Exportação

 

O ALICERCE da balança comercial brasileira

O complexo soja representa sozinho um sexto das exportações totais brasileiras, e mais de 60% do superávit da balança comercial. O Brasil tem uma fatia de 42% de toda a soja exportada no mundo, o que faz do País o maior vendedor externo

Leonardo Gottems

Por toda a dimensão que atingiu nas últimas décadas – quando foi a cultura brasileira que mais cresceu, ocupando 49% da área plantada em grãos –, a soja assumiu o posto de principal commodity de exportação do País ao superar o minério de ferro, com negociações anuais que ultrapassam, em média, os US$ 20 bilhões. Indo além, trata-se da maior geradora de divisas cambiais na balança comercial, com o “complexo soja” (englobando soja em grão, farelo de soja e óleo de soja) respondendo por 15,8% das vendas externas brasileiras totais, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

De janeiro a outubro do ano passado, as vendas externas dos três produtos da oleaginosa renderam aproximadamente US$ 24,227 bilhões. Desses, a soja em grão participa com 78,1%, enquanto o farelo entra com 18,7% e o óleo, com apenas 3,2%. Se for considerado desde o início da Safra 2015/ 16 (período que começou no mês de setembro do primeiro ano de referência), os números de exportações crescem para US$ 28 bilhões totais, de acordo com a Agrostat, a base de dados e estatísticas de comércio exterior do agronegócio brasileiro mantida pelo Ministério da Agricultura. Nessa compilação, os grãos significaram US$ 21,0 bilhões (54,3 milhões de toneladas), enquanto o farelo rendeu US$ 5,8 bilhões (14,8 milhões de toneladas) e o óleo, US$ 1,2 bilhão (1,7 milhões de toneladas).

O peso da soja foi decisivo para o superávit brasileiro: como as importações dessa commodity em grãos, farelo e óleo são pouco significativas, o saldo da balança comercial do complexo soja é sempre positivo. O superávit acumulado totalizou, até outubro, US$ 24,065 bilhões, o que representa nada menos que 62,47% do saldo da balança comercial brasileira, que foi de US$ 38,519 bilhões no mesmo período.

Maior exportador — O Brasil figura atualmente como o maior exportador mundial, com fatia de 42% (safra 2016/17) contra 40% dos Estados Unidos. No terceiro lugar, mas bem distantes dos líderes, aparecem a Argentina, com 8%, e Paraguai (4%), enquanto os outros países somados chegam a 6% do mercado mundial, de acordo com levantamento da Carlos Cogo Consultoria Agronômica.

A soja em grão (in natura) tem como principal destino histórico a China. Segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), cerca de 75% do grão exportado foi desembarcado nos portos do gigante asiático. A União Europeia absorveu entre 12% e 15% do volume total exportado, principalmente destinados à Espanha e à Holanda. Outros países da Ásia, tais como Vietnã, Taiwan e Tailândia, receberam outros 12%. O restante foi dividido entre países do Oriente Médio e África.

Segundo a Abiove, o farelo proteico, obtido por meio do processamento da soja em grão e utilizado na formulação de ração animal, foi exportado principalmente para a União Europeia (56%) e para a Ásia (41%) nos dez primeiros meses de 2016. Já o óleo de soja, outro produto resultante do processamento do grão e largamente utilizado pelas indústrias de alimentação, de biocombustíveis e químicas, foi expedido especialmente para a Ásia (80%). A África recebeu outros 12% e a América Latina ficou com cerca de 8% das exportações brasileiras do produto.

Tanto a Anec como a Abiove têm projeções um pouco mais cautelosas sobre o resultado final da Safra 2015/ 16 em relação ao Ministério da Agricultura. Segundo essas entidades, o Brasil vai exportar entre 50 milhões e 51,7 milhões de toneladas em grão, outros 14,4 milhões de toneladas de farelo e ainda 1,35 milhão de toneladas de óleo (bruto e refinado). As vendas externas desses produtos devem render mais de US$ 25,1 bilhões nesta Safra.

Para a safra 2016/17 projeta-se a exportação de 57,5 milhões de toneladas do grão. O resultado representa expansão de 11,2% na comparação com as estimativas da safra anterior. Seriam ainda vendidas ao exterior 15,5 milhões de toneladas de farelo, o que significa uma variação positiva de 7,6%. Já no óleo, o resultado obtido seria o mesmo 1,35 milhão de toneladas. A Abiove projeta que as exportações do complexo soja totalizarão, na safra 2016/2017, US$ 26,1 bilhões – aumento de 3,8% (pelo câmbio atual)

É extremamente positiva a projeção de participação de mercado que o Brasil pode alcançar no futuro. Com a conversão de pastagens degradadas e o desenvolvimento de tecnologias que garantem aumento de produtividade, o Brasil tende a ser o maior produtor e fornecedor de soja na próxima década, superando os Estados Unidos.

De acordo com a Cogo Consultoria, há uma projeção de expansão de 2,3% da área de cultivo da soja na safra 2016/2017, para 34 milhões de hectares. A Região Centro-Oeste deve mais uma vez concentrar a maior produção, com 45%, seguida pela Região Sul, com 35%, e tendo logo em seguida a região do Matopiba (11%) e Região Sudeste (7%). As demais regiões brasileiras respondem pelos outros 2%. Em matéria de produção, a safra 2016/17 deverá atingir, segundo estimativas iniciais, 103,6 milhões de toneladas, superior aos 95,4 milhões de toneladas de 2015/16, em função das quebras de então na Região Centro- Oeste e do Matopiba.

Agregar renda — Na avaliação da Abiove, porém, o desafio é elevar a agregação de valor, a geração de empregos e a exportação dos produtos. A competitividade da indústria brasileira, que opera com tecnologia semelhante à das indústrias dos países concorrentes, é enfraquecida por políticas públicas equivocadas, no campo da tributação, da logística e da infraestrutura. “O Brasil tem vocação para produzir alimentos para o mundo, e isso deverá se intensificar no futuro no setor exportador de soja. Projeções indicam que antes de 2025 o País deverá se tornar o principal produtor de soja do mundo, consolidando-se definitivamente como o principal exportador do grão, posto esse que hoje reveza entre os anos com os Estados Unidos”, avalia Lucas Eduardo Trindade de Brito, assistente executivo da Anec. “Ainda há muita área já aberta, antigamente ocupada por pastagens, que deverá ser convertida para o plantio de soja nas próximas safras. Isso coloca o País em uma posição muito confortável, capaz de se posicionar no mercado mundial como o país produtor com maior potencial de expansão agrícola sustentável”.