Plantio Direto

 

RESÍDUOS orgânicos de animais e a produtividade em SPD

Eng. agrs. Cledimar Rogério Lourenzi e Arcângelo Loss, doutores em Ciência do Solo e professores da UFSC; eng. agr. Jucinei José Comin, doutor em Agronomia e professor da UFSC; e eng. agrs. Carlos Alberto Ceretta e Gustavo Brunetto, doutores em Ciência do Solo professores da UFSM

A região Sul do Brasil é responsável pela criação de aproximadamente metade dos suínos e 1/3 da produção nacional de leite. Essas duas atividades, devido ao elevado número de animais em criação, principalmente sob confinamento, geram grande volume de dejetos líquidos ou sólidos, que podem ser aplicados no solo como fonte de nutrientes como o nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg), cobre (Cu), zinco (Zn), entre outros, em culturas anuais, pastagens ou cultivos de frutíferas, aumentando a ciclagem de nutrientes na propriedade, o que pode diminuir os custos com a aquisição de fertilizantes industrializados.

Ao contrário dos fertilizantes minerais, que podem ser formulados para as mais diversas condições de cultivo e de solo, os dejetos animais apresentam simultaneamente nutrientes em quantidades desproporcionais em relação à necessidade das plantas. Dessa forma, é muito comum em algumas propriedades o uso de doses elevadas de dejetos para suprir a demanda nutricional das plantas e obter elevadas produtividades. Entretanto, as adubações em excesso com dejetos animais podem ocasionar alterações nos atributos químicos do solo e provocar impactos ambientais indesejáveis, tais como a poluição de águas superficiais e subsuperficiais, especialmente com os elementos N e P. Devido a isso, antes da implantação de cada cultura, é importante utilizar critérios técnicos, estabelecidos pelos sistemas de recomendações oficiais regionais ou estaduais, para definir as doses das fontes de nutrientes que serão aplicadas, com o intuito de obter produtividade satisfatória e minimizar os impactos ambientais.

Dois experimentos com o uso de dejetos animais avaliaram a produtividade de milho, e também foi realizada coleta de solo nas camadas de 0-5, 5-10 e 10-20 centímetros para averiguar os atributos químicos do solo

No Sul, as doses de fontes orgânicas de nutrientes, a exemplo dos dejetos animais, são estabelecidas para suprir o nutriente que primeiro atingir a dose recomendada para a cultura de interesse, sendo os demais nutrientes complementados com fertilizantes minerais. Entretanto, alguns trabalhos foram desenvolvidos utilizando a recomendação de N às culturas como critério principal para a determinação da dose das fontes orgânicas a serem aplicadas, contudo, a maioria dos trabalhos com esse enfoque apresenta a avaliação de apenas uma, no máximo duas, fontes de nutrientes, o que torna difícil a comparação dos efeitos com outras fontes em outros momentos ou locais de avaliação.

Nesse sentido, com auxílio financeiro da Fundação Agrisus, foram conduzidos dois experimentos para avaliar a produtividade de culturas e atributos químicos em solos com longo histórico de uso de fontes de nutrientes em sistema plantio direto na região Sul.

O primeiro experimento foi conduzido na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na região da Depressão Central do Rio Grande do Sul, em um solo classificado como Argissolo Vermelho. A área é manejada sob SPD e recebe desde 2004 a aplicação das seguintes fontes de nutrientes: sem adubação (SA); dejetos líquidos de suínos (DLS); dejetos líquidos de bovinos (DLB); cama sobreposta de suínos (CSS); e adubação mineral (NPK). A dose aplicada de cada fonte de nutriente foi estabelecida para suprir a recomendação de N pela cultura a ser implantada, sendo milho como cultura de verão e aveia-preta como cultura de inverno. Para o NPK, além do N, também foram supridos o P e K, conforme análise de solo realizada previamente.

O segundo experimento foi conduzido em uma propriedade suinícola situada no município de Braço do Norte, região Sul de Santa Catarina, em um solo classificado como Argissolo Vermelho-Amarelo. A área também é conduzida sob SPD, utilizando a sucessão aveia-preta e milho, e recebe, desde 2013, a aplicação das seguintes fontes de nutrientes: sem adubação (SA); adubação mineral (NPK), seguindo a recomendação para a cultura do milho e da aveia; composto orgânico + NPK (CO+NPK); dejetos líquidos de suínos + NPK (DLS+NPK); e dejetos líquidos de suínos (DLS). Para os tratamentos CO+NPK e DLS+NPK, a dose da fonte orgânica foi definida para suprir o nutriente que primeiro atender a recomendação da cultura, sendo os demais complementados com fertilizante mineral. Nos dois experimentos foi avaliada a produtividade de grãos da cultura do milho da safra 2015/16 e também rea-lizada coleta de solo, nas camadas de 0-5, 5- 10 e 10-20 centímetros, para ava-liação de atributos químicos do solo.

A aplicação das fontes orgânicas na superfície do solo em áreas manejadas sob SPD promoveu incremento dos teores de matéria orgânica do solo, especialmente nas camadas superficiais do solo

Produtividade de grãos — As fontes de nutrientes avaliadas mostraramse eficientes em aumentar a produtividade de grãos da cultura do milho nos dois experimentos (Figura 1). No primeiro experimento, as maiores produtividades de grãos de milho foram obtidas com a aplicação de dejetos líquidos de bovinos, seguido de dejetos líquidos de suínos (experimento "a"). Enquanto que no segundo experimento não houve diferenças entre as fontes de nutrientes avaliadas, apenas houve maior produtividade quando comparadas as fontes de nutrientes com o tratamento sem aplicação (experimento "b").

O fato de as fontes orgânicas líquidas (DLS e DLB) terem apresentado maior produtividade no primeiro experimento demonstra que, devido a essas fontes apresentarem maiores proporções de nutrientes em formas minerais, como o P e K, pode ter favorecido o desenvolvimento e a produtividade da cultura do milho, em comparação ao tratamento com CSS. Já no segundo experimento, o fato de a produtividade de grãos de milho não apresentar diferença entre as fontes de nutrientes utilizadas está relacionado ao pequeno histórico de aplicação das fontes nesse experimento e também à complementação com fertilizante mineral nos tratamentos CO+NPK e DLS+NPK.

Atributos químicos do solo — O uso das fontes de nutrientes em ambos os experimentos promoveu alteração nos atributos químicos do solo, como alteração nos valores do pH do solo, incremento nos teores de matéria orgânica do solo, incrementos nos teores de P, K, Cu e Zn, não apresentando efeito significativo nos teores de Ca e Mg. Em relação ao pH do solo, é importante destacar que as fontes orgânicas de nutrientes não funcionam como corretivos da acidez do solo, apenas promovem efeitos devido a sua elevada carga orgânica, de maior adsorção de íons H+, podendo promover pequena elevação do pH do solo. Além disso, devido à presença de elevadas concentrações de N em formas amoniacais (N-NH4 +), ocorre a liberação de íons H+ durante o processo de nitrificação (transformação do N-NH4 + em N-NO3 -) no solo, podendo ocorrer redução dos valores de pH do solo.

A aplicação das fontes orgânicas na superfície do solo em áreas manejadas sob SPD promoveu incremento dos teores de matéria orgânica do solo, especialmente nas camadas superficiais do solo. Isso ocorre devido à elevada carga orgânica que essas fontes de nutrientes possuem, mas também por causa da deposição de resíduos vegetais na superfície do solo. O uso dos dejetos animais ao solo muitas vezes promove mais aumento dos teores de matéria orgânica indiretamente, pela maior deposição ao solo de massa seca das plantas de cobertura utilizadas no SPD, tais como a aveia-preta, e também dos restos culturais dos cultivos, como o milho.

Como consequência, ocorre melhora nos atributos químicos, físicos e biológicos do solo. Entretanto, as aplicações superficiais também promovem incrementos nos teores de nutrientes como o P, K, Cu e Zn, sendo que o P é um dos principais elementos com potencial poluente quando transferido para mananciais hídricos por escoamento superficial e, ou, percolação. Nesse sentido, os teores de P observados, especialmente na camada 0-10 centímetros no solo, em ambos os experimentos, estão acima dos considerados ideais para o tipo de solo estudado. Isso pode potencializar a eutrofização de águas superficiais e subsuperficiais, respectivamente, pela possibilidade de transferências de P pela solução escoada na superfície do solo, bem como pela solução percolada.

Seguir critérios técnicos — É importante destacar aos agricultores que o uso de fontes orgânicas, como os dejetos de animais, proporciona incremento na produtividade de grãos das culturas. Além disso, melhora a qualidade do solo, especialmente em relação ao incremento nos teores de matéria orgânica, P e K. Entretanto, convém ressaltar que o uso desses dejetos animais nas lavouras deve seguir critérios técnicos estabelecidos pelos sistemas de recomendações oficiais estaduais ou regionais, para evitar possíveis danos ao ambiente devido à transferência de nutrientes para mananciais hídricos.

Um dos principais critérios utilizados nos últimos anos é definir a dose de dejetos com base nos teores de N presente nos dejetos e relacionando com a exigência das culturas por esse elemento. Nas primeiras aplicações esse critério mostrase eficiente, entretanto, se os agricultores realizarem aplicações de dejetos na mesma área por vários anos seguidos, ocorre o acúmulo excessivo de P no solo, que pode ser transferido para mananciais aquáticos quando da ocorrência de altas precipitações. Dessa forma, o critério mais aceito atualmente para definir as doses de dejetos que devem ser aplicadas é um monitoramento do teor de P no solo e a avaliação do teor de P nos dejetos. Finalmente, é importante destacar aos agricultores que o uso de dejetos na agricultura proporciona benefícios às plantas, ao solo, ao meio ambiente e à sociedade, desde que realizado de forma a seguir recomendações técnicas.