Geografia

 

Grão colocou no MAPA agrícola novas regiões

A expansão da cultura Brasil afora incorporou ao sistema produtivo municípios de estados pouco tradicionais em soja, como Pará e Rondônia. E além do já concretizado Matopiba (acrônimo de MA, TO, PI e BA), agora ganha expressão a região Sealba – Sergipe, Alagoas e Bahia (Nordeste baiano)

Marcelo Hiroshi Hirakuri, pesquisador da Embrapa Soja

Em 2015, houve uma forte retração da economia do Brasil, evidenciada pela queda no PIB, que alcançou R$ 5,9 trilhões ante R$ 6,1 trilhões obtidos nos dois anos anteriores. Mais do que isso, a população brasileira tem assistido ao fechamento de indústrias e empresas dos mais variados ramos de negócio, de tal modo que estatísticas do Ministério do Trabalho indicam uma queda no estoque de empregos superior a 800 mil vagas. De forma oposta, em 2015, o PIB do agronegócio brasileiro ficou próximo a R$ 1,267 trilhão, valor levemente superior ao R$ 1,262 trilhão do ano anterior. Além disso, no campo social, o estoque de emprego celetista do setor agropecuário foi o que apresentou maior crescimento entre janeiro de 2013 e setembro de 2016 (4%), subindo de 1.555.770 para 1.617.306 vagas.

O agronegócio brasileiro garante sua competitividade tanto por meio da produção pecuária (aves, bovinos e suínos) quanto da produção agrícola, calcada em diferentes culturas como cana-de-açúcar, milho, arroz, feijão, algodão e trigo, entre outros. Embora todas essas espécies vegetais e a pecuária sejam essenciais para o desenvolvimento econômico do País, o principal destaque da agricultura brasileira certamente é a soja.

Até meados dos anos 1980, a produção competitiva de grãos restringiase às Regiões Sul e Sudeste, geralmente em municípios próximos aos grandes centros urbanos. Neste momento, os arranjos institucionais de pesquisa criados no País permitiram a geração e difusão de tecnologias que propiciaram à soja ser produzida, com elevados rendimentos, em outros tipos de ambiente, diferentes aos da Região Sul e Sudeste. Nesse contexto, a soja começou sua empreitada para se tornar o principal produto agrícola do agronegócio nacional.

Durante a década de 1990, a área de soja cresceu vertiginosamente no Centro- Oeste, de tal forma que, no início dos anos 2000, a região tornou-se a principal produtora do grão. Um aspecto relevante nessa expansão é que os quase 15 milhões de hectares ocupados pela soja no Centro-Oeste, na safra 2015/16, estão localizados majoritariamente em municípios do interior e geram uma produção superior a 43 milhões de toneladas, cujo valor bruto aproxima-se de R$ 53 bilhões.

Logicamente, existem problemas a serem vencidos, como os graves estrangulamentos logísticos, os elevados custos de produção e a necessidade de uma reforma tributária, entre outros. Todavia, isso não impediu que fosse estruturada uma cadeia produtiva robusta que permite transformar o valor econômico embutido na soja em investimentos que permitiram o desenvolvimento socioeconômico de diversas microrregiões do Centro-Oeste, em que a agropecuária é um dos setores chaves da economia, tais como nas Regiões Sudoeste e do Vale do Rio dos Bois, em Goiás, no município de Pires do Rio/GO, a região de Alto Teles Pires, no Mato Grosso, Campo Novo do Parecis/MT, Canarana/MT e Alto Taquari/MS, entre outros. Mesmo em regiões que contam com outro setor- chave (por exemplo, indústria ou comércio), a agropecuária tem sido importante para o seu desenvolvimento, como é o caso das microrregiões do Leste de Goiás, de Sinop/MT e de Dourados/ MS, entre outras.

A expansão da produção de soja tem como particularidade a migração de produtores rurais, destacadamente dos estados da Região Sul. Nesse contexto, diferentes municípios do Centro-Oeste carregam características culturais marcantes, seja nos costumes, na arquitetura local ou, até mesmo, na gestão municipal. Isso foi essencial para que a região tenha municípios localizados no interior de seus estados, planejados para se tornarem polos agropecuários e que, por isso, têm sido marcados por um sólido desenvolvimento econômico e por uma qualidade de vida diferenciada fornecida à sua população.

Na última década, o crescimento no consumo de carnes, especialmente suína e de frango, teve como consequência o expressivo aumento na demanda internacional por farelo de soja. Foi nesse contexto que o clima afetou profundamente o agronegócio da soja, por meio de fenômenos que causaram quebras produtivas durante o período, em importantes países produtores. O marco referencial foi a safra 2008/09, em que houve quebra de produção nos três principais produtores de soja (Estados Unidos, Brasil e Argentina), resultando na disparada da cotação do grão, que atingiu seu ápice no segundo semestre de 2012.

As condições mercadológicas favoráveis, o elevado padrão tecnológico empregado e a robustez de sua cadeia produtiva fizeram com que a soja se tornasse a responsável pela expansão da produção de grãos no Brasil, ocupando e recuperando áreas de pastagens degradadas, sobretudo, na Região Centro- Norte. Assim, além de manter sua expansão pela Região Centro-Oeste, a cultura expandiu-se pelas Regiões Nordeste e Norte.

Matopiba incrementou o IDH — Em ordem decrescente, as maiores áreas de produção de soja do Norte-Nordeste brasileiro encontram-se na Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí. A importância da agricultura nestes estados, notadamente da soja, fez com que surgisse a denominação Matopiba, formada pelo acrônimo que representa as iniciais dos quatro estados. Segundo prognósticos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na safra 2016/ 17, a soja pode ultrapassar a marca de 4 milhões de hectares na região, alcançando uma produção superior a 11 milhões de toneladas.

Conforme dados do IBGE, entre 2010 e 2013, o PIB das principais microrregiões sojicultoras de cada estado do Matopiba – Gerais de Balsas (Maranhão), Jalapão (Tocantins), Alto Parnaíba Piauiense (Piauí) e Barreiras/BA – tiveram um crescimento expressivo, significativamente acima do crescimento estadual. Além disso, ressalta-se que o salto no desenvolvimento humano dos municípios dessas regiões. Por exemplo, em 1991, os respectivos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios sojicultores de Balsas/MA, Campos Lindos/TO, Uruçuí/PI e Luís Eduardo Magalhães/BA, pertences a cada uma das microrregiões citadas, eram 0,35; 0,14; 0,29 e 0,39. No ano de 2010, os valores saltaram para 0,69; 0,54; 0,63 e 0,72.

Em outros termos, a produção agropecuária do Matopiba, que tem a soja como seu carro-chefe, gera um valor monetário com o potencial de desenvolver socioeconomicamente as regiões agrícolas. Para que isso ocorra, os gestores públicos precisam criar formas de converter o valor bruto da produção agropecuária dos seus municípios, em investimentos públicos que, voltados para a atração de investimentos, promovam o desenvolvimento, tanto de outros setores da economia (comércio, serviços, construção civil e indústria, entre outros) quanto de serviços municipais básicos como educação, saúde, segurança e transporte, entre outros.

Novos polos no Norte — Nos últimos anos, a soja manteve sua expansão e tem alcançado novas regiões produtoras, em estados como Pará, Rondônia, Roraima e Amapá. Microrregiões e municípios no interior desses estados, com poucas perspectivas de desenvolvimento socioeconômico, têm visto em uma simples cultura agrícola a oportunidade um futuro melhor. No Pará e em Rondônia, a cultura já criou polos produtores importantes em regiões cujo setor agropecuário é aquele que mais adiciona valor ao PIB, como as microrregiões de Paragominas/PA, Conceição do Araguaia/PA e Colorado do Oeste/RO. A expectativa é que o mesmo possa ocorrer nos estados do Amapá e de Roraima, ou seja, a criação de polos agrícolas em diferentes regiões do estado, que promovam o crescimento econômico, desenvolvimento de outros setores da economia (comércio, serviços e indústria) e melhorias na qualidade de vida.

Mesmo nas Regiões Sul e Sudeste, que foram o seu primórdio, a soja encontrou espaço para aumentar sua área de produção nas safras atuais. Regiões tradicionais em pecuária ou outros cultivos têm assistido com bons olhos a introdução do grão em seus sistemas produtivos. Exemplos de regiões onde a soja ganhou espaços nos últimos anos: (a) no Sul paulista, em áreas de milho e cana; (b) no Sudeste paranaense, em áreas familiares produtoras de milho, feijão e fumo; (c) na metade Sul do Rio Grande do Sul, ocupando áreas e pastagens e rotacionada com o arroz. Em todos os casos, a introdução da soja nos sistemas de produção visa agregar renda ao produtor e pulverizar riscos.

E surgiu a Sealba — Agora, a soja tem aceitado o desafio de desenvolver uma nova região agrícola que comporta municípios de quase todas as microrregiões do Sergipe, do Leste e agreste alagoano e de alguns municípios do Nordeste baiano, que está sendo denominada Sealba (acrônimo formado pelas iniciais dos estados componentes). Os objetivos a serem alcançados com a introdução do grão nessa região serão os mesmos que estão por trás da sua introdução e expansão em outras regiões do Brasil:

• integração nacional: a soja tem expandido por meio da migração de produtores das regiões tradicionais para novos polos produtores, o que tem promovido o intercâmbio cultural entre diferentes grupos sociais;

• desenvolvimento socioeconômico: a safra do grão tem um valor bruto de produção elevado, o qual pode ser convertido em investimentos públicos essenciais, tanto para o crescimento econômico quanto para a qualidade de vida dos municípios e regiões sojicultoras;

• capitalização do produtor: aumentar o número de agricultores empresariais e que deixam de viver de subsistência, formando uma nova classe média rural;

• fortalecimento do setor agrícola: cadeias produtivas como carnes e biocombustíveis estão fortemente associadas à soja e beneficiam-se do seu sucesso;

• estabilidade econômica: permitir que o agronegócio continue a ser orgulho nacional, mantendo seu crescimento, mesmo quando o contexto é totalmente desfavorável, como está ocorrendo no momento atual.