Eduardo Almeida Reis

 

HIDROQUERÍDEOS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Do tupi kapii’gwara, de ka’pii ‘capim’ + gwara ‘comedor’, a capivara tem montanhas de fãs na capital de todos os mineiros, gente que defende sua permanência às margens do lago da Pampulha. Maior roedor do mundo, a capivara hospeda o carrapato-estrela, que pode transmitir a febre maculosa pela bactéria Rickettsia rickettsii, doença infecciosa grave e potencialmente fatal.

Apesar de existir tratamento eficaz e dos avanços nos cuidados médicos, a febre maculosa pode apresentar taxas elevadas de letalidade. Vale notar que a desesperadora situação econômica de Minas Gerais dificulta os “avanços nos cuidados médicos”.

Defensores de certos animais têm síndrome que nem Freud explica, mas, no caso das capivaras, um trocadilho infame pode justificar: leram família dos hidroquerídeos e entenderam hidroqueridos.

Pampulha, para os que não conhecem a capital mineira, é uma espécie de pré-Brasília sem os parlamentares e os ministros que infelicitam este pobre País. Prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek finalizou a construção de um lago com 18 quilômetros de perímetro, entupiu o entorno com projetos do então jovem Oscar Niemeyer, tudo pertinho do Aeroporto da Pampulha, pois JK adorava embarcar em um avião. O próprio lago artificial pode ter sido uma forma de compensar seu nascimento na Diamantina cortada pelo Rio Grande, que tem metro e meio de largura.

Há solução brilhante para o problema da Pampulha: basta copiar o que fez em Montes Claros um juiz, hoje o ilustre desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima do TJ-MG.

Quando era juiz da infância e juventude em Montes Claros, Norte de Minas Gerais, em 1993, não havia instituição adequada para acolher menores infratores. Uma quadrilha de três adolescentes praticava reiterados assaltos. A polícia prendia, o juiz tinha de soltá-los. Depois da enésima reincidência, valendo-se de um precedente do Superior Tribunal de Justiça, o juiz determinou o recolhimento dos “pequenos” assaltantes à cadeia pública, em cela separada dos presos maiores.

Recebeu a visita de uma comitiva de defensores dos direitos humanos (por coincidência, três militantes). Os três exigiam que liberasse os menores. Negou. Ameaçaram denunciá-lo à imprensa nacional, à corregedoria de Justiça e até à ONU. O juiz retrucou que não fossem tão longe, porque tinha solução. Chamou o escrivão e ordenou a lavratura de três termos de guarda: cada qual levaria um dos menores preso para casa, com toda a responsabilidade delegada pelo juiz. Pernas para que te quero! Mal se despediram e saíram correndo do fórum. Não denunciaram o Dr. Rogério a entidade alguma, não ficaram com os menores, deixaram de “honrá-lo” com suas visitas e os bandidosmirins ficaram presos.

Basta fazer coisa parecida com os amantes das capivaras da Pampulha: entregar um casal de roedores a cada família defensora dos animais para alimentar e conviver com os bichos em suas respectivas residências.

Ex-modelo, jornalista, palestrante, escritor e apresentador de tevê, Pedro Andrade, nascido no Rio de Janeiro, mora e trabalha nos Estados Unidos e participa do programa semanal Manhattan Connection, transmitido no Brasil pelo GloboNews.

Gosto muito do Manhattan Connection desde o tempo do incomparável Paulo Francis. Não creio que a participação do ex-modelo acrescente algo ao programa semanal com aquelas dicas nova-iorquinas sobre galerias de arte, exposições, restaurantes, praças, estátuas, além de críticas cinematográficas. Acho que discrepa dos demais participantes, mas tenho a certeza de que a minha opinião não vai tirar o emprego do rapaz.

Quando fez uma série de programas viajando pelo mundo para comer esquisitices, Pedro Andrade avisou aos produtores dos programas que comeria tudo, menos cachorros e ratos. Pois muito bem: a carne de ratos voltou com força ao cardápio asiático, sobretudo na China.

Começou com um roedor bonitinho, pequeno, colorido, de pelos compridos, evoluindo para o rato em geral. Notícia que não causa espécie em um país grande e bobo em que milhões de pessoas adoram comer grandes roedores como a paca e a capivara.

Uma coisa é comer para não morrer de fome; outra, muito diferente, é curtir esquisitices gastronômicas adquiridas a peso de ouro. Um dos “alimentos” mais raros e mais caros do planeta, degustado há centenas de anos, é o ninho de andorinhas. Compõe uma sopa gelatinosa considerada muito saborosa, chamada “Caviar do Oriente”, consumida na China e em outros lugares. Os EUA figuram na lista dos maiores importadores.

Tive fazenda rica em pacas sempre invadida pelos caçadores em busca da iguaria, que nunca experimentei, como também me recuso a comer carne de capivara.

História e lenda registram inúmeros episódios guerreiros em que os povos cercados recorreram às carnes dos ratos para sobreviver. Naquelas emergências, pacas e capivaras seriam iguarias dos deuses.