Gesso

 

GESSO agrícola: para quê e onde funciona

Entre as vantagens do produto está o fornecimento de cálcio, para as camadas subsuperficiais, e de enxofre, a precipitação do alumínio tóxico em profundidade e o provimento de pequenas doses de fósforo e de micronutrientes

Engenheiro agrônomo, doutor em Solos e Nutrição de Plantas Vinicius de Melo Benites, pesquisador da Embrapa Solos

Gesso é o nome popular do composto químico sulfato de cálcio dihidratado. Esse produto é um sal de média solubilidade (2,5 gramas/ litro) formado pelos elementos químicos cálcio, enxofre, hidrogênio e oxigênio. O gesso pode ser encontrado na natureza na forma de depósitos sedimentares, mas também é resultado de algumas reações químicas industriais, sendo a mais conhecida a reação de acidificação de rochas fosfáticas com ácido sulfúrico para a produção de fertilizantes fosfatados solúveis. O gesso resultante do processo industrial de produção de fertilizantes é chamado gesso agrícola. Vale lembrar que as aplicações do gesso natural, e também de outras Divulgação fontes de gesso (p. ex.: gesso resultante da recuperação de material de demolição onde se utilizou dry wall), seguem a mesma lógica da aplicação do gesso agrícola.

O gesso agrícola é, portanto, o resíduo da reação de acidificação de rocha fosfática, em que o ânion sulfato proveniente do ácido sulfúrico reage com o cálcio presente na rocha fosfática formando o gesso e liberando o fósforo da rocha na forma de ácido fosfórico. Esse gesso, por sua vez, é separado do ácido fosfórico por processo de centrifugação, formando depósitos por vezes gigantescos desse material, que ficam armazenados em lagoas de decantação e posteriormente em pilhas.

Em vários locais no mundo onde há a produção de fertilizantes fosfatados a partir de rochas sedimentares, o gesso é considerado inapto para a utilização agrícola, uma vez que essas rochas podem apresentar concentrações significativas de alguns metais pesados e de radionuclídeos (Ex.: cádmio, cromo, urânio, rádio). Porém, no Brasil, onde a exploração de rocha fosfática é concentrada em materiais de origem ígnea, as concentrações de contaminantes no gesso são muito baixas, o que permite o seu uso agrícola. Vale lembrar que o gesso agrícola, além de conter os nutrientes cálcio e enxofre, também contém teores significativos de fósforo (± 0,7%) e pode conter alguns micronutrientes dependendo da rocha da qual foi extraído.

O gesso apresenta solubilidade média bastante superior à solubilidade do calcário, porém, inferior à solubilidade de outros sais utilizados como fertilizantes – como, por exemplo, o cloreto de potássio. Considerando-se a solubilidade do gesso, é de se esperar que em solos agrícolas o gesso aplicado em uma safra seja totalmente solubilizado no mesmo ano de aplicação, diferentemente do calcário, que pode continuar se dissolvendo em até dois ou três anos. Uma vez dissolvido, o gesso resulta em um par iônico formado pelo cálcio e pelo sulfato. Esses dois íons percolam juntamente no perfil, atingindo as camadas subsuperficiais, dependendo da textura do solo, da intensidade de chuvas e das condições eletroquímicas do solo (Capacidade de Troca de Cátions - CTC, saturação por bases, pH).

Fonte de cálcio — Devido a essa propriedade, o gesso é, em muitas situações, utilizado como fonte de cálcio para a correção das camadas subsuperficiais do solo. Dessa forma, promovese o crescimento do sistema radicular em solos onde as camadas subsuperficiais apresentam restrições químicas ao crescimento de raízes devido ao baixo teor de cálcio (< 0,5 cmolc.dm-3). Existem vários trabalhos, em especial em solos de Cerrado, que são em geral ácidos, que demonstram que a aplicação de gesso promoveu o crescimento do sistema radicular das culturas e, consequentemente, sua maior resistência a períodos de secas e maior volume explorado do solo.

Pode-se dizer que, entre as vantagens do uso de gesso agrícola, estão o fornecimento de cálcio para as camadas subsuperficiais, o fornecimento de enxofre, a precipitação do alumínio tóxico nas camadas subsuperficiais pela formação do sulfato de alumínio, o fornecimento de pequenas doses de fósforo e de micronutrientes para as culturas. Vale ressaltar que o gesso não substitui o calcário na correção de acidez do solo, pois o produto não promove alterações significativas no pH do solo.

O gesso pode até ser considerado substituto do calcário como fonte de cálcio, mas essa, definitivamente, não é a única função do calcário, que não deve ser negligenciado em nenhum sistema de produção agrícola em solos ácidos. Inclusive, há vantagens em se aplicar a mistura de gesso com calcário, uma vez que a umidade residual do gesso facilita a redução de perdas de calcário pelo vento durante a aplicação, e a baixa umidade do calcário ajuda a secar um pouco o excesso de umidade do gesso. Alguns aspectos a considerar ainda sobre o gesso:

  • Quanto à decisão de utilização de gesso agrícola na sua propriedade, devese considerar o preço do produto posto na fazenda, a necessidade de correção em cálcio nas camadas subsuperficiais (20 a 60 centímetros), a existência de resposta ao enxofre para a cultura em questão, e o tipo de adubação fosfatada utilizado na fazenda.

  • Quanto à decisão de utilização de gesso agrícola na sua propriedade, devese considerar o preço do produto posto na fazenda, a necessidade de correção em cálcio nas camadas subsuperficiais (20 a 60 centímetros), a existência de resposta ao enxofre para a cultura em questão, e o tipo de adubação fosfatada utilizado na fazenda.

  • Quanto ao preço, por se tratar de um resíduo industrial, o gesso normalmente é um insumo de baixo custo e o preço do frete, por vezes, é mais importante na formação do preço final do que o valor do produto. Deve-se avaliar a distância das fontes mais próximas, a qualidade do gesso e a possibilidade de se conseguir fretes de retorno para baratear o valor final do produto.

  • Quanto à demanda por cálcio e por enxofre, existem inúmeras publicações que trazem a recomendação da necessidade de gessagem baseada nas condições regionais, uma vez que tem que se considerar a grande diversidade de solos e clima do Brasil. Lembrando que, quando há demanda por enxofre, o gesso é a fonte mais barata desse nutriente, além de trazer outros benefícios que devem ser considerados no momento da aquisição desse insumo.

  • Ainda quanto ao tipo de fertilizante fosfatado utilizado na fazenda, algumas fontes como o superfosfato simples já apresentam gesso na sua constituição em quantidade suficiente para garantir o suprimento de enxofre para as culturas, porém, em quantidades por vezes insuficiente de cálcio para promover a correção subsuperficial do solo. Procure conhecer as fontes regionais de gesso e como esse insumo está sendo utilizado na sua região e, claro, consulte sempre um engenheiro agrônomo.