Fitossanidade

 

DOENÇAS: boas produtividades ameaçadas

A brusone é a mais devastadora das doenças dos arrozais irrigados, mas mancha parda, queima das bainhas, mancha dos grãos e cárie do grão também podem causar perdas. Como identificá-las e, sobretudo, enfrentá-las?

Engenheiro agrônomo, doutor, fitopatologista Claudio Ogoshi, pesquisador do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) Divulgação

O setor orizícola do Rio Grande do Sul está com excelentes expectativas com a safra 2016/17, visto que a previsão climática é de ano neutro, ou de La Niña. E, historicamente, as maiores médias nas produtividades obtidas no estado foram em anos com esse fenômeno climático. Entretanto, apesar de a tendência ser de um ano agrícola mais seco do que o passado, a ocorrência de doenças é fator que pode vir a ser limitante a altas produtividades. Diante disso, a seguir serão abordadas brevemente as principais doenças do arroz irrigado que podem se tornar um problema para os orizicultores nesta safra.

Brusone: é a principal doença do arroz irrigado e pode ocasionar perdas de até 100% na produtividade. A mesma pode ocorrer em todas as partes aéreas da planta, desde os estágios iniciais de desenvolvimento, até a fase final de maturação dos grãos. Os principais sintomas ocorrem nas folhas e nas panículas, ocorrendo perdas na produtividade devido à redução da área foliar fotossintetizante e, principalmente, impedindo o enchimento dos grãos, ficando “chochos” e estéreis. Os principais fatores para a sua ocorrência são os seguintes: utilização de cultivares suscetíveis, épocas de semeadura tardia, adubação nitrogenada em excesso e condições climáticas favoráveis, com temperatura ideal entre 25º e 28ºC e 90% de umidade. As maiores incidências da doença no estado são relatadas nas regiões da Depressão Central e Planície Costeira Externa. Entretanto, em todas as outras regiões há relatos, especificamente, em plantios tardios e a utilização de cultivares muito suscetíveis.

Mancha parda: é uma doença que vem preocupando os agricultores. Apesar de não ter relatos de grandes perdas na produtividade, por aparecer mais no final do ciclo, acarreta redução no rendimento de engenho, prejudicando a qualidade final do arroz e reduzindo a qualidade fitossanitária das sementes as quais têm a germinação grandemente afetada. A doença é favorecida por solos pobres em nutrientes, principalmente arenosos, devido à deficiência de potássio que naturalmente esses solos apresentam, sendo encontrados principalmente na região da Planície Costeira Externa e também em lavouras que apresentam problemas de irrigação, já que a deficiência hídrica deixa as plantas de arroz mais suscetíveis às doenças.

A brusone é a principal doença do arroz irrigado, pode provocar perdas de até 100% na produtividade, e ocorre em todas as partes aéreas da planta, desde os estágios iniciais de desenvolvimento, até a fase final de maturação dos grãos

Queima das bainhas: tem alto potencial destrutivo, pois pode provocar acamamento e morte das plantas atacadas. Tem-se observado o aumento de sua incidência nas lavouras orizícolas do estado, possivelmente devido ao aumento da rotação de arroz com a soja, a qual também é hospedeira da doença, utilização de cultivares de alto potencial produtivo com alta capacidade de perfilhamento e o aumento da adubação nitrogenada. A doença é causada pelo fungo Rhizoctonia solani, o qual apresenta vários hospedeiros alternativos, sobrevive em restos culturais, como resteva de arroz e soja, e apresenta estruturas de resistência chamadas de escleródios, o que dificulta o seu controle. As fases de desenvolvimento do arroz que são mais suscetíveis estão entre o perfilhamento e a floração plena.

Mancha de grãos: não tem um agente etiológico específico, ou seja, é causada por vários microorganismos, particularmente fungos e bactérias. A doença é favorecida pela ocorrência de chuvas e alta umidade durante o enchimento dos grãos, por solos arenosos pobres em nutrientes, principalmente o potássio, e também naquelas lavouras semeadas em épocas tardias, no final de novembro e início de dezembro. Além disso, a ocorrência de frio e o ataque do percevejo Oebalus poecilus danificam os grãos, que servem como porta de entrada para esses microorganismos, consequentemente manchando os grãos. As principais perdas ocasionadas são a redução no rendimento de grãos inteiros, depreciando sua aparência e qualidade, e da redução da sanidade das sementes de arroz.

A mancha parda vem preocupando os agricultores, e apesar de não ter relatos de grandes perdas na produtividade, por aparecer mais no final do ciclo, prejudica a qualidade final do arroz

Cárie do grão: tem ocorrido esporadicamente nas lavouras do Rio Grande do Sul. Nas safras 2005/06 e 2006/07 houve alta incidência em que, em muitos casos, era possível ver nuvem escura de esporos durante a colheita e acúmulo de pó preto com os grãos do arroz depositados no graneleiro. Diversos produtores e técnicos relatam que a incidência dessa doença ocorre normalmente em anos secos. Diante disso, os produtores devem ficar em alerta, já que a previsão atual é que a safra 2016/17 seja mais seca do que o normal. O principal prejuízo é na qualidade dos grãos e das sementes, afetando principalmente a aparência e a germinação.

Vírus do enrolamento do arroz: a doença, conhecida como enrolamento do arroz, é causada pelo vírus Rice Stripe Necrosis Virus (RSNV), que é transmitido para a planta através de um vetor, o protozoário Polymyxa graminis, habitante natural dos solos. Na safra 2015/16 houve diversos relatos da ocorrência em lavouras da Depressão Central e Campanha, incluindo a morte de plantas. Infelizmente, por ser uma doença emergente, poucos estudos foram feitos a respeito do manejo da mesma. O que se sabe é que o produtor tem que adotar estratégias visando à prevenção da doença, principalmente impedindo a introdução em lavouras ainda isentas. Os principais sintomas da doença iniciamse cerca de 30 a 40 dias após a semeadura e caracterizam-se por morte de plântulas, plantas com nanismo e excesso de afilhamento, folhas com listras amareladas e retorcidas ou enroladas e panículas deformadas. As raízes das plantas infectadas dobram-se e rapidamente tornam-se necróticas, cheirando a “podre”, servindo como sinal da ocorrência da doença.

Principais estratégias de manejo integrado — O conhecimento adequado das doenças que atacam o arroz é fundamental para a adoção correta de estratégias de manejo, sendo, em muitos casos, as mesmas práticas já recomendadas pelo Projeto 10, do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), que visa à obtenção de altas produtividades de arroz. A seguir algumas das práticas.

Utilização de cultivares resistentes: a utilização da resistência genética é a principal tática a ser utilizada no manejo integrado de qualquer doença de plantas. Visto que é a forma mais fácil, eficiente, de baixo custo e de menor impacto ambiental no manejo, colaborando com o conceito de uma produção agrícola com sustentabilidade. Um exemplo disso é a cultivar Irga 424 RI que foi lançada em 2013 como resistente a brusone na folha e na panícula, e, felizmente, apesar de ter sido plantada em uma área de aproximadamente 160 mil hectares na safra 2015/16, manteve-se resistente a essa doença. Esse conhecimento é importante no momento da escolha do fungicida, pois, por enquanto, não precisa aplicar o fungicida dito “brusonicida” na cultivar Irga 424 RI.

Semeadura na época recomendada: é uma ferramenta importante para os orizicultores no manejo integrado das doenças, pois evita que os pe-ríodos críticos de suscetibilidade das plantas de arroz coincidam com condições ambientais mais favoráveis ao desenvolvimento das mesmas. Pelo Projeto 10 foram estabelecidas as épocas mais adequadas para a semeadura do arroz irrigado visando a altas produtividades, períodos que vão até o início de novembro, independentemente da região orizícola.

Adubação equilibrada: é um dos componentes essenciais a ser incluído no manejo das doenças, pois plantas com excesso ou deficiência de um determinado nutriente são mais predispostas ao ataque. A aplicação excessiva de ureia visando principalmente à obtenção de altos rendimentos em cultivares suscetíveis à brusone vem agravando ainda mais a situação da doença no estado, pois o excesso de nitrogênio, além de desequilibrar a absorção de outros nutrientes, promove condições favoráveis ao Irga Produtores e técnicos relatam que a incidência da cárie do grão ocorre normalmente em anos secos, ou seja, como deverá ser este 2017, segundo as previsões ataque das doenças, devido à redução da espessura das paredes celulares, tornando- as mais fracas. Outro nutriente fundamental é o potássio, sendo que em solos pobres nesse elemento, principalmente os arenosos, a deficiência favorece o ataque da mancha parda e de outras doenças.

Manejo adequado de plantas daninhas e insetos: diversas plantas daninhas são fontes de sobrevivência e de inóculo para muitos patógenos que atacam o arroz. Fato que torna fundamental a realização do manejo adequado das mesmas durante a safra e também na entressafra visando reduzir o inóculo inicial desses patógenos e, consequentemente, iniciar uma safra de arroz com menor pressão das doenças. Além das plantas daninhas, os insetos muitas vezes também auxiliam no aumento da incidência das doenças, como, por exemplo, a picada do percevejo-do-grão, que auxilia na infecção de diversos patógenos que causam a mancha de grãos. Diante disso, o monitoramento e o manejo correto desse inseto contribui significamente para o controle da doença.

Aplicação de fungicidas: são muito importantes no controle de doenças de plantas. Entretanto, não se deve considerá- los como única estratégia de controle, e sim como parte do manejo integrado das doenças. Os fungicidas recomendados para as doenças do arroz irrigado estão listados nas Recomendações Técnicas da Pesquisa Para o Sul do Brasil (Sosbai, 2014). Mas tão importante quanto a escolha dos produtos químicos, o momento de aplicação é fundamental, possibilitando maiores chances de sucesso no controle. Para a brusone, cárie e falso carvão, o ideal é a aplicação no final do emborrachamento (estádio de desenvolvimento R2), pois caso a aplicação seja realizada com a doença já instalada, a eficiência do controle é baixa e as perdas ocasionadas pelas doenças já foram significativas. Já para as doenças de final de ciclo, a aplicação em florescimento pleno é satisfatória.

Outras medidas importantes no manejo das doenças do arroz: Utilização de sementes certificadas com alta qualidade fisiológica e sanitária;

? manejo adequado da lâmina de água de irrigação;

? densidade de semeadura adequada;

? sistematização da lavoura adequadamente, evitando reboleiras com focos da doença.

Produtores e técnicos relatam que a incidência da cárie do grão ocorre normalmente em anos secos, ou seja, como deverá ser este 2017, segundo as previsões