Saúde

 

Atenção para os riscos do SOL

Ao mesmo tempo em que precisa cuidar da sanidade da lavoura, o produtor deve prestar atenção à própria saúde. Doenças sérias de pele, por exemplo, podem ser evitadas com atitudes simples, como o uso do protetor solar

Denise Saueressig
denise@agranja.com

Se não for encarada com a devida seriedade, a exposição à radiação solar pode ocasionar danos à saúde. Acostumados a permanecerem por muitas horas a céu aberto, produtores e trabalhadores rurais estão bastante sujeitos a problemas que são provocados quando alguns cuidados básicos deixam de ser adotados. São queimaduras, manchas, sinais de envelhecimento cutâneo e também o câncer de pele. O médico dermatologista Sérgio Dornelles explica que são três os tipos mais frequentes da doença: carcinoma basocelular, carcinoma escamocelular e melanoma cutâneo, que representam mais de 95% dos casos.

O especialista alerta para os perigos identificados entre quem trabalha no campo. “Existem estudos demonstrando que entre 40% e 50% do total da exposição solar realizada por toda a vida da maioria das pessoas ocorre antes dos 16 anos. Esse é o período em que se iniciam as primeiras modificações celulares, que farão com que vários anos depois apareçam as lesões malignas, por efeito cumulativo dessas alterações no núcleo das células. Os trabalhadores rurais e familiares, como iniciam precocemente com exposição solar, enquadram-se nessa situação de maior risco”, destaca.

Pessoas claras e aquelas que quando se expõem ao sol ficam com a pele avermelhada, com pouco ou nada de bronzeado, são as mais suscetíveis ao câncer de pele. As chamadas pintas ou sinais melanocíticos, quando presentes em grande número (mais de 50) também são indicativos de maior risco ao melanoma. Ainda existe uma relação com o histórico familiar. “Pessoas com casos na família têm mais chances de ser portadoras durante sua vida, principalmente se tiverem exposição solar importante sem proteção”, explica Dornelles.

Outro detalhe importante está relacionado ao tipo de exposição. O carcinoma escamocelular, por exemplo, possui uma franca relação com a exposição solar continuada, ou seja, aquela que ocorre quase todos os dias do ano, uma característica do trabalho rural.

Dermatologista Sérgio Dornelles: é importante procurar recurso médico quando ocorrerem mudanças em lesões que já existiam de forma inalterada por meses ou anos

A importância da prevenção - Atitudes adequadas e que podem minimizar a chance de ocorrência de câncer de pele incluem o uso de proteção física com vestuário adequado, ou seja, camisas ou camisetas e chapéus apropriados, com abas para orelhas e pescoço. O filtro solar é item indispensável. “Para quem permanece mais de duas horas ao sol por dia, é aconselhável o uso de filtros com fatores de proteção solar (FPS) maiores que 30, com aplicações a cada duas horas. Para as roupas, são indicados materiais filtrantes como o nylon e o poliéster, ou tecido de algodão de densidade alta”, orienta o médico. Também é recomendado o uso de óculos escuros de ótima qualidade para ajudar a evitar o aparecimento de catarata precoce.

Além dos cuidados no dia a dia, é importante prestar atenção a sintomas que podem indicar a presença da doença. O câncer de pele ou mesmo lesões com potencial a desenvolver a doença mostram muitos tipos de apresentações clínicas. “Os carcinomas podem ser caracterizados por pequenas feridas que não cicatrizam dentro do prazo habitual de lesões benignas traumáticas (10-20 dias), mas também podem aparecer como lesões elevadas e avermelhadas, endurecidas e que aumentam gradativamente”, detalha Dornelles.

Essas lesões, continua o dermatologista, são mais comuns em áreas de maior exposição solar, como rosto, orelhas, pescoço, dorso das mãos e antebraços. O melanoma cutâneo é um tumor mais grave e, na maioria das vezes, é uma mancha predominantemente escura - mas também pode ter várias cores na mesma lesão -, além de poder apresentar as bordas irregulares. “Tão importante quanto analisar essas características, é procurar recurso médico quando se observar mudanças em lesões que já existiam de forma inalterada por meses ou anos”, observa.

Iniciativas para conscientização – O câncer de pele é o mais frequente no Brasil e corresponde, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a 30% dos tumores malignos. No entanto, o percentual de cura é alto se a doença for detectada precocemente.

Em 2012, o Inca contabilizou 134.170 casos novos de cânceres de pele não melanoma. Em 2014, o número subiu para 182.130 ocorrências. No entanto, em 2016, houve uma redução para 175.760 registros. Santa Catarina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul têm a maior taxa bruta de incidência de novos casos. “Se realmente está ocorrendo uma estabilização nos números, certamente é resultado de um volume crescente de informações divulgadas por várias instituições, como a Sociedade Brasileira de Dermatologia, que faz campanhas há mais de 15 anos consecutivos, além obviamente, da conscientização das pessoas sobre os cuidados de prevenção”, constata Dornelles.

Entre as entidades representativas de produtores, também existem iniciativas que alertam para a importância dos cuidados com o sol. Uma delas é liderada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que inclui o assunto em seus treinamentos realizados em todo o País. O tema da saúde no campo fez parte das ações que atenderam mais de 3 milhões de pessoas ao longo de 2016, quando também foi realizado o primeiro Encontro Nacional de Promoção Social para Saúde Preventiva, em Brasília.

Para colocar em prática as atividades que envolvem a saúde de produtores e trabalhadores rurais, o Senar conta com parceiros como o Instituto Lado a Lado pela Vida, que colaborou com a elaboração de uma cartilha didática que aborda o câncer de pele.

No Rio Grande do Sul, um dos estados líderes no registro de casos da doença, vigora desde 2014 a chamada Lei do Protetor Solar, que prevê a distribuição gratuita de protetores a agricultores familiares por meio da Secretaria da Saúde do estado. Cada agricultor cadastrado junto a um sindicato da categoria tem direito a receber três unidades do produto por ano.