Plantio Direto

A importância de avaliar AMBIENTES produtivos no SPD

Afonso Peche Filho, pesquisador científico no Instituto Agronômico (IAC)

No decorrer do tempo, as populações que ocuparam as terras do planeta alteraram as condições naturais da paisagem, principalmente em função das diferentes formas de produção agrícola. A ocupação e o uso agrícola aumentam a vulnerabilidade das terras frente aos efeitos ambientais e aos efeitos negativos das atividades antrópicas. Nesses locais ocorre à fragilização de cenários, com maior ou menor intensidade. Atualmente o desenvolvimento agrícola tem como característica a convivência com contínuas transformações, exigindo modelos de gestão cada vez mais eficientes, monitorando e direcionando as transformações na construção de empresas com foco em renda sem perder sua condição de sustentabilidade.

Foi desensolvida uma metodologia para determinação de um índice de qualidade produtiva (IQP) utilizando dados de 15 parâmetros relacionados diretamente com a condição ambiental de áreas em plantio direto

As modificações introduzidas por tecnologias agrícolas procuram criar condições do meio para favorecer as plantas cultivadas e desfavorecer os ecótipos formando os agroecossistemas. Na ocupação e no uso das terras com atividade agrícolas é que se dá a construção do que modernamente denominam-se Ambientes Produtivos. Esses podem ainda ser definidos como espaços intradominiais (dentro de um agroecossistema) criados pelo condicionamento das modificações em função da interferência humana no ecossistema local.

Dentro dos chamados "cuidados integrais do manejo" estão questões como a construção de uma boa palhada e a produção contínua de humos, harmonizadas com o enraizamento do perfil e com a qualidade nas operações mecanizadas

Esse condicionamento busca integrar fatores de produção e como resultado são obtidas áreas agrícolas agrupadas por potencial ecológico (rocha, solo, relevo, drenagem, microclima) e potencial produtivo subjetivo (terra boa, terra média, terra fraca). A partir desse entendimento, é possível determinar que um conjunto de talhões possa formar um “ambiente produtivo”. É nesse ambiente que a metamorfose agrícola promove a fragilização da superfície do solo e da sua biocenose. Essas mudanças contínuas não impedem que a natureza continue atuando, imprimindo em um ritmo acelerado providências para a restauração das condições ecossistêmicas. Assim, a boa agricultura no sistema plantio direto se dá em uma constante luta para manter as condições de produção rentáveis, com menor risco de impactos ambientais negativos.

Cuidados integrais de manejo — Para promoção da produtividade, rentabilidade, perenidade produtiva e saúde ambiental, o agricultor precisa praticar os chamados cuidados integrais de manejo. Devem-se unificar ações preventivas, corretivas e de reabilitação dos impactos negativos passados como é o caso de processos erosivos ou de plantas invasoras resistentes, entre tantos outros. “Cuidados integrais” significa pensar, planejar e executar o acesso a todos os recursos tecnológicos que o ambiente local necessita para produzir de forma competitiva, sem quebrar o equilíbrio do agroecossistema.

Nos ambientes naturais, os pressupostos da análise integrativa do meio ambiente consideram que a paisagem possui um estado de equilíbrio dinâmico, e nos ambientes cultivados não existe equilíbrio, existe a convivência com a degradação ecológica como consequência intrínseca da ruptura desse equilíbrio natural. As consequências intrínsecas originam-se no próprio sistema de manejo, elas são os resultados naturais ou automáticos do modelo de gestão adotado pelo agricultor. O esquema da Figura 1 procura elencar os principais fatores intrínsecos que promovem desequilíbrios e queda da rentabilidade. Assim, os ambientes de produção necessitam de um monitoramento constante para que não corram o risco dos fatores intrínsecos se tornarem fatores improdutivos e não rentáveis.

Dentro dos chamados “cuidados integrais do manejo” estão questões relacionadas com a construção de uma boa palhada e produção contínua de humos, harmonizada com o enraizamento do perfil e com a qualidade nas operações mecanizadas. Essas questões são essenciais para promoção da perenidade produtiva e saúde ambiental. A boa palhada é aquela que tem em sua composição uniformidade (espessura e cobertura) e regularidade espacial. A produção contínua de humos se dá em ambientes aeróbicos e com muita atividade biológica diversificada.

A harmonia ocorre com uma boa orientação técnica que prioriza rotação de culturas, manejo ecológico de pragas e doenças. O enraizamento do perfil ocorre com correção química correta e escolha de cultivares adaptados. A qualidade nas operações ocorre com procedimentos corretos, treinamento, profissionalismo e muito cuidado com riscos ambientais. Outras atividades como sistematização da assistência em operações mecanizadas, planejamento de manejo de áreas, monitoramento de pragas, doenças e infestação de ervas, associadas a uma boa comunicação, são fundamentais para cuidados integrais eficientes.

Os “conhecidos” fatores extrínsecos também exercem muita influência no desempenho dos ambientes produtivos e exigem do agricultor dedicação e conhecimento mais aprofundado do solo na sua identificação.

A figura 2 elenca vários fatores extrínsecos que podem potencializar riscos significativos, causadores de perdas e impactos às vezes irreversíveis para os ambientes de produção. O clima, como um dos grupos de fatores extrínsecos, é considerado uma importante área de análise no sentido de estabelecer estratégias para prevenção contra suas variações, principalmente aquelas anomalias do sistema climático que são mundialmente conhecidas como as dos fenômenos El Niño e La Niña.

Tendo explicitado tais fatores, faz-se necessário apontar formas de avaliação e monitoramento dos Ambientes Produtivos. Essas avaliações têm como objetivo fundamental organizar os “cuidados integrais do manejo” para o equilíbrio agroecológico e perenidade dos ambientes produtivos em sistema plantio direto. Outro ponto importante é desencadear medidas preventivas contra os riscos relacionados com ações potenciais negativas resultantes da gestão dos fatores intrínsecos e extrínsecos.

Plano de amostragem — As avaliações desses fatores vão induzir os agricultores a incorporar na gestão um plano de amostragem para cada ambiente. Da mesma forma do que é preconizado no manejo integrado de pragas e doenças. A coleta de dados e informações deve ajudar desvendar e compreender os possíveis “problemas ocultos” presentes em lavouras ditas lucrativas ou produtivas. A avaliação de diferentes fatores deve desencadear atitudes e diretrizes claras para melhorar o desempenho tecnológico dos ambientes produtivos.

A figura 3 elenca diversas possibilidades de análise no que se denomina “desequilíbrios do agroecossistema”. Uma avaliação sistemática desses “fatores de desequilíbrios” serve como caminho para aprimoramento e desenvolvimento de modelos de gestão utilizados pelos agricultores praticantes do sistema plantio direto. Para cada um destes fatores é possível estabelecer critérios de avaliação.

Foi desenvolvida uma metodologia para determinação de um índice de qualidade produtiva (IQP) utilizando dados de 15 parâmetros relacionados diretamente com a condição ambiental de áreas em plantio direto. Os parâmetros relacionados com presença de pragas e de doença, de invasoras e de umidade e temperatura são considerados efêmeros; os parâmetros relacionados com teor de nutrientes, pH, solo exposto, raízes e resistência do solo à penetração são considerados intermediários; e os parâmetros relacionados com manejo conservacionista, cobertura morta ou verde, agregação, profundidade e camada humificada são considerados como permanentes.

A partir do uso de uma escala de notas com valores entre 1 e 5 foi possível estabelecer uma avaliação para cada um dos parâmetros e assim calcular o índice de qualidade produtiva (IQP), cujo potencial máximo obtido é 75 pontos. Utilizando medidas separatrizes quintis, é proposta uma classificação da condição produtiva de áreas agrícolas em cinco classes: muito baixa, baixa, média, alta, muita alta.