Comercializacão

 

COMERCIALIZAÇÃO exige enxergar antecipadamente

As modificações no ambiente de vendas e a formação de preços das commodities agrícolas foram intensas nos últimos 30 anos. Para se ter uma ideia, o volume diário de negociações na Bolsa de Chicago, que define cotações globais, saltou de 2 mil para 1,7 milhão

Paulo Molinari, consultor Safras & Mercado

Ao longo do tempo, alguns segmentos, metodologias, sistemas, mecanismos e parâmetros vão sendo modificados, ajustados ou até são substituídos. Isso ocorre em todos os setores da economia de forma natural e progressiva. No ambiente das commodities agrícolas há sempre o sentimento de que, por se tratar de produtos alimentícios, os parâmetros não mudam, que há pouca interferência de fatos novos e que o processo de evolução no aprendizado tem menor participação.

Esse conceito, rapidamente, perde consistência a cada ano em que a tecnologia da informação permite que os mercados trabalhem de forma mais rápida e, com isso, investidores internacionais possam participar da formação dos preços agrícolas de forma mais homogênea e consistente. Nesse ambiente, a ampliação do processo de aprendizado na comercialização de commodities agrícolas parece inevitável para as atuais e às novas gerações de forma a acompanhar a evolução dos mercados.

Nos últimos 30 anos, as modificações no ambiente da comercialização e formação de preços das commodities agrícolas foram intensas. Poucos devem lembrar, ou até não ter conhecimento das máquinas gigantes que transmitiam as cotações de abertura e fechamento das bolsas internacionais, mais conhecidas como telex. Os sistemas de transmissão de dados em real-time eram caríssimos e a velocidade de toda essa informação como ferramenta de Gerenciamento de Risco era extremamente lenta. Nesse período, a Bolsa de Chicago (Cbot), a qual opera e forma os preços das principais commodities agrícolas como milho, soja e trigo, negociava perto de 2 mil a 5 mil contratos por dia. Ou seja, a velocidade da informação está intrinsicamente ligada à capacidade de os investidores ampliarem as suas ações nas operações de commodities. Em outras palavras, a velocidade das negociações estava no ritmo do telex.

No ano passado, o volume de negociações na Bolsa de Chicago chegou a 1,7 milhão de contratos por dia nesse segmento de commodities. Ora, devemos lembrar que até 2015 ainda havia pregão viva-voz, o qual deu lugar ao pregão eletrônico em função da ampliação do número de investidores nos pregões. Naturalmente os sistemas eletrônicos de operação substituíram a operação manual pelo volume de negociação diária. Devemos refletir que esse ainda é um processo inicial, no qual os sistemas de operação eletrônicos foram recém-implantados e isso somente tende a se expandir na velocidade da tecnologia.

Bem, o que isso muda para o cotidiano da comercialização agrícola em nível mundial e para o Brasil, que é o grande fornecedor mundial de alimentos? A mudança é radical e importante. A necessidade de informações para gerenciar o risco, há 30 anos, era muito menor do que se tem hoje. A velocidade da informação hoje nos permite dizer que o ritmo das operações em bolsas de futuros aumentou substancialmente, o que é representado pelo volume diário de contratos negociados. Isso quer dizer que, a cada dia, mais investidores precisam de mais informações para estar à frente das negociações e gerenciar riscos.

Os preços de milho, farelo de soja e trigo no Brasil, e em boa parte do mundo, são gerados a partir de uma bolsa de futuros, a qual não está localizada no Brasil. Dessa forma, para nos adequarmos a essa velocidade do ritmo de operações e das informações, há a necessidade de reaprendizado contínuo a respeito dos mecanismos utilizados em operações de futuros, nas equações de formação de preços e nos devidos parâmetros que influenciam os preços diariamente. Não basta apenas conhecermos muito bem as condições de lavouras, as condições de fretes internos e do funcionamento dos agentes do mercado nacional se a formação de preços tem origem em indicadores sobre os quais não temos controle, como câmbio, prêmio e Bolsa de Chicago.

No passado, apenas a Análise Fundamental (quadro de oferta & demanda puro) era suficiente para compreendermos o quadro de uma commodity agrícola e gerenciarmos o seu risco de preço. Hoje em dia, a agregação da Análise Técnica é inadiável, tendo em vista a elevação da velocidade dos negócios, do volume e até a inserção de mecanismos como os chamados “robôs”. Ignorar essa nova geração tecnológica dos mercados implica em não se atualizar e não acompanhar a ampliação da volatilidade dos preços, ou seja, abrir mão de mecanismos de gerenciamento de riscos necessários para o padrão atual dos mercados. Podemos dizer que nos próximos 15 anos essa necessidade de se manter atualizado e no ritmo dos mercados somente irá exigir mais dos produtores, operadores de mercado interno, comerciantes e compradores, em termos de aprendizado.

Os desafios dos mercados de milho, soja e outras commodities, exigem do participante de mercado uma permanente atualização sobre os parâmetros fundamentais e técnicos para que se possa praticar um adequado gerenciamento do risco de preço no ambiente interno de comercialização. A visão global dos parâmetros fundamentais para observação de tendências e tomadas de decisão no gerenciamento de risco são ferramentas indispensáveis para o sucesso das operações diárias.

Além disso, saber interpretar conjuntamente a avaliação técnica, os indicadores fundamentais e os instrumentos de operação em mercados futuros e de opções é requisito prévio para enxergar antecipadamente os movimentos dos preços nas bolsas e as melhores alternativas de operações, sem depender exclusivamente do preço físico das mercadorias e da geração de oportunidades especulativas e/ou de hedge baseada na análise gráfica.

Os gestores que operam nas bolsas de futuros estão cada vez mais técnicos e ampliando a velocidade de seus negócios. Se o Brasil deseja diminuir progressivamente as suas perdas no segmento de comercialização, deverá avançar no processo educacional de gestão de risco de preços e os mecanismos de comercialização. Safras & Mercado ministra cursos intensivos de comercialização de soja e milho que reduzem riscos de comercialização com base em ferramentas globais.