Fitossanidade

  

Atenção do começo ao fim às DOENÇAS da safrinha

Temperatura, umidade do ar, chuvas, suscetibilidade do cultivar e quantidade de inóculo na área definem muito sobre o ataque de moléstias. As chuvas regulares do La Niña neste ano deverão provocar mais incidências

Fitopatologistas Dagma Dionísia da Silva, Luciano Viana Cota, Rodrigo Véras da Costa e Frederick Mendes Aguiar, pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo

Doenças como a mancha branca são favorecidas pela alta umidade, e a previsão é de muita chuva nesta safrinha em razão do fenômeno La Niña

As doenças em milho possuem características muitas vezes peculiares, porém, sua ocorrência e severidade dependem de uma associação de fatores que favorecem os patógenos, tais como temperatura, umidade do ar, ocorrência de chuvas, suscetibilidade do cultivar e quantidade de inóculo na área de plantio, independentemente da safra em que será produzido, verão ou safrinha. Na safrinha, as características climáticas locais e reginais do País podem afetar a lavoura e definir quais doenças irão prevalecer. Regiões do Centro-Oeste, Triângulo Mineiro e Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia) podem sofrer com períodos sem chuva, às vezes prolongado, como ocorreu em 2016. Isso pode resultar em menor incidência de doenças nas áreas de milho sequeiro, já que as principais doenças, como a mancha branca, são favorecidas pela alta umidade.

As temperaturas nessas regiões tendem a se manter altas nos meses de janeiro, fevereiro e março, diminuindo gradativamente a partir de abril/maio. Os períodos de temperaturas mais altas normalmente coincidem com as maiores precipitações. Essa associação entre temperatura e umidade favorece a ocorrência de mancha branca, ferrugens, cercosporiose, podridões do colmo, podridões de espiga e grãos ardidos e enfezamentos. Como a tendência é de que a temperatura venha reduzindo ao longo do desenvolvimento da cultura, a helmintosporiose e a ferrugem comum passam a ser um risco também. Na região Sul, a safrinha é limitada a parte do Paraná, que tende a possuir boa distribuição de chuvas e temperaturas mais amenas que as demais regiões produtoras do País, favorecendo, além das doenças anteriores, a podridão de espiga por Giberella, que ocorre em temperaturas mais baixas.

Da esquerda para a direita, ferrugem branca, ferrugem comum e ferrugem polisora, que têm como condição favorável ao seu desenvolvimento as altas umidades

Nas tabelas 1 e 2 estão descritas as condições que favorecem as doenças do milho. Com isso, é possível ao produtor ter uma noção dos riscos de severidade em sua lavoura, considerando o histórico da área, as condições climáticas e o nível de resistência do cultivar a cada patógeno, como descrito pelas empresas de sementes. Vale ressaltar que os patógenos interagem com a planta de forma dinâmica e “surpresas” podem surgir, como a ocorrência de podridão seca do colmo, causada por Macrophomina phaseolina, fungo favorecido por baixa umidade no solo devido a estiagem e temperaturas altas. Casos de ocorrência dessa doença foram mais frequentes nas últimas safras, causando tombamento em diversas lavouras.

Influência do La Niña — Com o evento La Niña, para esta safrinha a previsão é de clima com chuvas regulares e bem distribuídas. Assim, a atenção às doenças deve ser maior, pois a evolução da infecção pode ser rápida. Com a possibilidade de solos úmidos, o tratamento de sementes com fungicidas e inseticidas deve ser considerado parte indispensável no manejo do milho, pois protege as plantas do ataque de fungos e insetos em sua arrancada inicial, fator importante para a manutenção do número desejado de plantas e produtividade. A alta umidade favorece a incidência de podridão por Pythium e podridão bacteriana por Pectobacterium chrysanthemi (sin. Erwinia chrysanthemi) e Pseudomonas spp. durante o desenvolvimento da cultura.

A incidência de chuvas na colheita é outro fator que pode prejudicar o produtor devido ao aumento de podridões de espigas e aos grãos ardidos. Portanto, recomenda-se que a época de plantio seja planejada para tentar evitar que a maturação dos grãos e a umidade adequadas para a colheita coincidam com períodos chuvosos, principalmente na falta de secadores.

Outra doença que tem causado perdas na safrinha é o enfezamento, transmitido pela cigarrinha Dalbulus maidis. A cigarrinha-do-milho é vetor de molicutes, agentes causais de enfezamentos pálido (Spiroplasma kunkelii) e vermelho (MBS-fitoplasma). O inseto adquire os molicutes das plantas infectadas e após três a quatro semanas transmite para plantas sadias. A transmissão pode acontecer nas fases iniciais da cultura e os sintomas normalmente surgem na fase reprodutiva. Lavouras mais antigas próximas às lavouras novas são fonte de inóculo das cigarrinhas (Sabato e Teixeira, 2015). Na área experimental da Embrapa Milho e Sorgo, a incidência de cigarrinhas e enfezamento em plantas ainda jovens foi observada neste ano de 2017.

Portanto, produtores devem estar atentos à incidência da cigarrinha para que seu controle possa reduzir as perdas, principalmente em uma safra em que as perspectivas são positivas para recordes de produção em milho. Existem dezoito produtos registrados para controle da cigarrinha em milho, sendo quatorze ingredientes ativos do grupo dos neocotineoides, um de mistura de piretroide + neonicotinoide e três opções de controle biológico à base de Beauveria bassiana (Agrofit, 2017).

Atenção a todo o ciclo — Para um adequado manejo de doenças, é importante ficar de olho na lavoura durante todo seu ciclo para que a tomada de decisão e o controle sejam realizados em tempo hábil. Havendo necessidade de controle químico, o produtor deve escolher produto registrado e eficiente ao controle da(s) doença(s) mais severa(s) da sua região, seguindo as recomendações de forma a evitar o uso excessivo, que é desperdício de recursos e prejudicial ao meio ambiente. No início de 2016 havia 32 princípios ativos, puros ou em misturas, registrados no Ministério da Agricultura para controle de doenças em milho (Agrofit, 2016), sendo importante também fazer uso alternado dos produtos para não favorecer a resistência dos patógenos aos princípios ativos.