Agricultura Familiar

PEIXES: agregação de renda só com profissionalismo

Médico veterinário Luiz Rodrigo Mota Vicente, coordenador de Aquicultura e Pesca da Epagri em Tubarão/SC

A aquicultura vem crescendo a passos largos no País e no mundo. Isto é visível para quem trabalha no setor e para os leigos que acompanham notícias massificadas pelos meios de comunicação. Além da maricultura, a piscicultura continental foi impulsionada nos últimos anos em Santa Catarina, destaque para algumas espécies de peixes como as tilápias do nilo (Oreochromis niloticus), com produção de 30,3 mil toneladas (71,21%), seguidas pelas carpas, com 9,6 mil toneladas (22,57%). Em menor volume são produzidos jundiás (Rhandia quelen), com 800 quilos, (1,74%) e truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss), com 700 quilos (1,64%).

Apesar de todo o crescimento da piscicultura catarinense, os entraves ainda são enormes. Dentre eles, um dos mais importantes – por refletir desde a escolha da atividade, até sua implementação – é a dificuldade e a morosidade na regularização das áreas de cultivo pelos organismos ambientais, o que implica em atraso e impedimento na aquisição de crédito agrícola para investimentos e custeio da atividade, onerando a produção e perdendo competitividade.

Em 2015, Santa Catarina produziu 42,8 mil toneladas de peixes de água doce, 17,4 mil toneladas de mexilhões, 3,03 mil toneladas de ostras, 38,8 mil quilos de vieiras e 227,5 mil quilos de camarões marinhos. Muito disso se deve à assistência técnica e extensão rural e também à pesquisa agropecuária executadas pela Epagri nos últimos 60 e 40 anos, respectivamente.

A piscicultura continental destaca-se como atividade complementar geradora de renda em muitas das pequenas propriedades rurais em todo o estado. O patamar alcançado é resultado de alguns fatores, como os seguintes: o esforço dos técnicos da Epagri que vêm atuando na cadeia produtiva desde a década de 1980; a persistência dos produtores que veem na atividade uma fonte de renda; e a iniciativa privada que atua em diversos segmentos da cadeia da piscicultura, desde a implantação de um sistema de cultivo à gôndola do supermercado. Também influenciam no resultado diversas outras entidades envolvidas ao longo da cadeia produtiva e os fatores conjunturais, como a demanda crescente por pescados de águas continentais, quem vem sendo impulsionada pela receptividade dos consumidores somada à estagnação da oferta de peixes da pesca artesanal e industrial marítimas.

Estratégias para o desenvolvimento — Todo o trabalho desenvolvido pela Epagri até o momento traz algumas respostas que poderão servir como base a outras instituições de extensão do País. Podemos destacar as metodologias de extensão: dias de campo, reuniões técnicas, programas de rádio e TV, divulgações por meio da imprensa escrita, seminários municipais e regionais, cursos, oficinas e excursões. Em 2016, a Epagri priorizou a formação de jovens na atividade, capacitação de produtores em geral, implantação de Unidades de Referência Técnica (URT’s) e trabalhos pontuais no fortalecimento e fomento ao consumo de pratos à base de peixes como cursos, oficinas e concursos de preparo de pratos à base de peixes para profissionais da área e público em geral.

Os trabalhos nas URTs foram focados no gerenciamento da atividade, com acompanhamento dos custos de produção e qualidade de água ao longo do ciclo de cultivo. A Epagri também vem estimulando sistemas de cultivos bifásicos, com uso de berçários para recria de alevinos e engorda. Vale destacar que o Sul do Brasil sofre com estiagem e frio intensos no inverno, além da oferta de alevinos restrita ao final da primavera, verão e início de outono, o que nos obriga a ser criativos para poder ofertar peixes para o mercado em todos os períodos do ano.

Políticas de Governo devem ser justificadas e implementadas no setor, dando sustentação em “gargalos” específicos da atividade. Como exemplo, podemos citar o Programa Kit Piscicultura do Governo de Santa Catarina, que tem como objetivo subsidiar a compra de equipamentos para o monitoramento da qualidade da água ao longo do ciclo de cultivo. Evidentemente, é uma política pública voltada para piscicultores comerciais, que já fazem da atividade uma fonte suplementar de renda e grande parte utiliza equipamentos indispensáveis à produção, como aeradores, alimentadores automáticos e geradores.

Atualmente, a região de Tubarão conta com oito associações de piscicultores, distribuídas especialmente nos municípios das regiões do Vale do Braço do Norte (Santa Rosa de Lima, Rio Fortuna, Braço do Norte, São Ludgero, Grão Pará e Orleans) e do Rio Capivari (São Martinho e Armazém) – municípios estes responsáveis pela quase totalidade da produção regional. A região concentra quatro municípios dentre os oito com a maior produção do estado: Armazém (2º - 1,2 mil tonelada), Grão Pará (5º - 0,96 mil tonelada), Rio Fortuna (6º - 0,8 mil tonelada) e Braço do Norte (8º - 0,6 mil tonelada).

Formação de jovens rurais — A piscicultura continental na região de Tubarão vem se consolidando como uma importante fonte de renda ao produtor, que vê na atividade uma excelente oportunidade de produzir uma proteína animal de ótima qualidade a baixo custo. Pequenos açudes, cultivos integrados e sistemas extensivos de produção – com o objetivo de suprir basicamente a família do produtor rural com uma fonte proteica de forma rápida – que há pouco tempo era comum, passou a ficar em segundo plano quando se fala em produção de peixes na região. Os produtores começam a se especializar e garantir uma renda complementar na propriedade. Em 2016, a Epagri da região de Tubarão, através do Programa SC Rural e convênios com municípios, formou a quinta turma de Jovens Rurais, foram capacitados nos eixos fundamentais para a melhor gestão da propriedade.

A atividade desenvolvida no eixo técnico foi a piscicultura continental, por ser relevante no meio rural da região e de interesse dos jovens rurais que pretendem fazer a sucessão familiar. Os jovens conheceram temas importantes para o sucesso da atividade, como construção, manutenção e preparo de viveiros de cultivo; legislação ambiental; nutrição; povoamento; despesca; sanidade e manejo em geral ao longo do ciclo de cultivo de peixes. A facilidade de acesso aos conteúdos, conversas e laços estabelecidos entre os alunos solidifica o empreendedorismo entre os jovens.

Profissionalismo — Informações, conhecimento e capacitações são necessários para que o produtor possa gerir da melhor forma possível a atividade, que pode ser grande fonte de caixa para a propriedade, mas também pode levá-lo ao fracasso. Isso porque a piscicultura é onerosa e necessita de investimentos significativos de implantação e custeio. Saber produzir em quantidade e qualidade já não é sinal de sucesso. O setor exige um comprometimento de todos os elos da cadeia: produção, comercialização e consumo.

Produzir é relativamente fácil, porque fomos capacitados ao longo do tempo. Para comercializar ainda estamos aprendendo com os erros do passado, e no que se refere ao estímulo ao consumo, ainda há tudo por fazer. Há necessidade de variedade de produtos pré-prontos e cortes diferenciados nas gôndolas dos supermercados, aliado a preços atraentes aos consumidores. O mercado também carece de pratos gourmet em restaurantes e é preciso ofertar pratos diferenciados às crianças de creches e escolares das redes de ensino público e privado. O espaço para crescimento é grande, entretanto, necessita-se de responsabilidades por parte de todos os elos da cadeia – de produtores ao consumidor final.