no desenvolvimento do App. Basta cadastrar o talhão e a data de emergência, que o aplicativo oferece indicativos de como está o desenvolvimento da lavoura, as eventuais incidências, como as ameaças fitossanitárias, além de indicativos sobre as intervenções e os manejos para que a plantação se desenvolva conforme seu potencial. “É simples, e o principal foco é a usabilidade e a simplicidade”, esclareceu. O aplicativo é gratuito e está disponível nos sistemas Android e iOS, além de ser encontrado em www.embrapa.br/milho-e-sorgo.

A feira de Cascavel é um verdadeiro paraí-so para o lançamento de novas cultivares. A Embrapa e a Fundação Meridional apresentaram nove cultivares de soja, entre convencionais, RR e Intacta. A instituição ainda apresentou como novidade a cultivar de feijão carioca BRS FC402, com resistência às doenças antracnose e murcha do fusário. Já o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) lançou a variedade de feijão carioca IPR Celeiro, com resistência à mais danosa doença do feijoeiro, a mosaico dourado, tecnologia resultante de 41 anos de pesquisa. “Tem resistência horizontal ou parcial. Pode ser (o feijoeiro) infectado, mas os danos são insignificativos”, descreveu o pesquisador Anésio Bianchini, que trabalhou no desenvolvimento do IPR Celeiro. “Não tem outra forma de controle da doença se não tiver material resistente”, lembrou o pesquisador, que assim prevê a volta de plantios de feijão em re-giões em que o cultivo não era mais viável em razão da doença.


SUA MÁQUINA É ADEQUADA AO TAMANHO DA SUA ÁREA?

Anderson de Toledo (de chapéu), pesquisador do Iapar, junto a Aurélio Garcia, diretor da empresa Agropixel: ferramenta para avaliar se a máquina está de acordo com a área explorada

Certamente, uma das maiores dúvidas do produtor, ao adquirir uma máquina, é se aquele colosso tecnológico – e caro – é adequado ao tamanho e ao trabalho que ela executará na propriedade. Pois o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em parceria com a empresa Agropixel, desenvolveu uma plataforma online que permite saber “se o investimento que fez em máquina tem viabilidade econômica em relação à área de produção”, sintetizou o pesquisador Anderson de Toledo, que participou do desenvolvimento da ferramenta chamada Sistema para Gestão de Máquinas (Sigma). “O Sigma permite registrar e saber em detalhes e online se as máquinas estão se pagando. Com o tempo, o produtor terá um histórico das atividades e poderá fazer simulações para novas operações”, afirmou. “A gente via que não tinha essa ferramenta para o produtor”. A plataforma, gratuita, pode ser acessada em www.sigma.agropixel.com.br.

O Iapar também apresentou no Show Rural outra solução para um velho problema envolvendo máquinas, nesse caso, para quem produz feijão mecanizado. A instituição criou uma maneira de ampliar a quantidade de “dedos” no molinete da plataforma da colheitadeira, trabalho em parceria com a empresa Incomak, que fabrica as peças. A adaptação, que é simples e barata (algo entre R$ 1 mil e R$ 2 mil por máquina), permite que o produtor insira mais “dedos” para colher o feijão, e depois os retire para a vez da soja. “Alteração simples e de baixo custo”, definiu o pesquisador que coordenou o projeto, Hevandro Delalibera. O número de “dedos” é dobrado, e tal alteração permite que se colha a planta que é mais baixa que a da soja e ainda tem o perfil de ser mais prostrada. Conforme ele, as perdas na colheita com esse recurso caem 30% “pelo menos”. E ainda é possível usar a inovação para colher a soja que, por alguma razão, esteja mal desenvolvida.


AGROINDUSTRIALIZAÇÃO: O INDIVIDUALISMO NÃO TEM FUTURO

A Emater/PR estimou que pelo menos metade do público do Show Rural tenha visitado o amplo espaço da instituição de assistência técnica. E atrações, sobretudo para empreendedores da agricultura familiar e para quem tem por objetivo melhorar sua atividade e seu negócio, não faltaram. Nesta edição da feira, a agroindústria foi um dos temas abordados, mas mais do que isso, a importância do associativismo entre agricultores que investem nesse segmento. Dez associações ou pequenas cooperativas integradas por 40 famílias expuseram, não apenas os saborosos produtos fabricados nas propriedades, mas as vantagens da união entre as famílias para obterem eficiência na comercialização. “Eles conversam e trocam ideias”, explicou Renato Jasper gerente regional da Emater/PR.

Segundo definição de Jasper, o corriqueiro é que o pequeno agricultor que produz na propriedade, normalmente não consiga ser um eficiente comerciante. Assim como o contrário. “A comercialização coletiva tem funcionado”, avalia. “O maior problema é o individualismo”. E a Emater/PR trabalhou na feira justamente a conscientização sobre as vendas em grupo. “O técnico está junto tentando aproximar”, descreveu a ação da instituição. Além do incentivo sobre a comercialização coletiva, a Emater prestou esclarecimentos sobre diversos outros temas entre agricultura e pecuária, inclusive piscicultura e cultivo de ervas medicinais.

Muito mais sobre o Show Rural nas seções Gente em Ação e Novidades no Mercado, e também no Facebook d’A Granja