Agricultura Familiar

 

DIVERSIFICAÇÃO que faz bem ao produtor de tabaco

Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco)

Produto de inquestionável importância no agronegócio brasileiro, o tabaco, além de manter o homem no campo com qualidade de vida, é a principal fonte de receita para centenas de municípios. Em muitos deles, é a mola propulsora do desenvolvimento. Atualmente, a cultura do tabaco está presente em 574 municípios da Região Sul, envolve mais de 144 mil famílias de agricultores, e 576 mil pessoas no meio rural. De acordo com dados da safra 2015/16, os 293 mil hectares plantados resultaram em 539 mil toneladas produzidas.

Ao deixar a casa do produtor, o tabaco passa por um processo de beneficiamento que envolve cerca de 40 mil pessoas em indústrias altamente qualificadas, localizadas em sua maioria na região do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Depois de ser classificado, destalado, fragmentado e umidificado, o tabaco forma um blend específico e está pronto para o seu destino final. Historicamente, mais de 85% da produção é exportada para 90 países, colocando o Brasil na primeira posição do ranking mundial de exportação desde 1993 e gerando uma intensa movimentação logística, acarretando em milhares de empregos diretos e indiretos.

Enquanto esse processo todo acontece nas indústrias, a lavoura descansa. Ou não. Há várias décadas, o setor incentiva os produtores a não deixarem ociosos esses valiosos espaços, orientando-os para a diversificação. O reflorestamento, por exemplo, é uma dessas atividades. Já nos anos 1970, o cultivo das árvores ganhou destaque por complementar renda, preservar as matas nativas e auxiliar na cura do tabaco.

Outro exemplo é o cultivo de milho, feijão e, mais recentemente, pastagens. Conduzido pelo SindiTabaco, o Programa Milho, Feijão e Pastagens Após a Colheita do Tabaco está em andamento desde 1985 e reúne a estrutura de campo das empresas associadas e das entidades apoiadoras para incentivar os produtores a diversificar suas atividades. São parceiros os Governos de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de entidades ligadas aos produtores e à agricultura, ou seja, as federações de Agricultura e federações de Trabalhadores em Agricultura dos três estados.

O programa tem trazido receita relevante para os produtores de tabaco. Somente no Rio Grande do Sul, o programa rendeu R$ 320 milhões aos produtores que plantaram milho e feijão na última safra. Estimamos que R$ 650 milhões foram injetados na economia da Região Sul com o plantio de 152 mil hectares de milho e feijão na resteva do tabaco no último ano. A expectativa para 2017 é positiva, considerando que teremos um incremento de renda com a adesão também da pastagem ao programa.

Pesquisa recente demonstrou que 79% dos produtores fazem a rotação e/ou sucessão de culturas para reduzir a proliferação de pragas, doenças e ervas daninhas, e que cerca de 50% garante renda com outros produtos além do tabaco, aumentando significativamente a sua renda. Outra grande vantagem da diversificação é a otimização dos recursos das propriedades rurais e a redução dos custos de produção dos grãos e pastagens, pois ocorre o aproveitamento residual dos fertilizantes aplicados. Consequentemente, pode haver redução de custo na produção de proteína (carne, leite e ovos).

Segundo Iro Schünke, do Sinditabaco, o Programa Milho, Feijão e Pastagens Após a Colheita do Tabaco rende R$ 320 milhões aos produtores que plantaram milho e feijão na última safra

Proteção ao solo — A diversificação, além dos seus aspectos de interesse econômico, permite também o incremento dos requisitos de preservação e proteção ambiental, por meio da utilização de sistemas de cultivo que protegem o solo. Os cultivos de cobertura garantem maior proteção ao solo, tanto em suas características físico- químicas, quanto em seus aspectos biológicos. Além disso, os produtores conseguem reduzir as demandas de mão de obra, devido à menor necessidade de intervenção na sua camada arável, como ocorre no sistema convencional de cultivo. No sistema de cultivo mínimo, por exemplo, a mobilização do solo é mínima, restringindo- se apenas aos espaços destinados às linhas de plantio. A maior parte da área permanece protegida pelos resíduos da cultura anterior ou pela biomassa resultante dos cultivos de cobertura, com o objetivo de diminuir os riscos de erosão.

Já o plantio direto na palha é o sistema de cultivo mais eficiente na proteção do solo. Consiste em evitar o uso das práticas tradicionais de revolvimento do solo, preservando integramente a palhada dos cultivos de cobertura sobre a sua superfície. Essa tecnologia propicia redução no uso de combustíveis fósseis, redução na mão de obra e aumento da rentabilidade do produtor através da redução de custos. Trata-se de um sistema já consagrado e amplamente utilizado no Brasil, inclusive no cultivo de tabaco. O Brasil é, atualmente, uma referência mundial no desenvolvimento e uso dessa tecnologia sustentável.

A orientação técnica tem sido de inestimável importância na difusão dessas tecnologias e um aliado permanente, seja na diversificação ou na propagação de práticas conservacionistas. A expectativa é que mais produtores se mobilizem em torno da adoção dessas boas práticas agrícolas, benéficas não apenas para o solo e ao meio ambiente, mas para o próprio produtor, uma vez que a demanda de mão de obra também é reduzida.

Além de considerar o aspecto de proteção do solo, a diversificação possui outras vantagens como a redução de custos com adubação para a produção de grãos e incremento do potencial de alimentos para consumo na propriedade, contribuindo para a segurança alimentar das famílias produtoras. Devemos considerar ainda a perspectiva de geração de renda extra para a propriedade agrícola familiar, em decorrência da comercialização dos excedentes. Para os produtores, diversificar significa aumentar o seu status econômico e melhorar a sua condição social. É gerir com maior eficiência o seu próprio negócio.

O que nos deixa consternados é o fato de toda essa experiência e números não serem considerados em alguns fóruns. Um know-how importante deixado de lado. Mas não será esse o empecilho para continuarmos avançando no campo, semeando novas oportunidades de geração de renda e fomentando a preservação do solo.