Sustentabilidade

 

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A soja produzida no Brasil é, sobretudo, sustentável, tanto social como ambientalmente, devido às inúmeras iniciativas de empresas, instituições e entidades – além de produtores

Uma das muitas razões de o Brasil ser o maior exportador de soja é que o produto produzido aqui tem um verdadeiro passaporte, com o seguinte carimbo: “Social e ambientalmente sustentável”. São diversas, entre nacionais e locais, as iniciativas para que a soja cultivada em solo brasileiro não seja gerada a partir da agressão à dignidade do trabalhador ou a áreas de preservação. Até satélite, por exemplo, é usado para garantir que nenhuma árvore da Floresta Amazônica seja derrubada e no ambiente plantadas sementes da oleaginosa em busca do lucro. São diversos os programas ou projetos, tanto de entidades empresariais ou instituições. A seguir, a descrição de apenas três, a Moratória da Soja, a soja certifi- Leandro Mariani Mittmann cada Round Table on Responsible Soy Association (RTRS) e o programa Soja Plus. Mas são muito mais.

Moratória da Soja = desmatamento zero — A Moratória da Soja, assinada em 24 de julho de 2006 pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e suas empresas associadas, é um amplo compromisso o desmatamento zero no Bioma Amazônia. As empresas que adquirem a soja no Brasil deram a palavra de não comprar nem financiar desde então a soja cultivada em áreas desmatadas do bioma. À época, ONGs internacionais como Greenpeace e outras promoveram campanhas com ações diretas no Brasil e na Europa para sensibilizar a indústria da soja para que adotasse medidas visando conter o desmatamento e assim contribuir para a governança ambiental da região.

O resultado prático é que, ao completar uma década da Moratória, o Grupo de Trabalho da Soja (GTS) apurou que os 37,2 mil hectares de soja da safra 2015/2016 em desacordo com a Moratória representam apenas 1,1% da área desmatada no bioma. O Relatório de Monitoramento do Plantio de Soja no Bioma Amazônia naquela safra, elaborado pela Agrosatélite e auditado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que a soja não tem sido relevante para o desmatamento na região, que ocupa quase metade do território brasileiro. “Há um motivo especial para nos alegrarmos porque, além de a soja não ser um vetor importante de desmatamento no bioma Amazônia, construímos ao longo de uma década uma relação especial com a sociedade civil e com o Ministério do Meio Ambiente, baseada em transparência, confiança e credibilidade, aspectos fundamentais para garantir uma mensagem positiva aos consumidores da soja brasileira no exterior”, destaca o presidente da Abiove, Carlo Lovatelli (vide entrevista dele em O Segredo de Quem Faz), coordenador do setor privado no GTS. Em maio do ano passado a Moratória foi estendida por prazo indefinido.

RTRS: certificação global — A Round Table on Responsible Soy Association (RTRS) – no Brasil conhecida como Associação Internacional de Soja Responsável – foi criada em 2006 para permitir um diálogo global entre produtores, organizações da sociedade civil e a indústria sobre a produção de soja economicamente viável, socialmente equitativa e ambientalmente adequada. Assim, esses setores conseguem estabelecer um sistema voluntário de certificação para a produção mundial e o consumo de soja responsável certificada. Integram a RTRS grandes grupos de produtores da oleaginosa, como Maggi e SLC Agrícola, ONGs ambientalistas como a WWF e Solidaridad, além de tradings como Cargill, Bunge e Louis Dreyfus. Todos seguem cinco princípios: cumprimento legal e boas práticas empresariais; condições de trabalho responsáveis; relações responsáveis com as comunidades; responsabilidade ambiental; e boas práticas agrícolas.

O relatório de monitoramento do plantio de soja no Bioma Amazônia em 2015/16, que é elaborado pela Agrosatélite e auditado pelo Inpe, mostrou que a soja não tem sido relevante para o desmatamento na região

A RTRS não audita as empresas em relação ao cumprimento do padrão RTRS, mas reconhece auditores independentes ou os chamados organismos de certificação, que realizam as auditorias in loco. Esses organismos de certificação devem estar também acreditados por organismos de acreditação nacionais ou internacionais. O certificado é válido por cinco anos, e seu cumprimento também é monitorado anualmente por auditorias dos organismos de certificação. No ano passado a soja certificada no mundo foi de 3,3 milhões toneladas, e o Brasil representa 70%, ou 2,3 milhões de toneladas, grãos produzidos em 171 fazendas certificadas aproximadamente, em torno de 700 mil hectares certificados. A previsão é que até 2020 sejam 10 milhões de toneladas certificadas no mundo.

Um exemplo recente da soja RTRS foi a certificação de 120 mil toneladas por meio do projeto Gente que Produz e Preserva, no Mato Grosso, uma ini-ciativa do Clube Amigos da Terra (CAT), de Sorriso/MT. A soja foi produzida em 53.187 hectares de 17 fazendas. “Os pequenos produtores podem se unir e solicitar um certificado único que abrange todos os domínios, compartilhando os custos das avaliações, tanto de certificação, quanto de monitoramento a-nual. Sorriso é o maior município produtor de soja no País e tem potencial para que a produção certificada cresça ainda mais nos próximos anos”, esclarece o consultor externo da RTRS, Cid Sanches.

Soja Plus desperta interesse de europeus — O programa Soja Plus, da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja), com a participação de Abiove, Senar/MT e o Instituto Algodão Social, busca a melhoria contínua de absolutamente tudo o que o produtor faz na sua lavoura e propriedade. “Tem como meta tornar-se o maior programa de gestão de propriedade rural do País, preparando o produtor para atender as demandas de forma mais sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental”, descreve o blog do programa. “Também tem o objetivo de contribuir para a conservação dos recursos naturais, da governança das atividades produtivas e do bem-estar social de trabalhadores, produtores rurais e comunidades locais”.

O Soja Plus capacita gratuitamente produtores por meio de cartilhas e cursos nas áreas de saúde e segurança no trabalho, adaptação ao Código Florestal, adequações das construções rurais, além de promover visitas técnicas a fazendas consideradas modelo. Também são compartilhados entre os produtores os indicadores de desempenho das propriedades. Desde o início do programa, em 2011, mais de mil produtores foram atendidos.

E recentemente a Aprosoja recebeu integrantes do Ministério do Meio Ambiente da Noruega interessados no programa. Os noruegueses manifestaram interesse porque querem investir na chamada “produção verde”, e a proposta do programa seria compatível. Também a Holanda, através da Iniciativa para Comércio Sustentável (IDH, na sigla em inglês), entidade daquele país sem fins lucrativos que é focada na produção de soja de maneira sustentável no Brasil para importação de países europeus, veio conhecer de perto o Soja Plus. Segundo a gerente de Pesquisa e Gestão da Produção, Cristiane Sassagima, o interesse de países europeus é um indicativo da qualidade e importância do programa. “O programa é completo e importante para o produtor, tanto que, a cada ano, desde sua criação, o Soja Plus cresceu e evoluiu consideravelmente”.