Homens na Soja

 

O EMPREENDEDORISMO deles fez a grandiosidade da soja

Olacyr de Moraes, Romeu Kiihl, Dario Hiromoto, Munefumi Matsubara, André Maggi e Eraí Maggi. Eles são alguns exemplos – apenas alguns – dos heróicos empreendedores que tornaram a soja do tamanho que atividade tem hoje. E representam muitos brasileiros

Leonardo Gottems

É certo que a soja modificou profunda e definitivamente a história da agricultura mundial, elevando a atividade a um patamar superior de relevância e protagonismo na geração de riquezas. Na mesma medida, foram homens de visão, empreendedorismo e talento que construíram essa história aqui no Brasil, onde em pouco mais de 40 anos a oleaginosa se consolidou como a maior cultura na relação entre área plantada e valor. A seguir, foram elencados apenas alguns dos homens que transformaram a soja no que ela se tornou hoje. Muitos, muitos mesmos ficaram de fora da lista a seguir, mas estes podem se sentir, tranquilamente, representados.

Mesmo após seu falecimento (aos 84 anos, em 2015), o empresário Olacyr de Moraes ainda é referenciado como um dos pioneiros na introdução da soja no País. Com um senso de oportunidade único entre os grandes empresários, o paulista de Itápolis se tornou um dos homens mais ricos do mundo nos anos 1980 – sendo o mais jovem bilionário brasileiro a aparecer no tradicional ranking da revista norte-americana Forbes – com patrimônio avaliado em mais de US$ 1,2 bilhão. Pois foi graças a uma intempérie climática justamente nos Estados Unidos que Moraes vislumbrou a oportunidade de implantar no Brasil, em larga escala, uma cultura que já representava bilhões de dólares na América do Norte. Após uma inundação do rio Mississippi, em 1973, grande parte das lavouras de soja dos EUA ficaram comprometidas. Quem abasteceria esse sedento mercado mundial?

OLACYR DE MORAES, O “REI DA SOJA”

Mesmo após seu falecimento (aos 84 anos, em 2015), o empresário Olacyr de Moraes ainda é referenciado como um dos pioneiros na introdução da soja no País. Com um senso de oportunidade único entre os grandes empresários, o paulista de Itápolis se tornou um dos homens mais ricos do mundo nos anos 1980 – sendo o mais jovem bilionário brasileiro a aparecer no tradicional ranking da revista norte-americana Forbes – com patrimônio avaliado em mais de US$ 1,2 bilhão. Pois foi graças a uma intempérie climática justamente nos Estados Unidos que Moraes vislumbrou a oportunidade de implantar no Brasil, em larga escala, uma cultura que já representava bilhões de dólares na América do Norte. Após uma inundação do rio Mississippi, em 1973, grande parte das lavouras de soja dos EUA ficaram comprometidas. Quem abasteceria esse sedento mercado mundial?

Foi exatamente este o horizonte que Olacyr de Moraes vislumbrou ao converter a região do cerrado, no Centro-Oeste brasileiro, na maior produtora da oleaginosa do País. Em um solo que muitos afirmavam ser impossível cultivar grãos, o empresário criou a Itamarati Agro Pecuária através de suas propriedades nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Chegou a ser apontado, em seu apogeu, como o maior plantador individual de soja do mundo, e ganhou o apelido de “Rei da Soja”. Assim, com certeza desempenhou papel decisivo para transformar o Brasil em um dos principais produtores da oleaginosa do planeta.

ROMEU KIIHL, O “PAI DA SOJA”

Não só de empresários foi construída a história da soja no Brasil. Entre os pesquisadores a referência é Romeu Kiihl, que em mais de 50 anos de atividades contribuiu para desenvolver nada menos que 150 cultivares da oleaginosa. Hoje diretor-científico da Tropical Melhoramento & Genética (TMG), o especialista foi buscar nos Estados Unidos seu mestrado e doutorado para impulsionar o cultivo do grão que era considerado, na época, uma cultura sem expressão. Na volta ao Brasil aplicou técnicas e descobertas até então inéditas no País, adaptou e tornou viável o cultivo da soja em praticamente qualquer região, sobretudo nas regiões tropicais do Centro-Oeste

Kiihl tem sua história de vida muito ligada à Embrapa, na qual atuou por 24 anos centralizando o recebimento de informações do Brasil inteiro e transformando esses dados em novos cruzamentos e variedades para os mais diversos locais. Não sabe dizer quando ganhou o apelido de “Pai da Soja”, e nem se considera o mais antigo pesquisador da oleaginosa, mas o fato é que, em grande parte por seu trabalho, a produção nacional saltou de modestas 500 mil toneladas anuais para as atuais 103,6 milhões.

DARIO HIROMOTO TRABALHOU PELO “NOSSO FUTURO”

Outro grande pesquisador que fez história na sojicultura brasileira foi Dario Minoru Hiromoto, chamado pelo hoje ministro da Agricultura, Blairo Maggi, de “o anônimo mais importante do segmento”. Doutor em Genética e Melhoramento de Plantas pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), Hiromoto fez da ousadia e determinação sua marca pessoal, sendo um dos principais responsáveis por transformar o estado do Mato Grosso no maior produtor nacional de soja.

Aliando competência científica, visão estratégica e tino comercial, o carinhosamente chamado “Japonês” Dario, teve participação decisiva na transformação socioeconômica do Mato Grosso, articulando os avanços tecnológicos que o estado experimentou. Para atingir seu sonho de transformar a soja no “nosso futuro” (como certa vez profetizou), ele foi muito além do que a Embrapa oferecia e fundou, juntamente a 23 produtores locais, a Fundação MT – que batizou sua sede com o nome do visionário pesquisador falecido prematuramente em outubro de 2009.

MUNEFUMI MATSUBARA, UM CULTIVADOR

Entre os produtores rurais, é digno de nota mencionar o desbravador da região onde hoje está localizado o município de Lucas do Rio Verde/MT: Munefumi Matsubara. Ele foi pioneiro no incentivo à pesquisa e desenvolvimento da agricultura em Mato Grosso. Atualmente com 83 anos e residindo em Sinop/MT com a família, “Seu Mune” foi um dos primeiros a investir forte em tecnologia e na mecanização do cultivo da lavoura, em 1972. Ele conta que, ao comprar as terras, se animou porque havia muita parte plana na área, o que propiciaria a mecanização e a agricultura de escala. Lembra que a primeira cultivar que realmente começou a desenvolver a soja na região foi a “Doko”, da Embrapa Cerrados, quando pela primeira vez foi possível colher mais de 35 sacas por hectare. Para ele, esse foi o marco inicial da agricultura tropical brasileira.

Nos anos seguintes deu-se conta de que a produção, ao contrário de crescer, retrocedia em produtividade. Foi quando decidiu abrir suas porteiras para cientistas e pesquisadores do Brasil e do exterior para aprofundarem a análise e, como diz ele, “descobrir os segredos do Cerrado”. Sem pensar em custos ou no tempo empregado, permitiu experiências que culminaram na descoberta do plantio direto para dotar a terra de matéria orgânica fundamental e assim obter os maiores resultados possíveis. “Os investimentos que fiz na fazenda foram também para me viabilizar e, por tabela, viabilizar também a região. Eu tenho muito orgulho de ver a região como está hoje. Em 35 anos passamos para 4 milhões de hectares de lavouras e temos cidades com os melhores IDHs do País”, disse ele em cerimônia da Aprosoja MT onde recebeu o Troféu O Cultivador.

ANDRÉ MAGGI, O PATRIARCA

É praticamente impossível elencar os maiores nomes da soja brasileira sem incluir a família Maggi. A começar pelo patriarca, André Antônio Maggi, que em 1973 fundou a Sementes Maggi (futuro Grupo Amaggi) e que hoje reúne como acionistas a mulher Lúcia e o mais famoso filho: Blairo, atual ministro da Agricultura, com ainda duas passagens como governador de Mato Grosso e senador da República. Falecido em 22 de abril de 2001, André Maggi é gaúcho nascido no município litorâneo de Torres, mas foi em Mato Grosso que ele se tornou um dos pioneiros no cultivo de soja. Filho de imigrantes italiano e alemã, começou comprando e armazenando grãos nos anos 1970 no Mato Grosso e chegou a fundar, no final dos anos 1980, até uma cidade nesse estado, batizada de Sapezal e da qual foi prefeito.

Nessa região a família Maggi fincou raízes para se tornar, nos anos 1990 e princípio dos 2000, os líderes mundiais na produção da oleaginosa. Foi nessa época que Blairo Maggi ganhou o apelido de “Rei da Soja”. Limitada à produção de sementes e a comercialização de safras no início, logo as atividades da família se expandiram para produção de grãos com a aquisição de terras no estado. Hoje são mais de 400 mil toneladas colhidas por ano e cultivadas em 130 mil hectares na primeira safra.

ERAÍ MAGGI, O MAIOR DO MUNDO

O maior sojicultor brasileiro da atualidade também leva o sobrenome Maggi, e é primo do ministro Blairo: Eraí Maggi é filho de gaúchos que se estabeleceram em São Miguel do Iguaçu, no oeste do Paraná, em 1964. O início de vida foi complicado. Ele conta que a maior parte da infância e adolescência viveu na lavoura, o que o levou a só conhecer um banco escolar aos nove anos de idade. Em 1976, aos 17 anos, Eraí perdeu o pai em um acidente e assumiu o comando dos negócios da família. Alguns anos depois, já no final dos anos 1970, rumou também para o estado de Mato Grosso e descobriu a novidade que mudou sua vida: as primeiras lavouras de soja cultivadas no Cerrado. Não demorou muito para unir-se ao tio André Maggi, em Rondonópolis, e formar a Fazenda Bom Futuro. Foi ele que prospectou as terras que a família comprou na região de Sapezal e que mudaram a história da soja no Brasil.

Foi apenas em 1995 que Eraí deixou de ser empregado do tio André para assumir exclusivamente a Fazenda Bom Futuro. Tirou brevê de piloto e começou a sobrevoar o Mato Grosso com o objetivo de encontrar e arrendar terras para construir o Grupo que leva o mesmo nome das terras onde tudo começou, e que hoje cultiva mais de 520 mil hectares de terras (entre 1ª e 2ª safras), distribuídas em aproximadamente 110 fazendas. Produzindo cerca de 1,4 milhão de toneladas de grãos anuais, o Bom Futuro de Eraí é hoje o maior produtor individual de soja do mundo.