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A CHINA e o consumo fabuloso de 100 milhões de toneladas

A soja é produzida em diversos países, mas apenas uma dezena é exportadora, sendo que os chineses importam 86 milhões de toneladas – 21,5 vezes mais que o segundo colocado

Os Estados Unidos são os maiores produtores de soja, com safra estimada neste ano em 118 milhões de toneladas, e até os anos 1980 eram o único grande exportador da oleaginosa

Principal commodity agrícola do mundo em termos de valor, a soja deve atingir uma produção de 336 milhões de toneladas nesta safra 2016/ 17, de acordo com a última estimativa do Conselho Internacional de Grãos (IGC, sigla em inglês). Plantada atualmente em muitos países, apenas poucos a cultivam em larga escala – sendo que menos de dez são exportadores. Segundo dados divulgado em novembro pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), quem lidera a produção nesta temporada são os Estados Unidos, com 118,69 milhões de toneladas, acompanhados de perto pelo Brasil, com 103,6 milhões Leandro Mariani Mittmann de toneladas. Em terceiro lugar, a Argentina (57 milhões), seguida pela China (12,5 milhões), Índia (9,7 milhões), Paraguai (9,1 milhões), Canadá (6 milhões) e Bolívia (3,1 milhões). O restante do mundo produz 21,029 milhões de toneladas.

Até o início dos anos 1980, o único país que produzia soja significativamente para exportação eram os Estados Unidos. Foi nessa década que começou um crescimento exponencial do cultivo da oleaginosa na América do Sul, especialmente no Brasil. Também se verifica um grande potencial em alguns países africanos, em função de clima e fertilidade das terras, mas sua comercialização é dificultada em função da precária infraestrutura desses países. “Países como Angola, Sudão e Moçambique, entre outros, já possuem área plantada de soja e vêm sendo considerados, junto à África do Sul, novas fronteiras para a expansão do cultivo da soja no mundo”, aponta Lucas Eduardo Trindade de Brito, assistente executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

China e Índia utilizam a maior parte da produção para o consumo interno, enquanto que os demais grandes produtores a destinam à exportação. Em muitos países da Europa (como a Itália, por exemplo), o cultivo comumente é feito de maneira orgânica, em hortas, sendo processado internamente na propriedade e indo direto para a mesa dos restaurantes. Nas Américas, onde o cultivo é muito mais intensivo, a finalidade é principalmente o processamento e a industrialização. De acordo com dados da comercializadora e processadora internacional Bunge, aproximadamente 75% da soja produzida no mundo é utilizada para consumo animal, podendo ser bovino, suíno ou avícola. Outro consumo importante é na produção de óleo de cozinha: cerca de 19% é destinado a esse fim, sendo o restante transformado em produtos diversos para a alimentação humana. Apenas 2% é direcionado para os biocombustíveis, como o biodiesel.

Principais importadores/ consumidores — O país que mais importa a oleaginosa, muito além de qualquer equiparação com outros, é a China, com 86 milhões de toneladas. Na sequência, muito distantes, Índia (com 4 milhões de toneladas), Vietnã (3,4 milhões), União Europeia (2,7 milhões), Taiwan (2,2 milhões), Indonésia (2 milhões), Japão (1,8 milhão) e Coreia do Sul (1,4 milhão).

Para a próxima safra, a Anec aponta como os principais consumidores de soja no mundo, em primeiro lugar, a China, com 100,8 milhões de toneladas, seguida pelos Estados Unidos, com 56 milhões, Argentina (48,7 milhões) e Brasil (44,1 milhões). “Como é possível observar, dentre os principais consumidores, somente a China não tem produção suficiente para atender sua demanda interna, razão pela qual é o destino principal das exportações de soja no mundo”, explica Brito.

A Carlos Cogo Consultoria Agronômica projeta uma expansão da demanda mundial na ordem de 4,2% nesta temporada 2016/17. O número significaria uma leve desaceleração no crescimento da demanda em relação à temporada anterior de 2015/16, quando cresceu 4,9%. Há uma forte tendência de crescimento no consumo de farelo de soja, que vem se avolumando desde anos anteriores em vários países asiáticos. Enquanto isso, a Índia deve dobrar suas importações de óleo de soja nos próximos anos devido ao forte crescimento de sua economia. Diferentemente dos demais países asiáticos, a Índia compra o produto final, e não a oleaginosa em grão. Os países europeus em muitos casos compram biodiesel, mas esse crescimento depende de políticas governamentais.

Mesmo com as projeções animadoras para a próxima safra, devido às perdas na produção de soja na safra 2015/16 (principalmente no Brasil), a produção deverá ser suficiente apenas para recompor os estoques mundiais, equilibrando o balanço global de oferta e demanda pelo grão. “Com essa recomposição, nossa projeção é de que os preços se mantenham próximos aos níveis de hoje, cotado entre US$ 10,45 e US$ 10,70 por bushel – algo entre US$ 380 e US$ 400 por tonelada –, com possibilidade de viés de alta no pico da safra, entre os meses de abril e julho de 2017”, projeta o executivo da Anec. De acordo com a Carlos Cogo, a tendência é de que os preços futuros da soja sigam dentro do intervalo entre US$ 10 e US$ 11, com o mercado já tendo precificado a safra recorde nos Estados Unidos. Isso porque a forte demanda global está anulando os possíveis efeitos baixistas da colheita da safra recorde nos Estados Unidos.