O Segredo de Quem Faz

 

Mais ATENÇÃO às demandas do produtor mato-grossense

Leandro Mariani Mittmann
leandro@agranja.com

As distâncias do extenso Mato Grosso serão encurtadas. Não é magia, mas sim uma proposta do novo presidente da Federação da Agricultura do Estado do Mato Grosso (Famato), Normando Corral, 59 anos, eleito para a gestão 2017 a 2019. Entre suas propostas está a interiorização da entidade. Ele planeja estar mais próximos dos 90 sindicatos associados a partir da divisão do estado em dez regiões administrativas, a serem visitadas pela diretoria para a discussão de problemas locais específicos. E não exigir custosos deslocamentos dos associados até Cuiabá. Essa é uma das ideias do engenheiro agrônomo nascido em Rinópolis/SP, mato-grossense por adoção desde1982, onde presidiu o sindicato rural em Tangará da Serra . “A vocação nossa, não digo única, mas quase única, é a produção agrícola. Temos regularidade de clima, conseguimos fazer mais de uma safra por ano, temos essa grande extensão territorial”, descreve seu estado.

A Granja — O senhor será presidente da Famato para o triênio 2017/19. Quais são suas principais propostas para este período?

Normando Corral — A primeira coisa é administrativa, que a partir daí vêm as outras ações e soluções que buscamos. Eu fiz uma proposta durante a minha campanha, que, mesmo participando como vice-presidente, eu vinha acalentando essa vontade. O Mato Grosso é um estado com uma extensão territorial bastante grande, e temos 90 presidentes de sindicatos espalhados. Alguns, para se ter uma ideia, estão a 1.300 quilômetros da sede da Famato, na capital. Então, para tomar decisões, conversar com essas pessoas, não dá para fazer por telefone, e-mail, WhatsApp. Tem que trazer, até para homologar em determinadas assembleias aqui. E eu via que isso gerava um trabalho e um custo enormes, não só de locomoção, mas demora, três, quatro, cinco dias entre sair e voltar ao seu município. Então dividi o estado em dez regiões.

E para quê? Como temos essa extensão territorial enorme, também somos um estado de grande diversidade, e os problemas de uma região não são iguais aos da outra. São bem diferentes. Vou dar um exemplo que cito constantemente: a extensão territorial do Mato Grosso, para que as pessoas tenham uma ideia, é a soma das do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A diferença de atividade no Rio Grande do Sul para o Espírito Santo é enorme. E para São Paulo também. E nós temos isso aqui também. Então, não dá para reunir pessoas tão diferentes, situações tão diferentes aqui na capital, fazendo a locomoção de todas essas distâncias, para tomar decisões comuns.

A sede da Famato é na capital, e deve ser por causa da interlocução política. Com essas dez regiões, nós da diretoria executiva é que vamos nos reunir nessas dez regiões administrativas. Dessa forma, como estamos fazendo a divisão administrativa por facilidade de acesso e perfil socioeconômico, vamos conseguir ter muito mais rapidez na detecção dos problemas e solução deles. Vamos discutir problemas comuns e não diferentes. Porque aqui é uma área de fronteira, outra no extremo Leste... Mato Grosso teve no ano passado uma seca bastante severa, mas em uma região foi mais severa que na outra. Essa é a primeira coisa que quero fazer, a divisão territorial, e a partir disso a interiorização das ações da federação, mais no interior, que a gente representa, e menos na capital.

A Granja — Como está o momento e quais as perspectivas para o agronegócio de Mato Grosso? O andamento da safra 2016/17, os custos, as cotações, a rentabilidade do produtor.

Corral — Estamos bastante animados, porque tivemos o ano passado muito ruim por causa da seca, que quem está aqui há 30 anos ou por aí, que é o tempo que estou aqui, daquela forma nunca tinha visto. E neste ano, as chuvas foram regulares. Como falamos: voltou o velho Mato Grosso. Então, a expectativa de produção é muito boa. E a expectativa de preço quanto a grãos também é boa. O setor que está com preço deprimido por aqui é o de gado de corte, principalmente. Esse está passando um momento ruim. Mas isso é normal, sazonal. A gente tem época de preço muito baixo e época de muito alto. O custo, mesmo assim, vem subindo, e não é de agora, um pouco a longo prazo. Vem subindo constantemente e a média de produtividade dos últimos dez anos, especialmente a da soja, não muda muito, não. Está patinando nas 50 sacas por hectare. Essa é uma preocupação. Mas apesar de tudo o que temos passado nos anos de dificuldade, aumentamos a área de produção. O Mato Grosso tem 9 milhões e pouco de hectares de soja. É o maior produtor de soja, milho e algodão, e maior rebanho bovino. Por que acontece isso? A vocação nossa, não digo única, mas quase única, é a produção agrícola. Temos regularidade de clima, conseguimos fazer mais de uma safra por ano, temos essa grande extensão territorial. Então, essa é a nossa vocação. É o que vamos continuar fazendo e tentando fazer cada vez melhor.

A Granja — Quais são as principais dificuldades que o senhor observa do setor hoje no Mato Grosso para o estado produzir mais e melhor, com menor custo?

Corral — A principal que afeta os custos e cria dificuldades para a gente expandir é o transporte. A nossa condição de transporte é muito ruim. As estradas estão bem complicadas e, principalmente, como foi expandindo com uma certa rapidez, nas áreas que foram convertidas de pastagens para agricultura, as estradas que existiam até então não suportam o tráfego que tem hoje. Algumas nem foram asfaltadas. Nessa época em que chove bastante, dá para imaginar... dá para fazer um book de caminhões atolados. A grande dificuldade, que nos prejudica muito, nos tira competitividade, é a logística. Tem vindo soluções. O modal ferroviário próximo a Rondonópolis e que queremos trazer (até Cuiabá). E tem outro modal para fazer até a BR 163. Já surgiram as opções hidroviárias, que devem ser mais rapidamente implantadas. As coisas aqui estão acontecendo e tem muito por acontecer, diferentemente das Regiões Sul e Sudeste, onde já aconteceu bastante. Então, nessa situação, é claro que se enfrenta bastantes dificuldades. Porém, há oportunidades.

A Granja — E o que mais?

Corral — Fora isso, existem outras questões em nível federal. A legislação trabalhista e a legislação ambiental, que é muito punitiva, precisam ser revistas. A Reserva (Legal) que precisamos deixar em determinado lugar é de 80%. Pode se aproveitar só 20%. Esses são problemas um pouquinho mais complexos. A legislação trabalhista está sendo conversada para se ter uma reforma. O Brasil precisa de várias reformas. O que está aí não dá... reformas política, tributária, trabalhista. A trabalhista, principalmente na questão agrícola e pecuária, eu sempre digo que premia aqueles que simulam que trabalham e pune aqueles que empregam. Em uma série de coisas. Desde quando se “judicializa”, eles (empregados) têm mais direitos, não precisam de provas, bastam testemunho. Se não for a uma audiência marcada, você, produtor rural, já é condenado ali; se ele (empregado) não for, tem direito a recorrer depois. É muito punitiva. E tem o hora in itineres. Vamos comparar o trabalhador de uma indústria de uma grande metrópole como Porto Alegre e São Paulo.

Não importa onde ele mora, quantos veículos transportam ele para ir trabalhar – ônibus, bicicleta, trem, mas a jornada de trabalho dele começa quando ele chega ao seu local de trabalho e bate o cartão de ponto. É às 7h30min? É às 7h30min e acabou. Ele pode ter saído de casa às 5h. Na atividade rural, não há o transporte público, e é claro que não vai haver, pois são inúmeras fazendas espalhadas por todo o lado. Se não tem transporte público, você tem que providenciar transporte para o seu funcionário. Ou tem um ônibus, compra um, aluga. E a hora, a jornada de trabalho deste trabalhador começa quando ele entra no ônibus, mesmo que demore uma hora, uma hora e meia para ir até o seu local de trabalho. Não importa, começa ali. E termina não quando ele para de trabalhar na fazenda, mas na hora em que é devolvido na casa dele ou no ponto de ônibus. Se tivesse um transporte público para ir até lá, ele iria demorar o mesmo tempo, iria ter que pagar por conta dele esse transporte e a jornada de trabalho iria começar quando ele chegasse na fazenda. Do contrário, a jornada começa quando ele põe o pé no ônibus, o ônibus cujo custo é do proprietário, o produtor.

Ônibus, motorista, diesel, etc. Qual o sentido disso? É um privilégio. E diferente do trabalhador urbano. Não tem problema, estamos isolados, distantes dos centros urbanos. Transportar é uma característica nossa, colocar um ônibus para transportar os trabalhadores. Mas a jornada de trabalho é quando ele começa a trabalhar. Tem uma série de coisas que precisam ser revistas. Isso nos tira a competitividade. Outra situação é o Equipamento de Proteção Individual (EPI). Você entrega para a pessoa, tem que ter recibo que entregou, se acontecer um acidente de trabalho, e você não entregou, vai ser penalizado. Isso é correto. Mas se tiver uma fiscalização e esse trabalhador não estiver utilizando o EPI que foi dado para ele, há punição ao empregador, pois temos que dar e fiscalizar para o cara usar. Na legislação americana é o seguinte: “Está aqui, dei para você, se usar ou não usar, é problema seu”. Se tiver um acidente de trabalho por você não ter utilizado adequadamente o EPI, você, o empregado, vai ser punido, porque foi dado. Nós, não. Tem que dar e ficar como babá.

A Granja — E em nível nacional, quais são as suas expectativas para 2017, tanto tanto para o agronegócio brasileiro e também para a economia e política do País?

Corral — Na economia nacional a questão política, que é bem mais complexa, é o que causou isso aí (crise) e não alguns eventos externos em que acabamos prejudicados. A Dilma (Rousseff) sempre falava “ah, a crise do mundo...” Não, a crise era nossa, causada por ela, pelo Governo dela, eu não tenho dúvidas. Essa (crise) é um pouco mais complexa, envolve a questão política, envolve o afastamento da presidente, envolve tudo isso aí que estamos vendo. Envolve até a não segurança do atual presidente (Michel Temer) que vai continuar ou não como presidente. Há todas as investigações ocorrendo. O Brasil está passando por um abalo grande. Creio que para que a gente fique melhor do que antes. Isso, obviamente, afeta a economia do País, e a gente vê bolsa e dólar subindo ou descendo ao sabor dos acontecimentos. Quanto à contribuição da nossa atividade para a economia como um todo, é só ler o que acontece, o que a gente faz de exportação e superávit na balança comercial, graças à produção (agropecuária), porque não está tendo hoje grandes exportações pela indústria. Nesse ponto, a atividade agropecuária tem sustentado. Isso a gente tem feito muito bem. E no Mato Grosso, mais ainda que em outros estados, porque aqui tem o grande potencial de crescimento e tem acontecido o crescimento da produção. Não só pelo aumento da produtividade, mas pela incorporação de novas áreas ao processo. Então, a contribuição do Mato Grosso é grande. E por quê? Por causa da vocação quase que única de nosso estado: produção agrícola.

A Granja — A agropecuária e o agronegócio como um todo costumam ser influenciados pelos problemas políticos e econômicos do País, ou conseguem se manter como um “mundo à parte”, seguir tranquilo?

Corral — Não. A gente consegue seguir tranquilo quando se aproveita de desgraças que aconteceram em outros países. Por exemplo: todos na produção de grãos, de soja, estão torcendo para chover bastante. Mas não aqui; lá na Argentina, onde está alagando e eles estão tendo dificuldades. E por quê? Porque isso reflete nos preços. Mas, fora isso, toda a turbulência política afeta sim o nosso setor. A gente fala em tom de brincadeira, mas é pura realidade, que dez, 20 anos atrás, para produzir, a gente precisava de um agrônomo.

Agora precisa de um agrônomo, um contador, um advogado, um ambientalista. E por quê? A quantidade de legislações para que se possa produzir é enorme e confusa. Tanto é que ao longo desse tempo em que tudo vem acontecendo, ocorreu a criação da Frente Parlamentar Agropecuária na Câmara Federal, de onde saem as legislações, para que possamos falar “gente, não é privilégio; com isso aqui vamos acabar perdendo competitividade e até mesmo não produzir”. Então, afeta e afeta bastante. Não saímos ilesos quando existem esses problemas, não.

A Granja — E que avaliação o senhor faz da gestão do produtor mato-grossense Blairo Maggi à frente do Ministério da Agricultura?

Corral — O Blairo para mim é mais que um produtor. Ele foi governador do estado, é senador e um grande produtor. A empresa dele, AMaggi, produz bastante e é também é uma trading. Ele é uma pessoa que deve ser olhada como modelo, de sucesso. E tem feito um ótimo trabalho no Ministério da Agricultura, e faz com competência, tem bastante conhecimento disso. E, principalmente, outros também tiveram, mas ele tem o conhecimento claro do que é produzir em um estado que é um dos maiores produtores do País, e do que se precisa para a gente produzir. Eu parabenizo o trabalho dele no Ministério.