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O milho pede PASSAGEM

Leonardo Gottems

O futuro se revela promissor para o cereal mais importante da agricultura mundial. Por anos, o milho foi a cultura mais relevante em termos econômicos, tanto para o Brasil como para diversos outros países. Apesar de perder protagonismo para a soja e ganhar substitutos para a fabricação de rações, o cereal dá fortes sinais de recuperação – principalmente em termos de produção e consumo, voltando a atrair o interesse do produtor brasileiro e projetando números recordes para 2017

A estimativa da Conab é de que sejam colhidos 84,5 milhões de toneladas de milho na temporada 2016/17, sendo que a segunda safra deverá totalizar 56,1 milhões – simplesmente o dobro da primeira, de 28,4 milhões de toneladas. Com o aumento da produção brasileira e com o dólar em patamar alto (apesar dos esforços do Governo para conter a moeda norte-americana), para esta safra as exportações do cereal são estimadas em aproximadamente 24 milhões de toneladas. A área plantada total deve registrar um ligeiro incremento de 1,7%, para 16,093 milhões de hectares neste ciclo, em comparação ao plantio anterior de 15,922 milhões de hectares.

O sucesso do milho passa obrigatoriamente pelo preço. É o que projeta Alysson Paolinelli, presidente-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), também colunista d’A Granja, ao analisar o crescimento do somatório de primeira e segunda safras 2016/17 ante as de 2015/16. Segundo ele, tudo vai depender do valor que o cereal conseguir alcançar na safra de verão. “A expectativa está sendo boa, estamos esperando um crescimento grande. Falamos de crescimento de até 27%, mas se na safra de verão o preço subir, o plantio vai ser maior ainda. Se não, deve ser o que está sendo esperado, entre 20% e 27% de aumento. Agora, se o preço cair, a tendência é não ampliar muito. Mas, de qualquer forma, nossa expectativa no milho para esse ano é muito boa, porque o País está precisando de milho internamente. O mercado externo está demandante”, projeta Paolinelli.

A diretora de Política Agrícola e Informações da Conab, Cleide Laia, prevê que a segunda safra tende a registrar bons níveis de produtividade, visto que todos os estados produtores devem realizar o plantio dentro do período ideal, com indicações climáticas favoráveis até o momento. No entanto, Cleide não está tão otimista em relação aos preços. “Acredita-se que a rentabilidade deve ser menor, apesar da diminuição do custo dos principais insumos, pois os preços devem ser bem mais baixos que os registrados no segundo semestre de 2016”, prevê. Ela explica que há uma perspectiva de maior oferta, e que mesmo com a elevação do consumo e uma expectativa de aumento de exportações, esses fatores não serão suficientes para diminuir os estoques finais, que estão estimados para o final da safra 2016/17 em mais de 12 milhões de toneladas. Com isso, os preços domésticos tendem a ser mais baixos.

Cleide Laia, da Conab, prevê que a segunda safra tende a registrar bons níveis de produtividade, visto que todos os estados devem fazer o plantio dentro do período ideal e com condições climáticas favoráveis

Baseado nos mesmos fatores elencados pela especialista da Conab, o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Rubens Augusto de Miranda projeta um cenário de safrinha recorde para 2017. Mesmo considerando uma potencial queda do preço em 2017, ele acredita que haverá bom retorno financeiro para os produtores, porque o valor do cereal ainda está em níveis altos. “Os preços devem permanecer acima da média histórica, o que, aliado a uma boa produção, deve garantir uma boa rentabilidade para os produtores de milho”, prevê.

Cenário internacional

— Em termos de preços, o balizador mundial mais influente é a Bolsa de Cereais de Chicago (CBOT). É de lá que saem as referências para os valores praticados no mundo inteiro. As cotações continuam em patamares baixos, mas em dezembro experimentaram uma leve alta de 1,82%, recebendo o suporte da forte demanda mundial pelo cereal norte- -americano, o que puxou altas das exportações de milho. Outro fator altista é a aposta cada vez maior que os Estados Unidos estão fazendo no uso de combustíveis renováveis. A Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) determinou a expansão do volume obrigatório de 18,80 bilhões para 19,28 bilhões de galões para 2017 – o que se reflete na demanda por milho, uma vez que lá o etanol é basicamente proveniente apenas do cereal.

Já os fatores baixistas são a elevada oferta de milho mundial e altos estoque de passagem, além da já consolidada confirmação de elevados níveis de produtividade na colheita da safra 2016/17 dos Estados Unidos, bem como a conjuntura político/ econômica norte-americana, com o dólar fortemente valorizado sobre as demais moedas – o que exerce uma pressão de baixa sobre o preço das commodities. Nesse contexto conjuntural, as cotações do milho no mercado internacional seguem em níveis baixos, com média mensal em dezembro na Bolsa de Chicago chegando a US$ 4,10/bushel, o equivalente a US$ 161,48/ tonelada. Para se ter uma ideia, na Bolsa de Rosário, Argentina, o preço FOB (custos de transporte por conta do comprador) atingiu US$ 196,23/tonelada no último mês do ano passado.

“Os preços devem permanecer acima da média histórica, o que, aliado a uma boa produção, deve garantir uma boa rentabilidade para os produtores de milho”, estima Rubens Augusto de Miranda, da Embrapa Milho e Sorgo

No âmbito mundial, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) divulgou, em seu primeiro boletim mensal de oferta e demanda de 2017, uma projeção de produção mundial de 1.037,93 bilhão de toneladas. O resultado representou um ligeiro aumento de 0,11% em relação à estimativa anterior (1.036,73 bilhão). Os estoques finais globais foram mantidos em 222,25 milhões de toneladas. O maior produtor de milho são os Estados Unidos, com uma previsão de aproximadamente 384,78 milhões de toneladas, seguido pela China (216 milhões de toneladas), enquanto o Brasil ocupa a terceira posição, com 86,5 milhões de toneladas, tendo em quarto a Argentina, com 36,5 milhões de toneladas, México (24,5 mi t), Japão (15 mi t) e Coreia do Sul (9,8 mi t).

Consumo interno e exportação — Se no curto prazo a tendência é positiva, no médio e longo prazos o milho inspira ainda mais confiança. Paolinelli é um dos que se diz otimista, principalmente em função da demanda internacional crescente. Ele aponta as projeções da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) demonstrando que o mundo terá um crescimento populacional de mais de 2,5 bilhões de pessoas até 2050, chegando a 9,7 bilhões.

Além disso, a maior demanda está surgindo em função do aumento de renda dos países populosos, especialmente China e Índia, que demandam muito milho para produção de aves, suínos e bovinos. “A cada 20% de crescimento na renda familiar, dobra o consumo de proteínas nobres (70% de milho e 30% de soja). E nesses países que citei está havendo um aumento maior que 20%. Então a tendência é de mais do que dobrar o consumo. Não há outra forma de ração no mundo ainda que substitua”, entende. “Nossa expectativa ainda é maior do que a FAO publicou”, avalia. Segundo ele, no caso de uma análise mais detalhada, nesses países, as populações têm média de crescimento do PIB muito acima de 2,2%, e atingindo até 6,2%. “Portanto, a demanda vai ser muito maior”.

O dirigente aponta ainda que surgirão muitas oportunidades para quem for capaz de produzir milho com outras aplicações. Isso porque os Estados Unidos estão incrementando a passos largos seu programa de consumo de etanol a partir do cereal. “Esse programa já foi implantado há mais de dez anos. Até hoje não conseguiu suprir suas indústrias para atingir aqueles 150 milhões de toneladas que eles projetaram. O máximo chegou a 123 milhões, o que leva os EUA a serem grandes produtores e demandadores. Eles têm comprado milho, inclusive do Brasil”, destaca.

O dirigente lembra que outro grande produtor é a China, que não tem mais espaço e não está conseguindo ampliar mais do que já fez. “Cabe a nós da América do Sul – que temos espaço para crescer. E quem tem de produzir é o Brasil, que tem mais espaço que os outros e que desenvolveu tecnologia altamente racional para recuperação de áreas degradadas: a integração lavoura- -pecuária, para aproveitar as chamadas áreas de pastagem degradadas do Cerrado”, acrescenta. “Vamos ampliar a área plantada sem derrubar a mata, sem ter problema nenhum com grupos ecológicos. Ao contrário, vamos pegar as áreas que estão degradadas e vamos recuperá-las com essa tecnologia. Então, pode ter certeza que o Brasil vai ser o grande beneficiado dessa grande demanda”.

Etanol do cereal por aqui — As várias aplicações do milho têm gerado um consumo sólido e crescente. Cleide Laia, da Conab, projeta que a produção de etanol de milho no País deve aumentar exponencialmente, uma vez que novas plantas de produção devem entrar em funcionamento em 2017. Ela aponta ainda que as indústrias flex, que não esmagaram milho em 2016 devido ao alto custo do cereal, devem retomar ao processamento do grão, já que há uma tendência de preços mais baixos – principalmente no segundo semestre.

Atualmente no setor sucroalcooleiro o mercado está mais favorável à produção de açúcar do que etanol, o que vai favorecer a demanda de milho para a produção de combustível. O preço do açúcar no mercado externo tende a aumentar a produção dessa commodity, em detrimento do etanol na safra 2016/17. Devido ao mercado favorável, a produção de açúcar deverá aumentar 18,9%, chegando a 39,8 milhões de toneladas. No que se refere ao etanol, a despeito do aumento da produção de etanol anidro (misturado na gasolina e utilizado como insumo industrial) de 11,2 bilhões para 11,4 bilhões de litros, a produção de etanol hidratado (combustível nos veículos flex) deverá reduzir 14,3% em relação a safra anterior. Assim, a produção de etanol hidratado deverá cair para 16,5 bilhões de litros. Mesmo assim, com as indústrias apostando mais no açúcar, o milho pode assumir o papel de substituto como matéria-prima para o etanol.

Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, revela que boa parte da produção brasileira do cereal já está garantida apenas com o consumo do setor de aves e suínos, sem contar bovinos e leite

Mais frango, mais ração — Miranda vê uma demanda mais aquecida no consumo interno para criação de animais, com expectativa de aumento em 2017. Segundo ele, os novos surtos de gripe aviária que surgiram recentemente em várias partes do mundo não somente no Sudeste asiático, pode favorecer as exportações do setor avícola, caso o Brasil mantenha a doença controlada. “Mais carne de frango exportada significa maior consumo doméstico de milho. Diversas instituições apontam a recuperação das vendas externas em 2017. Apesar do otimismo, é preciso cautela frente à supersafra de milho nos Estados Unidos. Também não devemos nos esquecer da Argentina, cujas exportações de milho superaram os do Brasil”, alerta Miranda.

Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) confia que as grandes produtividades projetadas para a safra de milho brasileira atenuem o problema de abastecimento interno verificado em 2016. Ele chama a atenção ao fato de que boa parte da produção brasileira já está garantida apenas com o consumo do setor de aves e suínos, sem mencionar bovinos e leite. “A tendência é que nós, este ano, entre aves, suínos e ovos, tenhamos um consumo de, quem sabe, 50 milhões de toneladas. Portanto, um grande estímulo para o produtor de milho”, projeta.

O dirigente reconhece a necessidade de remunerar melhor o produtor para estimular o plantio de milho com tecnologia e qualidade, reconhecendo que o problema principal no passado foi o preço vil pago pelo cereal. Já em 2016 aconteceu justamente o inverso, com sobrevalorização. “Com a safra normal e estoques mundiais normais, temos que voltar aos preços históricos de R$ 30 (por saca de 60 kg) ou algo assim, que seria o preço razoável”, explica. Ele critica aqueles que pretendem fazer com que o milho chegue a R$ 40, pois não seria possível repassar esse valor ao consumidor brasileiro de frango e suínos, uma vez que houve queda no consumo com 12 milhões de desempregados no País.

Otimista, produtor busca recuperação das perdas de 2016 — O ano de 2016 foi muito difícil para muitos agricultores que plantaram milho na segunda safra no Paraná. No meio do ano ocorreram sucessivas geadas que queimaram boa parte das lavouras no estado. O produtor da região de Londrina João Nazima perdeu no ano passado quase toda a sua lavoura de milho por causa do frio intenso. Em uma área de 70 hectares plantados na safra 2015/16, ele chegou a colher apenas 25 sacas por hectare.

Neste ano, o associado da Cooperativa Integrada está otimista com a segunda safra, devendo plantar 90 hectares de safrinha para colher 100 sacas por hectare. Nazima tem um sentimento positivo quanto ao mercado porque a quebra de safra que ocorreu no inverno passado reduziu a oferta de milho, o que elevou os preços pagos aos agricultores. Ele é otimista também em relação ao futuro do cereal. Segundo ele, a cada ano a produção aumenta devido à elevação da demanda. E frisa que os estoques de milho estão baixos, por isso, acredita que os preços vão melhorar.

A elevação dos custos de produção é um agravante na opinião do produtor, principalmente a inflação nos valores das sementes. No ano passado, por exemplo, Nazima pagou em torno de R$ 300 a saca de semente. Para o ciclo 2017/18 o valor passou para R$ 700. O produtor paranaense salienta que sente falta de incentivos ofertados pelo Governo no apoio à produção de milho. Com o objetivo de travar os seus custos de produção, ele faz permuta com a cooperativa. A troca de grãos por insumos é uma prática comum no sistema cooperativista. E na Integrada o associado pode fixar o valor de suas dívidas antes mesmo de plantar.

Por melhores condições para a cadeia — O paranaense Carlos Apoloni, de Quarto Centenário, está atento a todas as informações que possam ajudar na safrinha e acredita na tecnologia para ampliar sua colheita. Ele lembra que, nos últimos anos, os avanços estão tornando as lavouras mais produtivas para os agricultores que seguem as recomendações sobre a época de plantio, potencializando os altos rendimentos. Apoloni aguarda uma boa produtividade, caso a previsão de chuva se mantenha normal nos próximos dois meses.

Ele afirma que vai manter os mesmos 3.150 hectares de área plantada do ano anterior. No entanto, se diz pouco otimista em termos de retorno financeiro: “Da maneira que se conduz, com o preço internacional baixo e estoques (altos) no Brasil, a rentabilidade não será boa neste ano. Os custos para o milho foram projetados para R$ 35 a saca, mas a projeção para colheita já indica preços menores de R$ 30. Na verdade, tudo vai depender da produtividade para compensar o custo de produção”. O produtor conta que, apesar de os juros terem subido próximo a 10% ao ano (no seguro e em outros produtos bancários), continua conseguindo recursos utilizando apenas o financiamento controlado pelo Governo, dentro do limite por CPF.

Ele faz um desabafo sobre as dificuldades que a cadeia do milho enfrenta no Brasil, afirmando que o cereal só apresenta rentabilidade se for exportado. “Se dependermos apenas das vendas para o mercado interno, o produtor estaria no prejuízo”, queixa-se.

Carlos Apoloni, de Quarto Centenário/PR, mostra-se preocupado com os custos, projetados para R$ 35 a saca, sendo que a projeção para colheita já indica preços inferiores a R$ 30

Apoloni conta que diminuiu a procura por milho após o último mês de setembro, e que por isso a produção está toda estocada – exceto para alguns produtores que conseguiram facilidades com o Governo para vender o cereal.

João Nazima, da região de Londrina/PR, deverá plantar 90 hectares de safrinha para colher 100 sacas por hectare, mas reclama que o custo de produção aumentou

Questionado sobre o que seria necessário para sanar os tradicionais problemas da cadeia no Brasil, o produtor menciona que o Governo deveria olhar o setor agropecuário como um todo, e não tentar resolver problemas apenas de um segmento. Ele se queixa do que aconteceu no ano passado, quando, diante de uma oferta apertada, o Governo acabou facilitando a entrada de milho e, mesmo com uma safra boa, com preços internacionais baixos e previsão de poucas exportações brasileiras, isso acabou prejudicando o mercado interno. “Essas oscilações, tanto para cima quanto para baixo, não beneficiam nem os produtores, nem a cadeia produtiva, pois o Governo tenta intervir por conta da cadeia do frango, e quando o faz, já é tarde e acaba por atrapalhar os produtores de milho”, conclui.

Perspectivas em meio ao tumulto político — As turbulências político-econômicas vivenciadas no Brasil afetam negativamente o mercado como um todo, e não apenas a cadeia do milho. Variáveis como juros, crédito e câmbio estão entre as mais afetadas em momentos de incerteza, e afetam diretamente decisões de investimento que, por sua vez, se refletem em todas as atividades produtivas de um modo geral. Segundo o Relatório Focus do Banco Central, que apresenta projeções dos principais indicadores econômicos estimadas por cerca de 125 instituições financeiras privadas do País e do exterior, publicado no final de dezembro, a cotação média da taxa de câmbio (R$/US$) em 2017 deverá ser de 3,42, enquanto que a cotação esperada para o fim de 2017 deverá ser de 3,50. Essas projeções são de 5% a 10% superiores à taxa de câmbio média cotada ao final de 2016. “Apesar dessa ligeira depreciação do real ser favorável as exportações, a taxa de câmbio não deve ser um fator de mudanças em 2017”, analisa o pesquisador da Embrapa Rubens Miranda.

Na visão de Cleide Laia, da Conab, o País tem possibilidade de crescimento de produção e também é um player de grande importância no setor de carnes. Com os recentes investimentos nos portos da região conhecida como Arco Norte – Itacoatiara/AM, Barcarena, Miritituba e Santarém, todos no Pará, São Luís/MA, e Santana/AP – o Brasil deve ficar mais competitivo na exportação do cereal, uma vez que compradores importantes como Japão e Coreia do Sul já são fortes clientes. Devido à tendência de preços mais baixos no mercado interno, deverá haver um aumento das exportações em relação à safra 2015/16. Os produtores tendem a negociar um bom volume de milho com as tradings. No entanto, sabe-se que a competição com outros players, como Estados Unidos e Argentina, deverá ser maior. Por isso, é vital que o produtor brasileiro esteja atento para aproveitar as oportunidades de negociação do cereal.

A área total plantada (safra + safrinha) deve registrar incremento de 1,7%, para 16,093 milhões de hectares neste ciclo, em comparação ao plantio anterior, de 15,922 milhões

Programa Mais Milho busca soluções para cadeia — Realizado pela Abramilho, Embrapa, (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) e Canal Rural, o Programa Mais Milho é a mais nova iniciativa na busca pela solução dos históricos problemas da cadeia do cereal. Tem como objetivo principal discutir e entregar informação aos vários segmentos ligados ao agronegócio do milho. Através da promoção de fóruns em seis estados, serão debatidas formas de avançar em produtividade, tecnologia, mercado e valorização do produto.

O chefe de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa Milho e Sorgo Sidney Parentoni explica que estão envolvidos nessa iniciativa os diversos atores da cadeia produtiva do milho (do produtor até o mercado) para disseminar pautas e assuntos que impactem nos diversos estágios da cultura (do plantio à comercialização). Ele cita um exemplo recente, o tema “Mollicutes que infectam cigarrinhas e causam enfezamento das lavouras”, que tem sido um problema que impacta diretamente na redução da produção em várias regiões. Outro tema abordado foi o clima e seu impacto para as principais regiões produtoras no final de 2016 e início de 2017. “O Programa Mais Milho surgiu ao se constatar os altos preços atingidos pelo milho em 2016 no Brasil. Percebeu- -se então a importância de entender como esse fato impactou os diversos atores do mercado (produtor de grãos, setores de carnes e lácteos, mercado, etc.) e a partir daí o Programa Mais Milho surgiu como uma estratégia de levar informação e um espaço para discussão de forma a buscar soluções que possam contribuir para aumentar a produtividade do milho na safra 2016/2017”, descreve Parentoni.

Ele afirma que o Programa Mais Milho não irá, isoladamente, conseguir resolver os vários problemas ligados à cadeia produtiva do milho. Acredita que a iniciativa atuará positivamente para ajudar a propor soluções para alguns dos gargalos da produção via disseminação da informação. O pesquisador acredita que o mercado só irá evoluir se discutir de maneira conjunta os seus problemas e utilizar a massa crítica das diversas instituições na busca de soluções desses gargalos. “Deve-se ainda considerar que o milho é plantado de Norte a Sul do Brasil e os problemas enfrentados no Rio Grande do Sul podem ser muito diferentes dos enfrentados no Mato Grosso, ou que os problemas da safra são diferentes dos da safrinha. Isso leva à noção de que muitas das soluções/problemas são de caráter regional”, analisa. “É preciso percorrer essas diferentes localidades, fazendo com que os atores locais discutam e cheguem juntos às possíveis soluções. Antecipa-se então que o Programa não pretende ser a solução definitiva para os problemas da cadeia produtiva do milho no Brasil, mas sim uma ferramenta de diálogo e compartilhamento de informações”.

Alysson Paolinelli, da Abramilho, afirma que o Programa Mais Milho cumprirá seu objetivo se conseguir tocar em pontos nevrálgicos para a cadeia. O primeiro é a participação decisiva do Governo com políticas públicas que influenciem positivamente, como garantia de preço e subsídio aos produtores. “Em todos os grandes produtores de milho no mundo o Governo tomou medidas radicais. Estados Unidos, China e Europa fizeram pesadíssimos programas de política pública e chegaram a influenciar muito na produção.

Garantiram o preço, subsidiaram o milho e ainda subsidiam”, lembra. “Aqui no Brasil ainda estamos em uma fase em que o Governo não tomou muita posição. Agora, com a presença do nosso ministro (da Agricultura, Blairo Maggi), que também é um produtor de milho, ele conhece e sabe bem quais são as motivações e as políticas que não estão funcionando e o que ele vai fazer funcionar”, sustenta.

De acordo com o Paolinelli, as taxas de juros do crédito e a oferta precisam voltar aos patamares anteriores à crise econômica, bem como a ampliação do seguro rural e do crédito de comercialização, além de mais investimentos em infraestrutura. “Estamos desde 1986 investindo menos que 1,8% do PIB em infraestrutura, e precisamos voltar a investir 8%. Acredito que esse Programa Mais Milho vai chamar atenção para isso. Ele está colocando na mesma mesa os produtores, consumidores e todas as partes que formam a cadeia produtiva, e todos eles estão tentando cumprir sua missão. Se o ministro aproveitar isso – e ele sabe aproveitar bem, fazer com que todos participem desse chamado – vai conseguir aumentar a produção de milho necessária aqui no Brasil”, conclui.

A resposta do ministro Maggi à iniciativa foi uma das mais promissoras possíveis. O titular do ministério não só se fez presente na abertura do 1º Fórum Mais Milho, realizado em Cuiabá no início de dezembro, como se pronunciou demonstrando interesse em participar ativamente do Programa. Como contribuição inicial às discussões, ele defendeu a aposta no mercado internacional, com a diversificação de destinos. “Se quisermos ser um País com valor agregado nos nossos produtos, temos que usar tudo que compõe a cadeia produtiva. A produção de milho é a base da nossa economia e que a cultura tem sido importante nas negociações que a pasta tem feito mundo afora. A demanda vem de fora, somos os grandes fornecedores mundiais. A nossa preocupação é abrir mercado para não ficarmos reféns de um País só, como é o caso da soja com a China”, defendeu Maggi.


CLIMA DECIDE MUITO EM RELAÇÃO À SEGUNDA SAFRA

As projeções apontam que a produção de milho na segunda safra será ajudada pelo clima apenas na região Centro-Oeste, onde as chuvas devem ser mais regulares e abundantes. Luiz Renato Lazinski, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), afirma que a safrinha de milho 2017 ainda estará sob a influência do fenômeno climático La Niña, porém, com uma intensidade mais fraca. No Sul, as precipitações serão muito irregulares e concentradas em pequenos períodos, intercaladas com estiagens e veranicos entre Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. “Outra coisa que devemos ressaltar é que, em anos como este, observamos a entrada de massas de ar frio com maior intensidade. Portanto as ondas de frio podem chegar mais cedo este ano, a exemplo do que ocorreu no ano passado, quando tivemos as primeiras geadas, mais significativas, ocorrendo no final de abril e um inverno com temperaturas abaixo da média no Sul do Brasil. Essas temperaturas mais baixas no final do ciclo da safrinha podem afetar um pouco a produtividade no Centro-Sul”, prevê.

A meteorologista Desireé Brandt (foto) converge em apontar um enfraquecimento do La Niña, o que permitiu o cumprimento do calendário da primeira safra no Sul. Sobre os próximos meses, de acordo com a temperatura do Oceano Pacífico, ela não aponta mais uma interferência significativa do fenômeno. “Estamos sob uma condição de neutralidade climática. Em fevereiro vamos observar a chuva voltando aos poucos para o Sudeste, Centro-Oeste e até mesmo para o Matopiba. Não será a condição ideal, mas vai aumentar a umidade principalmente entre Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Bahia”, avalia.

Para os próximos meses, a especialista prevê a atuação de um sistema chamado “zona de convergência intertropical”. Trata-se de uma faixa de muita instabilidade que migra conforme a época do ano para o Hemisfério que estiver em seu verão. De acordo com ela, neste ano essa zona será mais eficiente e vai beneficiar não só a região Nordeste, como também vai ajudar a espalhar um pouco mais a umidade pelo País – especialmente agora em fevereiro e março. Em abril, as precipitações perdem força no Centro- Oeste e, em maio, serão escassas.

“Quem começa a instalar agora o milho safrinha vai ter chuva para manter a umidade do solo. Esse milho vai crescer, fechar a lavoura e, quando chegar abril (mesmo que a chuva não seja tão expressiva quanto a de março) será uma chuva que vai manter a umidade do solo. Se der mais uma chuva em maio – garante uma boa safra. Para quem está dentro do calendário, não vemos grandes problemas”, estima. “Quais são os riscos? O problema da neutralidade é mais à frente. Quem atrasar o milho safrinha, corre o risco de pegar o frio lá no final. Porque quando temos uma condição de neutralidade climática, a massa de ar polar consegue avançar pelo Brasil e a chance de ela ser uma massa continental é maior”, alerta Desirré.


EM SORRISO, MEGA SAFRINHA DE 15.600 HECTARES COM PLANTIO DE “MILHO DE PONTA”

Gaúcho de Lagoa Vermelha, Argino Bedin (foto) está radicado há 37 anos em Sorriso/MT, onde vai plantar 15.600 hectares de milho nesta segunda safra – o que representa praticamente a totalidade de suas duas propriedades na região. Ele explica que deixará de fora apenas uns 300 hectares referentes a limites de beira de estrada e algum canto de difícil acesso. O objetivo é colher, no mínimo, 120 sacas/hectare como média em toda a fazenda, meta que será alcançada com a utilização de “milho de ponta, o melhor que tem no mercado”, define. “Vamos fazer o possível para ter uma boa produtividade. Há a possibilidade de colher até mais, porém, vai depender do clima. Mas se correr tudo bem, vai ser melhor ainda essa média”, anima-se o agricultor. Otimista, ele confia nas previsões do tempo que apontam uma boa quantidade de chuvas até a primavera, embora relate que no mês de janeiro as precipitações foram irregulares e apenas na terceira semana do mês é que vieram as chuvas para germinar o milho.

Em termos de preço, Bedin é cauteloso em fazer projeções, lembrando a oscilação que as cotações do cereal vêm apresentando nos últimos anos. Para se proteger, o produtor conta que neste ano já fez vendas antecipadas: “Se não fizer algo por antecipação, quando o preço está razoável, depois de colher se corre o risco de vender por qualquer preço. Então esse ano eu já comprometi praticamente 90 sacas/hectare, que já estão em contrato futuro”, explica. Ele se queixa do custo bastante elevado dos insumos para esta safrinha, justificando que utiliza semente e tecnologia de ponta, o que eleva o custeio. O produtor conta que, apenas para cobrir os custos, é necessário vender ao menos 100 sacas/hectare. Destaca principalmente a inflação ocorrida no preço do óleo diesel e de todos os químicos e defensivos, que segundo Bedin estão muito altos. “Se não vender bem, corre o risco de ter prejuízo”, alerta.

O produtor de Sorriso lembra que existe crédito disponível, e que para aqueles que estão em dia com as instituições financeiras é relativamente fácil conseguir recurso para custeio. Elogia também a política de preço mínimo do Governo, e espera que ocorram mais compras para a reposição dos estoques públicos, que hoje estariam muito próximo de serem zerados. “Eu não sei qual é a intenção do Governo, se eles vão repor esses estoques, para se ter um regulador do mercado, alguma coisa assim. Acho que deve existir uma política para garantir a sobrevivência do agricultor”, apregoa.