Eduardo Almeida Reis

 

BRASIL

EDUARDO ALMEIDA REIS

Os temporais do final do ano passado evitaram grande parte do Nordeste, proporcionando nova “maior seca dos últimos 50 anos”. Ora, a letra de “Paraíba”, música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é de 1952: “Quando a lama virou pedra/ E mandacaru secou,/ Quando a ribaçã de sede/ Bateu asa e voou”, tem 65 anos. Antes dela, muitas outras “maiores secas” despacharam milhares e milhares de nordestinos para o Sudeste. Como seria impossível fazer uma triagem, junto com um Nêumanne e um Moacir Japiassu, recebemos a figura abjeta de Luiz Inácio.

Acabo de confirmar que ribaçã ou avoante é pomba campestre, que ocorre das Antilhas à Terra do Fogo, com distribuição isolada em todo o Brasil. Só no Houaiss há 22 sinônimos, entre os quais ribação, motivo pelo qual aparece em diversas versões da letra de “Paraíba”. Em certos períodos representa uma importante fonte de alimentação para populações locais do Nordeste.

As últimas grandes secas fizeram que o substantivo masculino pipeiro, “indivíduo que faz pipas”, ganhasse o significado de “indivíduo que transporta e vende água em caminhão-pipa”, como vemos nas matérias televisivas.

Desde o final da década de 1960 visitei várias vezes o Norte de Minas, onde o problema da seca também é seriíssimo. A primeira coisa que os fazendeiros fazem, quando visitados, é mostrar suas reservas de água – cisternas, poços artesianos, açudes. Certa feita, pela indicação que me passaram, era preciso atravessar um rio para chegar a determinada fazenda. A estrada cortava o rio em um trecho de vau, isto é, local raso por onde se pode passar a pé, a cavalo ou com um veículo normal.

Realmente alcancei a fazenda, mas não vi rio pelo caminho com ou sem vau. Perguntei ao fazendeiro e ele explicou que um vizinho, rio acima, plantara feijão irrigado com a água do tal rio, que sumiu do mapa. Estive comprando imensa fazenda cortada pelo Rio Verde Grande, onde nadei em condições curiosas:

um braço para nadar e a outra mão ocupada na proteção dos países baixos contra mordidas de pirambebas, um tipo de piranha que existe por lá. Pois muito bem: dia desses (escrevo em dezembro) vi na tevê que o Verde Grande secou.

Os solos calcários são férteis, mas falta água. Na primeira ida ao Norte mineiro, acho que em 1965, viajei quilômetros beirando postes de aroeira recémcortados e alinhados para embarque ferroviário. Existem diversas aroeiras, desde arbustos até árvores grandes. As aroeiras cortadas como postes e moirões sempre disputaram com a braúna o pódio das melhores madeiras para chão. Rareando, foram substituídas pelos postes e moirões de eucalipto autoclavado, que tomaram conta do Brasil.

Populações urbanas geralmente acham que água e lixo são problemas dos outros, das autoridades incumbidas de providenciar água tratada e dar sumiço no lixo doméstico embalado em sacos plásticos empilhados nas calçadas. Tratamento de esgotos também nos parece coisa de europeu ou de americano, sei lá. Basta ao brasileiro urbano saber que o esgoto de sua casa, ou do seu edifício, é recolhido por uma rede de tubos para ser despejado em “qualquer lugar”. Sem tratamento, passa a ser problema dos outros.

Só na roça descobrimos que água, lixo e esgotos são problemas nossos e de mais ninguém. A partir daí, na dependência do tamanho da empresa rural, dos investimentos e da tecnologia, certos resíduos podem até gerar energia para ser injetada da rede.

Trabalhei em uma usina de açúcar que tinha imensa plantação particular de cana cortada na munheca e transportada em caminhões a gasolina. Cada caminhão fazia em média cinco viagens por dia, quatro de cana e uma transportando lenha. Isso mesmo que deu para entender: lenha, madeira mais ou menos fragmentada usada como combustível. E não foi há mil anos.

Hoje, lenha, caminhão a gasolina e corte na munheca produziriam açúcar muito mais caro do que as joias compradas por ilustre advogada casada com ilustre ex-governador do Rio. O adjetivo ilustre também significa “conhecido, que adquiriu celebridade, famoso” – caso dos maiores ladrões dos dinheiros públicos.

Voltando à tal usina, me lembro de que pequeno desvio na tubulação transformava a empresa em uma das maiores produtoras de cachaça do Brasil. Aguardente embarcada à noite em caminhões-tanques para distribuição pelo país grande e bobo.

Dois fiscais do finado Instituto do Açúcar e do Álcool descobriram a tramoia e ameaçaram prender todo mundo, mas foram amaciados pelo pouquíssimo dinheiro que havia em caixa e se retiraram com o seguinte conselho: “Não repitam isso! Não é cachaça, é veneno. Vocês matam o Brasil inteiro...”