História

 

Da CHINA às páginas d'A Granja

A soja teve seus primeiros registros na China, cinco milênios atrás. No Brasil, chegou em 1882 como uma alternativa de forragem e alimento aos porcos. Ganhou expressão a partir dos anos 1950, mas a explosão mesmo se deu a partir da década de 1970 – e muito do início dessa era dourada foi registrado pelas páginas d’A Granja

Leandro Mittmann leandro@agranja.com

“Riqueza exportável”: em outubro de 1973, um amplo texto de mais de três páginas veiculado pela A Granja traduziu o que já representava a soja para a agricultura brasileira

Por uma coincidência – que pode hoje ser mensurada em milhões de toneladas e bilhões de dólares – soja e China mantêm uma relação milenar. Um dos primeiros registros da planta cujo nome científico é Glycine Max data de 5 mil anos atrás, de uma citação do imperador chinês Shen-Nung, considerado o pai da soja da agricultura chinesa, pois foi ele quem teria dado início ao cultivo desse grão como alternativa à alimentação com carne. Uns dois séculos antes de Cristo a oleaginosa já era utilizada como matéria-prima para o tofu, o “leite” de soja coalhado, um alimento importante para os chineses. Também servia como moeda para troca com outras mercadorias. Cinco milênios depois, a China é responsável por quase um terço das compras globais do grão, hoje mais utilizado no país asiático para alimentação animal. A previsão é que os chineses importem neste ano mais de 100 milhões de toneladas, praticamente o que Brasil, segundo maior produtor, vai colher.

Outras citações à soja ocorrem no período entre os anos 2883 e 2838 a.C, quando o grão era considerado sagrado, ao lado do arroz, do trigo, da cevada e do milheto. Há um registro no livro Pen Tsao Kong Mu, que descrevia as plantas da China do Imperador Shen-Nung. Porém, para alguns autores, as referências à soja são ainda mais antigas, como no “Livro de Odes”, publicado em chinês arcaico. Até aproximadamente 1894, quando terminou a guerra entre China e Japão, a produção de soja era restrita às terras chinesas, ainda que já fosse consumida pela civilização oriental por milhares de anos. E apenas chegou à Europa ao final do século XV, mesmo que apenas como curiosidade nos jardins botânicos de Inglaterra, França e Alemanha. Já na segunda década do século XX o teor de óleo e proteína do grão começou a despertar o interesse das indústrias mundiais, mas seu cultivo em lavouras russas, inglesas e alemãs não frutificou – possivelmente por não ter se adaptado ao clima europeu.

Por aqui, a soja comemora 135 anos de presença. O registro da chegada em solo brasileiro é em 1882, mas apenas como forragem para bovinos ou grão para engordar suínos. E assim foi utilizada por 70 anos, até o início dos anos 1950. A primeira referência de produção comercial de soja no Brasil é de 1941, uma área cultivada de 640 hectares e produção de 450 toneladas, enquanto o primeiro registro internacional do Brasil como produtor de soja é de 1949, com a produção total de 25 mil toneladas. Em meados dos anos 1950 tal produção foi multiplicada por quatro, e depois passou para 206 mil toneladas, em 1960, e rompeu a casa de 1 milhão em 1969 (exatas 1.056.000 toneladas) – 98% gerado nos três estados do Sul. O cultivo era o binômio trigo no inverno, soja no verão. Então, veio a explosão: 1,5 milhão em 1970, 15 milhões em 1979, mais de 100 milhões (estimadas) em 2017.

“Feijão-soja” no Rio Grande do Sul — Todas as informações históricas mencionadas – e muitos outros detalhes interessantes – estão nos sites da Embrapa e da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil). Outra fonte preciosa sobre a soja são as páginas septuagenárias d’A Granja. Atenção à primeira menção à cultura na revista: “As estimativas para safra apresentam um total de 121.940 toneladas, assim distribuídas pelos diversos municípios produtores (...) Como se vê, Santa Rosa (RS) está distanciada na frente na produção de soja, produto que certamente passará a ser um dos fortes esteios da economia do município”, veiculava a edição de agosto de 1958. “Conforme se depreende da liberação de 20 mil toneladas para a exportação, cerca de 100 mil serão aproveitadas pela indústria nacional”, complementava a notícia que chamava, a princípio, o grão como “feijão-soja”. O volume a ser exportado por 13 empresas seria todo absorvido pelo Japão, ao valor de US$ 108,365 a tonelada.

A soja, ou o feijão-soja, não tinha então importância à agricultura brasileira, e a próxima veiculação sobre a cultura n’A Granja ocorreu apenas em fevereiro de 1959. “Na última safra a produção brasileira de soja foi de 121.501 toneladas, sendo, praticamente, 85% do Rio Grande do Sul (...) Até 1955, quase tôda a produção de soja era exportada, mas a partir dêsse ano, a indústria nacional passou a consumir as quantidades produzidas, tanto que, atualmente já é encontrado no Rio e em São Paulo óleo comestível com 30% a 50% de óleo de soja em mistura com outros, como o de oliveira, algodão, amendoim e milho”. O texto ainda fazia uma previsão: “Na opinião dos técnicos, trata-se de produto que não somente atende ao mercado interno, com óleo, farinha, torta e outros subprodutos, como ainda é um dos poucos artigos agrícolas capazes de concorrer no exterior em melhores condições de preços com o similar norte-americano ou canadense”.

A edição de dezembro de 1960 anunciava o lançamento em “ato oficial” com a presença do governador Leonel Brizola de “nova variedade”, a Pioneira, que “supera ela tôdas as demais variedades existentes”

“Respeitável concorrente à linhaça” — No mesmo ano, em julho, mais citação à cultura. “É muito nova a cultura da soja no Rio Grande do Sul. Foi mesmo uma das últimas plantas oleaginosas que penetraram os campos estaduais. O seu desenvolvimento foi, entretanto, acelerado. Empolgou logo indústrias alimentícias. Passou a substituir o amendoim e a ser respeitável concorrente à linhaça”, lembrava o texto, que quantificava a produção gaúcha em 112.221.060 quilos em 106.227 hectares. E a soja foi ganhando relevância no estado. A edição de dezembro de 1960 anunciava o lançamento de “nova variedade”, a Pioneira, em “ato oficial” na sede do Governo Estadual, o Palácio Piratini, com a presença do governador Leonel Brizola. “Supera ela tôdas as demais variedades existentes, ressaltando como uma de suas principais vantagens o fato de ter um ciclo vegetativo menor do que as outras variedades, o que assegura maior rendimento econômico e produção em menos tempo”.

Em agosto de 1958, A Granja mencionava a produção de mais de 121 mil toneladas de “feijão-soja” no Rio Grande do Sul, das quais 20 mil toneladas seriam exportadas ao Japão

E conforme a soja foi ganhando relevância e expandindo-se pelo Brasil, a revista A Granja ampliou seus espaços à cultura. Em outubro de 1973, o primeiro editorial e um texto de três páginas e meia. A opinião da revista, intitulada “Caminhos para a soja”, dizia: “Certamente o ano de 1973 ficará na história do Rio Grande do Sul e do Brasil como o ano da soja”. Naquele ano, a “safra excepcional” rendera US$ 600 milhões em exportações. “(...) a soja já ocupa o segundo lugar entre os produtos de exportação, vindo logo após o café”. “Com todo este sucesso, é evidente que a produção do próximo ano aumentará bastante. A meta nacional foi fixada em seis milhões de toneladas, enquanto que a do Rio Grande do Sul, o principal produtor, em quatro milhões”, destacava. O texto dizia que os “mais otimistas” duvidavam que o estado alcançaria tal produção, mas o Brasil não só atingiria como poderia superar. “Basta ver o exemplo do que ocorre no Paraná, onde, segundo denúncias, agricultores estão arrancando seus pés de café para plantar soja”.

“Riqueza exportável” — Na abordagem maior naquela edição, em artigo ricamente ilustrado por dados intitulado “Soja, riqueza exportável”, o engenheiro agrônomo Valdiner Silveira Fagundes lembrou que o ano de 1973 estava “marcando o início de um período agrícola para os Estados do Sul em que a soja está passando a ocupar o primeiro lugar em importância econômica, área cultivada e possibilidades de expansão”. Lembrou que a cultura havia chegado ao Rio Grande do Sul 15 anos antes, “apresentando de ano para ano índices de crescimento significativos”. Ele fez uma análise ampla e detalhada do que representava a soja para a agricultura gaúcha e brasileira, mais especificamente aos estados do Sul. “Atualmente, o maior produtor de soja são os Estados Unidos, com certa de 35 milhões de toneladas, seguindo-se a China com 8 milhões e o Brasil com 4,7 milhões de toneladas (...) Entretanto, como país exportador, o Brasil ocupa o segundo lugar (...) Nesta safra de 1973 nossa exportação andará por volta de 1,8 milhão de toneladas, ao lado das habituais 12 milhões de toneladas americanas”.