Tecnologia

 

O BOOM brotou de muitas evoluções e revoluções

São muitos os marcos tecnológicos que levaram a cultura a saltar de 171 mil hectares nos anos 1960 para os 33 milhões atuais. Os desafios foram muitos, inclusive de adaptação da planta a um ambiente que não era o dela: o Centro-Oeste

Alexandre José Cattelan, pesquisador da Embrapa Soja

Embora os primeiros registros da soja no Brasil remontem ao final do século XIX, o boom da cultura começou apenas nos anos 1960. Nessa década, a área cultivada aumentou 5,3 vezes (171 mil hectares em 1960 para 906 mil em 1969), consolidando-se comercialmente. De 1970 até a safra 2015/ 16, a área aumentou 25,5 vezes (1,3 milhão de hectares para 33,2 milhões) enquanto a produção aumentou 63,7 vezes (1,5 milhão de toneladas para 95,6 milhões). Isso foi possível em função do grande aumento da produtividade por área (1.150 quilos/hectare para 3 mil), o que fez do Brasil o segundo maior produtor mundial da oleaginosa e o maior exportador. Na última safra, o Brasil produziu 30% de toda a soja produzida no mundo (quase 100 milhões de toneladas um total de 312 milhões).

Muitas coisas aconteceram nesse meio tempo. Uma delas foi que a cultura expandiu-se gradativamente do Sul do País em direção ao Centro-Oeste. Dois fatores foram fundamentais para que isso ocorresse. O primeiro foi a “domesticação” dos solos do Cerrado, naturalmente de baixa fertilidade. O segundo foi o desenvolvimento de cultivares de soja adaptadas a latitudes menores e a temperaturas mais altas (soja tropical). As primeiras cultivares de soja cultivadas no Brasil eram oriundas dos Estados Unidos e só se adaptavam à Região Sul (latitudes mais altas e temperaturas mais amenas). Hoje, mais de 60% da soja é produzida na Região Central. Esse crescimento ainda deve continuar, assim como em outras fronteiras agrícolas, com a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia), em função, principalmente, da conversão de áreas de pastagens degradadas.

Esse crescimento vertiginoso ocorreu apesar de grandes desafios que foram surgindo ao longo do tempo. Um dos primeiros grandes desafios fitossanitários enfrentados pela cultura foi o aparecimento do cancro da haste, doença identificada no Paraná em 1989. Essa doença, causada pelo fungo Diaporthe phaseolorum f. sp. meridionalis (sin. Diaporthe aspalathi), pode ocasionar grande perda. Por isso, todo o germoplasma de soja suscetível à doença, na época, teve que ser substituído por materiais resistentes. Ainda hoje, todas as cultivares de soja desenvolvidas devem ser resistentes a essa doença.

Pouco tempo depois (safra 1991/92), foi identificado o nematoide de cisto (Heterodera glycines) no Cerrado. Hoje, esse nematoide ocorre nos principais estados produtores, abrangendo uma área de mais de 3 milhões de hectares. O nematoide penetra nas raízes da planta e dificulta a absorção de água e nutrientes, resultando em porte reduzido e clorose (amarelecimento) na parte aérea. Daí a doença ser conhecida como nanismo amarelo da soja. Existem várias raças desse nematoide. As cultivares são desenvolvidas para serem resistentes ou tolerantes às principais raças existentes na região de indicação. Ainda não há cultivar resistente a todas as raças conhecidas.

A ferrugem-asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, foi identificada no Brasil na safra 2001/02. Trata-se de uma doença com um dos potenciais de dano mais devastadores para cultura. Até a entrada dessa doença no País, praticamente não se aplicava fungicida em soja, embora as doenças de final de ciclo já estivessem presentes. Com o advento da doença, isso mudou drasticamente. Além disso, os melhoristas foram buscar fontes genéticas de tolerância/ resistência à doença. Embora existam algumas fontes, que estão ainda sendo incorporadas às cultivares desenvolvidas, nenhuma confere resistência total e/ou duradoura. A aplicação de fungicidas ainda é indispensável. Outro agravante é que o fungo causador apresenta grande capacidade de adaptação, fazendo com que os fungicidas percam efetividade após alguns ciclos de uso.

Ferrugem e helicoverpa assustaram — A doença ocasionou duas grandes mudanças no sistema produtivo. A primeira foi a antecipação da época de semeadura e a escolha de cultivares com ciclo mais curto, para tentar escapar da época de maior presença de esporos do fungo, que ocorre mais tarde durante a safra. A segunda foi a implantação do vazio sanitário. Trata-se de um período em que não pode haver plantas vivas de soja no campo. Esse período sem plantas hospedeiras busca reduzir a quantidade de esporos do fungo causador da ferrugem durante a entressafra. O período varia de 60 a 90 dias e foi estabelecido considerando que o tempo máximo de sobrevivência dos esporos no ar é de 55 dias.

Na safra 2012/13, a lagarta Helico verpa armigera foi identificada em lavouras da Bahia. Inicialmente, pensou-se que essa lagarta pudesse representar grande potencial de dano às lavouras de soja em todo o País. Porém, após esse temor inicial, ficou claro que ela é importante apenas em algumas regiões e em certas situações específicas. Normalmente, só causa prejuízos significativos onde o ambiente encontra-se desequilibrado em função do manejo da cultura mal feito, em especial, pelo excesso de aplicação de agroquímicos, com mortalidade dos inimigos naturais.

O advento da biotecnologia também impactou tremendamente o sistema produtivo da soja. Embora o uso de culturas transgênicas só tenha sido permitido a partir da safra 2004/05, em função da aprovação da lei de Biossegurança (nº 10.814, de 15 de dezembro de 2003, posteriormente modificada pela Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005) a soja Roundup Ready (soja RR) começou a ser cultivada no Rio Grande do Sul na safra 1996/97. Eram cultivares contrabandeadas da Argentina e conhecidas como soja “Maradona”. Até então, praticamente 100% das cultivares utilizadas no Brasil eram de tipo de crescimento determinado: após o início do florescimento, a planta cresce pouco e não mais ramifica; o florescimento ocorre praticamente ao mesmo tempo, em toda a extensão da planta.

A soja originária da Argentina era, em sua grande maioria, constituída por materiais de crescimento indeterminado. Até o início do florescimento, apenas cerca de metade da estatura final das plantas é atingida, portanto, após esse estádio, a planta ainda apresenta grande crescimento. E o florescimento ocorre de forma escalonada, de baixo para cima na planta. As cultivares de crescimento indeterminado apresentam maior flexibilidade quanto à época de semeadura e arquitetura de plantas que facilita a aplicação de agroquímicos.

PD viabilizado — A tolerância da soja RR ao glifosato e a redução do custo desse herbicida em função de ter vencido sua patente (tornou-se um genérico) viabilizou definitivamente o plantio direto. A maior limitação para a ampla adoção do sistema era a dificuldade para o controle das plantas daninhas. A área com plantio direto passou de menos de 4 milhões de hectares na safra 1994/95 para mais de 30 milhões atualmente.

O enfrentamento a doenças como a ferrugem e a pragas como a helicoverpa foram alguns dos desafios, e que promoveram inclusive mudanças no sistema produtivo brasileiro

A maior flexibilidade quanto a época de semeadura dos materiais de crescimento indeterminado, o desenvolvimento de cultivares com ciclo mais curto e o plantio direto viabilizaram a segunda safra de milho (milho safrinha). Nesse período, a área de milho safrinha cresceu, aproximadamente, de 2 milhões de hectares para quase 11 milhões na safra de 2016. Já o milho safra decresceu proporcionalmente e, hoje, representa metade da área do milho safrinha.

Para viabilizar a safrinha de milho e diminuir a incidência da ferrugem, a tendência dos produtores é semear a soja logo após o término do vazio sanitário, quando a presença do inóculo do fungo causador da ferrugem é bastante baixa. Em alguns estados, especialmente no Cerrado onde o inverno é seco, a antecipação da época faz com que, muitas vezes, a semeadura seja feita com umidade insuficiente do solo. Além disso, a colheita antecipada ocorre durante o período de maior incidência de chuvas, ocasionando perda de qualidade dos grãos colhidos.

Apesar dessa grande mudança no sistema produtivo, com antecipação da semeadura e consequente deslocamento do período ideal para cultivo da soja e a diminuição do ciclo das cultivares, mesmo assim não houve decréscimo da média de produtividade, que se situa ao redor dos 3 mil quilos/hectare. Não obstante, embora a média não tenha diminuído, também não tem aumentado nos últimos anos, em função das limitações impostas à cultura. Ainda assim, quando se compara a média da produtividade da soja brasileira com os principais países produtores, como Estados Unidos e Argentina, o Brasil encontra- se no mesmo patamar.

Outros fatores que tem contribuído para a estabilização da produtividade média nos últimos anos são a dessecação antes da maturação fisiológica dos grãos, para antecipar a colheita, a dificuldade de controle de plantas daninhas resistentes ao herbicida glifosato (usado na soja RR), a falta de rotação de culturas, o desequilíbrio nutricional em função de adubações mal feitas e o cultivo em áreas marginais. Enquanto não houver alteração no sistema produtivo, com o retorno às condições mais propícias para a expressão do potencial produtivo das cultivares de soja, a pesquisa terá que buscar soluções tecnológicas para que a produtividade continue avançando.

Apesar das dificuldades, a expectativa continua sendo muito positiva. Os preços competitivos do grão, especialmente agora que a taxa de câmbio está valorizada, e a crescente demanda mundial, especialmente da China, fazem com que o mercado continue crescendo ano a ano. O Brasil apresenta ótimas vantagens competitivas em relação a outros países produtores, especialmente no tocante à disponibilidade de terras, clima adequado, alto nível tecnológico dos produtores e disponibilidade de tecnologia de produção adequada às condições tropicais. Os maiores entraves dizem respeito à deficiência em infraestrutura, especialmente estradas e vias de transporte, instalações de armazenamento e portos. É indispensável que o Governo invista em infraestrutura e logística para que o agronegócio continue sendo o motor que impulsiona o crescimento da economia brasileira!