Números

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Um MEGANEGÓCIO de mais de US$ 92 bilhões

A soja movimenta no agronegócio brasileiro estatísticas impressionantes, como um terço do faturamento da agricultura e um quarto de toda a agropecuária, além de representar 10% de tudo o que Brasil exporta. Essas e outras cifras estratosféricas começam a partir do trabalho de 215 mil produtores

Carlos Cogo, da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica

O Brasil é o maior exportador mundial de soja e o segundo maior produtor global, atrás apenas dos Estados Unidos. A soja é uma das principais fontes de divisas do País, respondendo por 10% das exportações totais e 22% das exportações do agronegócio. Do faturamento total da agricultura brasileira, estimado para 2017 em R$ 375 bilhões, R$ 133 bilhões virão da soja – nada menos do que 35% do total. Considerando todo o faturamento bruto do setor agropecuário brasileiro, incluindo lavouras e pecuária, estimado em R$ 562 bilhões em 2017, 24% serão gerados pela soja. São 215 mil produtores com uma geração de 1,4 milhão de empregos diretos e indiretos na cadeia produtiva. Mas o setor produtivo passa por um processo de concentração: 35 mil produtores de soja – que representam 16% do total – já respondem por 82% da safra brasileira.

O complexo soja permite a produção de carnes, óleo para consumo humano e industrial, biodiesel e produtos da indústria química, dentre muitos outros usos. Dentre os grãos, é o que apresenta a maior expansão de consumo em termos globais. De 1990 a 2016, o consumo mundial de todos os grãos cresceu 74%, mas o da soja se expandiu em 207%, contra 108% do milho, 46% do arroz e 36% do trigo. Há um aumento do consumo de proteínas animais (carnes, ovos e laticínios) e a demanda por farelo e óleo de soja cresce a um ritmo mais acelerado que o de outras commodities, para acompanhar essa expansão. Ocorre ainda um aumento acentuado da produção intensiva e os sistemas de pastagens irão gradualmente ser substituídos pela produção industrial de carnes, principalmente frangos e suínos, demandando cada vez mais o farelo de soja.

Muitos países têm limitações para expandir a área e a produção de oleaginosas, como a China e alguns países do Norte da África, do Oriente Médio e do Sul da Ásia, tendo investido fortemente na capacidade de esmagamento nos últimos anos. Brasil, Estados Unidos e Argentina devem responder por 88% das exportações globais de soja, de farelo e de óleo de soja durante a próxima década. As importações da China subiram muito rapidamente e representam 60% do comércio mundial. Os países em desenvolvimento desenvolvimento estão aumentando sua participação na renda global, principalmente nas economias emergentes. Projeta- se maior crescimento nos países do Sudeste Asiático e da América Latina. Há maior crescimento da população e alteração no perfil demográfico em países emergentes, com restrições físicas e ambientais para abertura de novas áreas. Existe amplo espaço para o crescimento da demanda dos produtos do complexo soja, sobretudo nos países em desenvolvimento.

Com uma produção estimada em 105,7 milhões de toneladas na safra 2016/17, em 33,6 milhões de hectares, a cadeia produtiva da soja deve movimentar US$ 92,5 bilhões, sendo US$ 33,5 bilhões no processo produtivo – que envolve sementes, fertilizantes, agroquímicos, maquinário, plantio e mão de obra – e outros US$ 59 bilhões na movimentação e estocagem da safra e nas exportações. As lavouras de soja vão gerar uma renda equivalente a US$ 40 bilhões em 2017, agregando US$ 6,5 bilhões no processo produtivo. As exportações do complexo soja (grãos, farelo e óleo) devem responder por US$ 29 bilhões, com projeção de embarques de 58,5 milhões de toneladas de grãos, 16 milhões de toneladas de farelo e 1,5 milhão de toneladas de óleo.

O complexo soja permite a produção de carnes, óleo para consumo humano e industrial, biodiesel e produtos da indústria química. A tecnologia é avançada, com produtos de alta qualidade, liderança em baixos custos de produção e economia de escala. O gerenciamento é profissional tanto no setor produtivo quanto no segmento agroindustrial. Porém, a indústria de processamento tem a competitividade ameaçada por barreiras tarifárias e comerciais e distorções tributárias internas. A legislação brasileira eleva as exportações de soja em grãos e desestimula as vendas externas de farelo e de óleo de soja.

Desafios da cadeia — O Brasil precisará superar os principais gargalos logísticos (matriz de transporte e infraestrutura portuária), incentivar a abertura de mercados externos e a agregação local de valor (política tributária e desenvolvimento de mecanismos de proteção ao produtor contra adversidades climáticas (seguro agrícola eficiente).

Enquanto a soja percorre mais de 2 mil quilômetros de Sorriso/MT até o Porto de Santos/SP para ser despachada com destino à China, por exemplo, na Argentina, a distância entre a região produtora do grão até o porto não passa de 500 quilômetros.

O fato é que a produção de soja na Região Centro-Oeste é altamente competitiva “dentro da porteira”, mas apresenta grandes restrições logísticas. No Centro-Oeste, 25% da receita das vendas de soja estão comprometidos com os custos internos de transportes, em decorrência do tipo – predominantemente rodoviário, em deterioração – e pela inexistência de uma rede estruturada e eficiente de transportes hidroviário e/ou ferroviário para o escoamento da produção. Já a despesa média de transportes para um produtor nos Estados Unidos não supera os 10%.

A produção de soja no Centro-Oeste apresenta excelentes ganhos de produtividade e com isso desenvolveu uma sólida competitividade internacional. Contudo, mesmo após décadas de consolidação na região, o setor é penalizado pela falta de investimentos em infraestrutura de transportes adequada. Observa-se ainda uma expansão da cultura de soja para outras regiões brasileiras, como o Nordeste do Maranhão, Nordeste e sudeste do Pará, Tocantins e o Centro-Sul do Piauí, sem acompanhamento do crescimento na capacidade dos portos de exportação e condição da infraestrutura de transportes.

O bioma Cerrado tem 204 milhões de hectares, dos quais 103 milhões (50,5%) são cobertos com vegetação nativa. O estoque de terras com alta aptidão para a expansão da produção de grãos e outros alimentos no Cerrado é de 25,36 milhões de hectares. Essas áreas, cujas características originais de solo, vegetação, relevo e regime hídrico foram alteradas em consequência de atividade humana, correspondem a 22,5 milhões de hectares nos estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Rondônia, ou seja, fora da região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

Entre 2000 e 2015, mais de 5,6 milhões de hectares de pastagens foram convertidos em culturas anuais, com forte destaque para a soja. É possível mais do que dobrar a produção de soja no Cerrado, considerando que esse grão pode ocupar áreas hoje plantadas com pastagens ou eucalipto. A soja ocupa menos de 8% da área do Cerrado e esse bioma é responsável por 52% (16,2 milhões de hectares) da área de soja cultivada em 2015/2016.

A soja e seu complexo possibilitam a produção de carnes, tendo em vista o uso do farelo em rações, óleo para consumo humano e industrial, biodiesel e produtos da indústria química, entre muitas outras aplicações