O Segredo de Quem Faz

 

O rei do GRÃO-DE-BICO

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com

Ao seleto grupo dos “reis” da agricultura brasileira – a exemplo, Rei da Soja, Rei do Gado – pode ser agregado um novo monarca: o Rei do Grão-de- Bico. O engenheiro agrônomo Osmar Artiaga, 55 anos, filho de agricultor, não só é o maior produtor de grão-de-bico do Brasil, como é o único. E, além disso, foi ele quem desenvolveu as variedades da sua lavoura, toda irrigada, e que será de 700 hectares neste ano, em Cristalina/GO. Artiaga divide a produção em suas terras e nas de um amigo, João Batista do Amaral, da Fazenda Alvorada, mas é ele quem pensa (e muito!) e realiza o cultivo. No ano passado, exportou 44 toneladas para Dubai e Colômbia. “Eu acho que em breve o Brasil vai se tornar o maior exportador de grãode- bico no mundo. Porque o mundo consome alguma coisa em torno de 15 milhões de toneladas por ano, e produz alguma coisa ao redor de 10,5 milhões”, prevê. A seguir, a história peculiar deste produtor.

A Granja — Como você entrou no segmento do grão-de-bico?

Osmar Artiaga — Eu sou engenheiro agrônomo e resolvi a fazer um mestrado na área de melhoramento vegetal, na Universidade de Brasília (UnB). E eu queria trabalhar com uma cultura inédita, e escolhi o grão-debico. Defendi a minha tese de mestrado com o grão-de-bico, em 2008. Quando trabalhei com o melhoramento de soja, de 1985 a 1988, eu já tinha trabalhado com grão-de-bico, quando montei um experimento. Só que as plantas cresciam pouco. Agora conseguimos materiais com um porte um pouco mais elevado, e foi aí que começou a despertar o interesse. Defendi a tese e, como sou produtor, eu mesmo resolvi utilizar o conhecimento que adquiri no mestrado cultivando a cultura. Começamos com a coleção para trabalhar na tese com 20 sementes por cultivar. Era em torno de 150 materiais, e desses, conseguimos selecionar seis variedades adaptadas ao Planalto Central. Comecei com as 20 sementes no primeiro ensaio e fui selecionando, selecionando, selecionando, até chegar nas seis variedades.

A Granja — E como foi a evolução do cultivo?

Artiaga — Em 2012, foi um hectare com as seis linhas promissoras. Em 2013, um hectare para cada uma das seis cultivares. Mas não teve venda comercial. A partir do primeiro hectare, normalmente a relação de multiplicação é de um para 20, 25. Em 2014, a área foi de 60 hectares nos meus pivôs. Em 2015, foram 240 hectares, a primeira produção comercial, e, em 2016, mais 400 hectares. Em 2014, foi comercializada muita pouca coisa, mas se comercializou. A primeira exportação aconteceu no ano passado, dois contêineres de 22 toneladas de cada um. Um para Dubai e outro para a Colômbia.

A Granja — Qual a procedência das variedades que o senhor começou o plantio?

Artiaga — Quando fui desenvolver a tese, meu orientador era da Embrapa Hortaliças. Então, as linhagens vieram do Icarda (The International Center for Agricultural Research in the Dry Areas), da ONU, que ficava em Allepo (Síria), e que agora está no Líbano (em Beirute) por causa da guerra, através de um convênio que a Embrapa Hortaliças tinha com o instituto de fomento que está no mundo todo, que fomenta não só grão-de-bico, mas ervilha e outras.

A Granja — Qual a sua área hoje e quais as perspectivas de expansão?

Artiaga — Neste ano pretendemos, o meu parceiro (João Batista do Amaral, que participa com uma área) e eu, plantar 700 hectares, 200 na minha área e 500 na dele. Com uma produção esperada de 2 mil toneladas. No ano passado foram 400 hectares. Neste ano, estamos pensando em uma expansão para o Mato Grosso no sistema de segunda safra. Mas de forma experimental, juntamente com a Agrícola Ferrari, do Rio Grande do Sul. Vamos fazer um experimento, área-piloto. Alguma coisa de 30, 40 hectares. Mas com delineamento estatístico e com aleatorização (diferentes tratamentos em unidades experimentais). Com as seis cultivares e em três épocas diferentes, tentando compreender um pouco melhor como a cultura vai funcionar no cultivo sem irrigação. Se você pensar em volume, em quantidade, em qualquer produto agrícola, tem que pensar no estado do Mato Grosso.

A Granja — E hoje, como se dá o cultivo, o manejo?

Artiaga — Quando fiz a seleção já fiz objetivando o cultivo em área irrigada do Planalto Central, e que pudesse ser feito tudo mecanicamente, do plantio à colheita. Hoje usamos as mesmas máquinas que se usam em soja e feijão. Não fazemos adaptação nenhuma, mas aquilo que eu tenho como agricultor. Não tem que comprar nenhuma máquina a mais para cultivar grãode- bico.

A Granja — E quanto a insumos?

Artiaga — Praticamente a mesma coisa. A única particularidade do grãode- bico é que, em um cultivo irrigado, em uma comparação, por exemplo, com feijão da terceira safra, que é irrigado, ele gasta alguma coisa como 40% da água para cultivar o feijão, porque é uma planta de origem no clima árido. O plantio é em abril e o ciclo é de 120 dias.

A Granja — E solos?

Artiaga — Praticamente a mesma coisa. Vou falar de forma comparativa: uma área que é boa para se plantar feijão, pode-se plantar o grão-de-bico da mesma forma. Sem presença de alumínio, aqueles mesmos níveis de fósforo, potássio e micronutrientes. É normalmente também sensível a fungos de solo. Só que essas cultivares que selecionamos são mais tolerantes.

A Granja — As cultivares atuais são as mesmas seis da sua tese?

Artiaga — São seis. A recomendada é a BRS Aleppo, da qual faço parte como criador. Foi recomendada pela Embrapa Hortaliças. E tem mais algumas que devem sair até o final do ano. E as outras continuam em código, mas devem se transformar em cultivares.

A Granja — E quanto à incidência de pragas e doenças? No mercado, há defensivos registrados para a planta?

Artiaga — O fator mais limitante é com relação às lagartas desfolhadoras. São as mesmas que atacam soja, milho e feijão. A particularidade com relação ao grão-de-bico é que ele repele a mosca-branca, uma praga limitante aqui na região Centro-Oeste. É devido a um ácido que solta pela folha do grãode- bico, e nas folhas têm uns pelinhos que repelem a mosca-branca. Para controlar a lagarta, o que temos feito, já que não se encontra nenhum defensivo recomendado porque o volume é muito pequeno, procuramos usar inseticidas fisiológicos e os mesmos recomendados para a cultura do feijão.

A Granja — E comercialização, a formação de preços?

Artiaga — O principal mercado que comprou neste ano foi o dos atacadistas da região de São Paulo. Alguma coisa, em pequena quantidade, por duas indústrias aqui vizinhas que fazem conservas. O grão-de-bico é classificado por tamanho, de sete a dez milímetros. Quanto maior o grão, mais valorizado. O preço oscila entre US$ 1 o quilo, preço pago ao produtor. Isso daria uma margem de lucro de 20%, 25%, com a produção média de 2,5 a 3,5 toneladas.

A Granja — O que pesa mais no custo de produção?

Artiaga — O que pesa mais comparado com outras culturas, como feijão e trigo, por exemplo? É o que pesa menos, costumo dizer. Gasta menos água, não se usa fungicida, basicamente só inseticida, que tem um custo mais baixo. De tudo o que se cultiva no inverno aqui na região do Planalto Central, o grão-de-bico é o que pesa menos. E me garante uma rentabilidade bruta de R$ 8 mil por hectare.

A Granja — E como se deram as exportações?

Artiaga — Eu fiz junto à Agrícola Ferrari. Vendi para a empresa, que exportou. Existe uma burocracia para exportar. Para mim, como produtor, ficaria muito complicado preencher todos os requisitos. Então, preferi vender as 44 toneladas para a Agrícola Ferrari, beneficiando naquele padrão que a empresa pediu. E foi feita a exportação. Provavelmente neste ano teremos uma produção um pouco maior, e a Agrícola Ferrari vai entrar junto com a gente.

A Granja — Você seria o maior produtor de grão-de-bico do Brasil? Ou conhece alguém que produza mais?

Artiaga — Nós somos o único! Desafio você a encontrar outra área, alguém que cultiva outra área no Brasil.

A Granja — Mas por que ninguém mais produz grão-de-bico? Qual a sua explicação?

Artiaga — É uma boa pergunta. É uma boa pergunta. Eu não sei te responder. Eu sei que a primeira tentativa com grão-de-bico foi com o Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, que recomendou a primeira variedade, em 1976, a IAC Marrocos. A segunda variedade, a BRS Cícero, surgiu pela Embrapa Hortaliças, em 1988. A terceira, a Leopoldina, selecionada por um pesquisador (Rogério Vieira) da Epamig (empresa de assistência técnica de Minas Gerais), em 1999. Ele estava desenvolvendo uma tese de mestrado em Viçosa/MG e do trabalho tirou um material que posteriormente foi recomendado como cultivar. Mas ninguém planta. E nunca se cultivou! Está aí um objeto de estudo. Por quê? Eu não sei.

A Granja — Que perspectiva você vê para a expansão dessa cultura no Brasil? Enxerga algum futuro?

Artiaga — Eu acho que em breve o Brasil vai se tornar o maior exportador de grão-de-bico no mundo. Porque o mundo consome alguma coisa em torno de 15 milhões de toneladas por ano. E produz alguma coisa ao redor de 10,5 milhões. Então, tem uma demanda retraída de aproximadamente 4 milhões de toneladas. E o Brasil é um país basicamente agrícola. Então, tem tudo. Tem mercado, é uma commodity importante, não se come só no Brasil, se come no mundo inteiro. Então, acredito que o Brasil vai ser, em curto espaço de tempo, o maior exportador de grão-de-bico.

A Granja — Que dicas você daria a outros produtores que pensam em investir nessa cultura?

Artiaga — Acho que esse não é o meu papel. É um papel das empresas públicas, que recebem verba do Estado para fomentar a produção agrícola. Não sou eu que tenho que dar solução para isso. Na verdade, estou cuidando na minha vida. Estou procurando uma alternativa de negócios. Praticamente não tenho conselho algum a dar. Essa é uma pergunta que você tem que fazer, por exemplo, na Embrapa Hortaliças. Perguntar o que estão fazendo para fomentar a cultura, uma vez que tem mais de 30 anos que recomendaram uma variedade. Eles recebem dotação orçamentária para esse tipo de coisa. Essa pesquisa que eu fiz, fiz com o meu dinheiro. A única coisa que eles me deram foi uma possibilidade de pegar uma coleção e trabalhar ela. Faz uma pesquisa. Você vai ver que é um assunto apaixonante. Eu, por exemplo, sou um apaixonado pelo grão-de-bico. Como todo dia, é saudável. Eu acho que o Brasil poderia comer muito mais, mas come muito pouco. Sabe por que come muito pouco? Porque é muito caro. Não tem necessidade de ser tão caro. No mercadinho meio quilo de grão-de-bico custa R$ 8, R$ 10. Não devia passar de R$ 3, R$ 4. Se algo como R$ 3 ao quilo remunera bem o produtor, por que tem que custar, meio quilo, ao consumidor R$ 8, R$ 10. O grão-de-bico consumido é 100% importado. Agora eu pergunto: se consome pouco porque custa caro, ou custa caro porque se consome pouco?