Na Hora H

 

O CONFLITO ENTRE A POLÍTICA MONETÁRIA DO GOVERNO E OS JUROS PARA O PRODUTOR

ALYSSON PAOLINELLI

O produtor está sendo penalizado com esse conflito entre a política monetária de juros altos e a equalização que o Governo faz para baixar os juros dos empréstimos rurais. Se as contas forem bem feitas, ele mais paga do que recebe. Entendo esse fato como jogar dinheiro pela janela. Será que isso está de fato ajudando a produção nacional? Não acredito, especialmente agora, que a inflação já caiu a níveis abaixo das próprias metas do Governo. E se observarmos claramente, vamos ver que a inflação que mais caiu neste último período foi exatamente a dos alimentos. O ICPA dos alimentos está sendo o mais baixo. Com isso, aquele aumento dos juros no crédito rural está hoje colocando os juros de crédito rural como os mais caros do mundo. Reparem que, com os atuais dados da economia do nosso País, hoje já estaríamos pagando um juro positivo de mais de 6% ao ano no crédito rural. Isso não existe em lugar nenhum do mundo.

Não é assim que se ajuda e estimular a produção nacional. É urgente que se corrijam esses erros para evitar o tremendo desperdício de recursos que o Governo pensa colocar à disposição dos produtores rurais, e, no entanto, os quais se transformam em mais um peso no custo dos nossos produtos e um tremendo estrago em nossa capacidade competitiva. Este assunto tem de ser urgentemente discutido e principalmente acertado, pois não interessa a ninguém que o dinheiro voe pela janela. O Brasil está em crise e tem de ser racional, especialmente em seus gastos, e quando se gastar tem de ser com parcimônia e se obter os melhores resultados.

Outro ponto que nos preocupa são os custos sempre crescentes dos produtos e serviços que o produtor usa para produzir. Não é só o do crédito. A falta do seguro rural de forma racional e eficiente é outro ponto que mais encarece a produção do Brasil de hoje. O produtor está pagando via custos de insumos e serviços valores muito acima do real. A falta do seguro para reduzir os riscos faz com que cada um dos prestadores de serviços ou fornecedores de material acresça nos preços correntes valores que permitam neutralizar os sinistros dos seus clientes, onde houver. Com isso, as empresas fornecedoras de produtos ou serviços se garantem do risco, que é pago antecipadamente pelo produtor em um custo a mais do mercado.

Vejam que nesse caso quem paga exclusivamente o custo do risco é o produtor, embora ele não tenha nenhuma garantia para cobrir os prejuízos dos sinistros que possam acontecer em sua lavoura. Isso também tem de ser analisado e resolvido urgentemente. Só um programa de seguro rural eficiente e moderno pode resolver esse angustiante problema.

A outra análise que tem de ser feita é de como o Governo efetivamente poderá ajudar o produtor a pagar a sua taxa de risco quando se tiver um seguro sério para atender a produção. Muitos podem pensar que o Governo não tenha recursos suficientes para subsidiar as taxas de risco dos 30 milhões a 40 milhões de hectares que formam a nossa grande produção.

Posso apostar que, se houver racionalidade nos recursos que o Governo está gastando para subsidiar a nossa produção, além dos outros recursos que estão no mercado amortecendo os riscos da atividade, se dirigidos a um programa sério de seguro rural, vão dar de sobra para realizar o tão sonhado seguro de renda ao produtor brasileiro. Temos é que ter coragem e capacidade para fazer uma análise real do que está acontecendo. O produtor brasileiro não é bobo e, se ele participar dessa análise, as coisas vão mudar.

Engenheiro agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura