Leguminosas

 

Potencial para o Brasil ser GIGANTE

Lentilha, grão-de-bico e ervilha, três leguminosas que o Brasil precisa importar para suprir o consumo interno, mas que a agricultura brasileira tem promissoras possibilidades de se tornar uma grande exportadora

Warley Marcos Nascimento, pesquisador da Embrapa Hortaliças, warley.nascimento@embrapa.br

Além da ervilha e do feijão-vagem, outras duas espécies, lentilha e grão-de-bico, têm sido consideradas no Brasil como hortaliças leguminosas. Embora tenhamos em nosso território condições edafoclimáticas favoráveis ao cultivo dessas espécies, assim como tecnologias apropriadas para a produção e às cultivares adaptadas às nossas condições tropicais, grãos dessas culturas ainda Fotos: Divulgação têm sido importados anualmente pelo Brasil. Lentilha e grão-de-bico, juntamente com a ervilha destinada à indústria, normalmente são cultivadas em regiões temperadas e, em países tropicais, são geralmente cultivadas em locais de maiores altitudes, necessitando de temperaturas amenas durante o ciclo para seu bom desenvolvimento.

Grão-de-bico, lentinha e ervilha (em sentido horário): os mercados asiáticos têm demandado grandes volumes dessas leguminosas, sobretudo lentilha e grão-de-bico

Essas espécies geralmente são produzidas no período de inverno, sob irrigação. Nesse sentido, elas seriam ótimas alternativas no período de temperaturas mais amenas do ano. Na região do bioma Cerrado, notadamente no Planalto Central, em áreas com altitudes acima de 800 metros, e em plantios realizados no período de abril a maio, o cultivo dessas três espécies tem apresentado excelentes resultados. Ademais, são culturas totalmente mecanizadas, relativamente de fácil manejo e com ganhos maiores, uma vez que os produtos colhidos alcançam melhores preços na comercialização.

Na década de 1980, a região do Distrito Federal e entorno chegou a produzir milhares de hectares de ervilha. Atualmente, pouco se produz. Entretanto, a produção de leguminosas nessa região tende a se expandir nos próximos anos, pois a agricultura nesse polo produtivo é considerada uma das mais tecnificadas do País, com registro de altos índices de produtividade devido ao elevado padrão tecnológico utilizado por produtores e empresas. O sistema de irrigação por pivô central instalado na região e a topografia plana, que permite a total mecanização das culturas, também contribuem para o grande sucesso da região.

As hortaliças leguminosas, muito apreciadas no Brasil, são consumidas in natura ou na forma de produtos processados. O consumo no País tem demandado frequentes importações dessas leguminosas, e o mercado interno tende a se expandir devido à constante associação desses alimentos com uma série de atributos de elevada qualidade nutricional, que incluem a presença balanceada de proteínas, fibras, vitaminas e elementos nutracêuticos (especialmente flavonoides, fitoestrogênio e ácidos oleico e linoleico).

Ervilha, 15 cultivares da Embrapa — É utilizada na forma de farinhas e grãos verdes ou secos, sendo que os grãos secos devem ser reidratados e enlatados e os grãos verdes imaturos são destinados à indústria de congelamento e/ou enlatamento. Nesses dois segmentos, a produção geralmente é previamente acordada com a agroindústria visando à garantia na comercialização. A ervilha também pode ser encontrada na forma de vagens comestíveis com sementes em desenvolvimento, denominadas de “ervilha torta”. Na alimentação animal, pode ser utilizada em concentrados para aquicultura, suinocultura e avicultura. E como é uma eficiente fixadora de nitrogênio, pode ainda ser utilizada como cobertura do solo.

Até os anos 1980, a ervilha era quase que totalmente importada, acarretando acarretando uma evasão anual de divisas na ordem aproximada de US$ 7 milhões. Na década de 1990, toda a demanda pôde ser atendida pela produção nacional, graças às pesquisas realizadas pela Embrapa Hortaliças, sediada em Brasília, juntamente com as empresas de pesquisa e extensão rural de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul e as indústrias de processamento, por meio do desenvolvimento de cultivares e técnicas de cultivo. A Embrapa Hortaliças já disponibilizou 15 cultivares de ervilha, sendo nove destinadas à indústria de reidratação (ervilha-seca), cinco à colheita verde (enlatamento e/ ou congelamento) e uma destinada à forragem ou adubação verde. Atualmente, parte da ervilha consumida no País tem sido importada, principalmente da Argentina.

Importação de lentilha — A lentilha é outra leguminosa de alto valor alimentício, sendo de mais fácil cocção e de maior digestibilidade que o feijão. Ela vem sendo comercializada entre R$ 10 a R$ 20 o quilo no mercado consumidor de Brasília. É uma opção para a agricultura irrigada de inverno, principalmente na região do Cerrado, onde essa cultura alcançou produtividades de 1.200 a 1.500 quilos/ hectare. O Brasil tem importado a totalidade da lentilha destinada ao consumo, principalmente do Canadá, Argentina e Estados Unidos, atingindo o valor médio de US$ 440 (FOB) por tonelada. Em 2015, foram gastos com a importação um valor próximo a US$ 11 milhões.

A Embrapa Hortaliças já disponibilizou 15 cultivares de ervilha: nove para a indústria de ervilha-seca, cinco à colheita verde (enlatamento e/ou congelamento) e uma à forragem ou adubação verde

Hoje, graças aos trabalhos de pesquisa realizados por diferentes instituições, essa tecnologia está disponível, assim como já existem cultivares promissores para algumas regiões. Com base na adaptação às nossas condições, ciclo mais curto e com características de grãos do tipo macrosperma (sementes grandes e com cotilédones creme-amarelados), duas cultivares foram selecionadas pela Embrapa Hortaliças: a Precoz e Silvina. A cultivar Precoz, de origem argentina, é bastante produtiva, embora apresente grãos menores que o exigido por alguns mercados (no Brasil, o tipo macrosperma, com grãos maiores, é o preferido). Entretanto, essa cultivar poderá ser utilizada como matéria-prima de produtos farináceos e de sopas instantâneas. A Silvina, também de origem argentina, apresenta uma produção bastante satisfatória, além de possuir ótimas características de grãos, como tamanho e coloração, e apresenta ciclo de 120 dias. Assim como a ervilha, a lentilha pode ser totalmente mecanizada, desde a semeadura até a colheita.

A lentilha é uma opção para a agricultura irrigada de inverno, principalmente no Cerrado, onde a cultura alcança produtividades de 1.200 a 1.500 quilos/hectare

Grão-de-bico, segundo maior consumo do mundo — Dentre as leguminosas, o grão-de-bico é a segunda mais consumida no mundo, atrás somente da soja, com estimativa de produção anual de 20 milhões de toneladas. Pode ser cultivada sob grande variedade de climas. O Brasil tem importado quase a totalidade de grãode- bico (na forma de grãos secos) destinado ao consumo, principalmente do México e da Argentina. A maior parte da produção mundial é feita com as cultivares do grupo “desi” (grãos menores, de diferentes colorações). Entretanto, no Brasil, a preferência é para o grão-de-bico tipo “kabuli” (grãos maiores, de coloração creme ou bege). O consumo in natura ou na forma processada tem aumentado no País nos últimos anos. Em 2015, o Brasil importou 7.169 toneladas de grão-de-bico a um custo FOB de US$ 6.845.134. Assim como a lentilha, esse produto é vendido a altos preços para o consumidor final.

A produção nacional é ainda pequena, e, como no caso da lentilha, isso ocorre devido à falta de tradição de cultivo dos produtores brasileiros e ao desinteresse dos grandes importadores em estimular a produção interna. Aliado a esses fatores, também não se dispunha, no passado, de tecnologia adequada para a produção e nem cultivares adaptadas às diversas condições edafoclimáticas brasileiras.

Atualmente, graças aos trabalhos de pesquisa realizados por diferentes instituições, existem tecnologias disponíveis e informações técnicas para o manejo da cultura no Brasil, principalmente na região Centro-Oeste. Com relação às cultivares, apenas cinco estão no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento: IAC Marrocos, do Instituto Agronômico, de Campinas/SP (IAC); Leopoldina, da Epamig (MG); e as cultivares BRS Cícero, BRS Cristalino e BRS Aleppo, da Embrapa Hortaliças, sendo que essa última foi desenvolvida recentemente em parceria com a Universidade de Brasília. Outras cultivares estão em fase de validação na Embrapa Hortaliças.

Possibilidades de exportação — O Brasil apresenta um grande potencial para reduzir ou mesmo eliminar a importação dessas leguminosas, gerando, consequentemente, uma menor evasão de divisas. Isso, sem dúvida, trará benefícios a toda a cadeia produtiva, como alternativas de cultivo e maior renda para os produtores. Com o aumento da produção interna, é esperada ainda uma redução no preço final para os consumidores, atualmente bastante elevado, quando comparado ao feijão, por exemplo.

Warley Nascimento: “O Brasil apresenta um grande potencial para reduzir ou mesmo eliminar a importação dessas leguminosas, gerando, consequentemente, uma menor evasão de divisas”

Exemplo disso tem sido observado com a cultura do grão-de-bico na região de Cristalina/ GO, onde produtores, com uma maior profissionalização, têm alcançado excelentes produtividades (duas a três vezes a média mundial) e conseguido um maior lucro em relação a outras leguminosas (feijão e soja, por exemplo). Parte dessa produção tem sido comercializada na forma de grãos reidratados (indústrias da região tem processado e comercializado o produto), e parte comercializada na forma de grãos secos. Nesse último caso, observa- se um preço inferior do produto no mercado regional quando comparado ao produto importado.

Ainda na cultura do grão-de-bico, o Brasil exportou, pela primeira vez em 2016, parte da produção obtida na região de Cristalina. Oferecendo um produto de excelente qualidade e preço competitivo no mercado externo, produtores/exportadores obtiveram uma experiência interessante com a exportação. Essa iniciativa abre novas opções de mercado, sendo assim possível a produção dessa leguminosa para atender os mercados interno e externo. Esses diferentes canais de comercialização (in natura, indústria e mercado externo) fazem dessa cultura um atrativo a mais para o produtor rural.

Finalmente, os mercados asiáticos têm demandado grandes volumes dessas leguminosas, principalmente de lentilha e grão-de-bico. A Índia, por exemplo, grande consumidora desses grãos – ricos em proteínas – não consegue, por meio da produção interna, atender o consumo, necessitando de frequentes importações. O Brasil, assim, pode conseguir facilmente esse espaço para se tornar um grande exportador dessas leguminosas, como faz atualmente com outras commodities.