Na Hora H

 

O PROGRAMA +MILHO TEM QUE SER MAIS MILHO MESMO

Quem esteve em Cuiabá no início de dezembro pôde ver o lançamento do Programa +Milho pelas associações de produtores e com a presença do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e das principais empresas representativas do segmento da produção de milho, tanto governamentais quanto privadas. E também saiu com a certeza de que o +Milho tem de ser um programa para valer. No mundo inteiro, todo país grande produtor de milho teve a decisão estratégica de governos e produtores que, somados, souberam criar as condições políticas, econômicas e estratégicas para ser grandes produtor desse principal cereal, que ainda hoje se coloca no mercado atual e futuro como de maior demanda.

Produzir milho não é fácil. Não porque seja uma cultura difícil de se produzir. Ao contrário, a evolução dessa lavoura, tanto no clima temperado, onde ela mais se desenvolveu, quanto agora, nas regiões tropicais e subtropicais, seu crescimento em produtividade é mesmo espantoso. No clima tropical, o milho ainda recebe a vantagem de poder ser tanto a primeira lavoura (safra de verão) como a segunda lavoura depois da soja (safrinha), e ainda se integrar com pastagens em uma simbiose fabulosa, especialmente com a braquiária, sua planta gêmea de impressionante resultado em uma integração perfeita, permitindo, inclusive uma nova safra de carne, leite, pequenos animais, etc.

E ainda a terceira safra no mesmo ano, no mesmo terreno, com as mesmas máquinas e com os mesmos homens, colocando essa consorciação em uma imbatível capacidade produtiva, recuperadora de áreas degradadas e altamente competitiva. Sim, no caso de maior arrojo com a irrigação, pode-se ter, inclusive, a terceira safra do grão ainda no mesmo ano, e estabelecendo a garantia de êxito da primeira e da segunda safra. É o top”. Mas isso não surge como um fato natural. Se não entram aí as decisões do Governo, a parceria dos produtores e das empresas que formam o complexo produtor desse cereal.

A pergunta está: quem primeiro deve tomar a decisão? Aqui no Brasil, felizmente, as decisões básicas surgiram principalmente pelo lado dos produtores e pelas empresas que dão suporte ao complexo milho. O Governo já teve instrumentos de política pública que funcionaram bem até os anos 1980, quando apareceram os famigerados planos econômicos, consequências de péssimas administrações financeiras do País a partir de 1986 (primeiro plano econômico, o Plano Funaro), além de outros planos que destruíram totalmente os instrumentos de política pública que o Governo brasileiro havia demonstrado saber realizar.

O crédito rural, hoje um arremedo do que foi, não mais atende as reais necessidades do produtor brasileiro para poder continuar a ser competitivo. O seguro rural ficou apenas na intenção da Constituição, e só agora parece estar sendo percebido como a principal arma que os nossos produtores concorrentes do mundo estão usando. Inclusive pelo seguro de renda como subsídio interno para garantir a competitividade que estão perdendo. O preço mínimo desde 1986 não passa de uma ilusão. Pela falta de recurso as “muletas” que lhe deram para justificar a falta de recursos governamentais vão sempre parar nas mãos dos atravessadores. O crédito de comercialização, instrumento importantíssimo que deveria ser usado pelas nossas indústrias para, em época oportuna, realizarem seus estoques, não existem mais. Desde 1986, quando até então se tinha anualmente o uso de pelo menos 8% dos recursos equivalentes ao PIB nacional para a infraestrutura logística, hoje não chegam há mais de 1,8% desse mesmo PIB.

É nessas áreas que esperamos a decisão estratégica do Governo. Lá estava atento o nosso ministro Blairo Maggi e sua principal equipe e puderam verificar que o problema não está mais só do lado dos produtores e dos outros parceiros. Ele que é grande produtor sabe e conhece bem as necessidades e principalmente as decisões que o Governo terá de tomar para que o Programa +Milho não seja apenas um anúncio ou lançamento, mas que ele venha a ser de fato a grande equação para o atendimento da estupenda demanda que o mundo terá desse cereal até 2050, quando atingirá 9,7 bilhões de habitantes no mundo.

Engenheiro agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura