O Segredo de Quem Faz

 

Um novo ano PROMISSOR para a soja

Denise Saueressig
denise@agranja.com

A cadeia da soja está em processo contínuo de evolução. A despeito de desafios que são inerentes ao agronegócio, o complexo que envolve a oleaginosa trabalha para avançar na sustentabilidade da produção e na competitividade das exportações. Considerando as características do próprio setor e o cenário do mercado, as perspectivas para 2017 são positivas, avalia Carlo Lovatelli, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que reúne 13 empresas responsáveis por 65% do processamento da soja no País. O também presidente da Fundação Bunge e ex-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) fala na entrevista a seguir sobre a realidade e as possibilidades da grande estrela da agricultura nacional.

A Granja – O complexo soja, assim como outros segmentos, sentiu os reflexos da queda na atividade econômica do País em 2016. E para 2017, quais são as perspectivas?

Carlo Lovatelli – O ano de 2017 está se propondo a ser interessante, e a perspectiva é relativamente positiva apesar de todos os percalços na economia brasileira e mundial. A atividade da cadeia da soja tem um comportamento diferenciado em comparação com outras cadeias do agronegócio. Isso porque é uma commodity que depende das cotações internacionais, tanto para a matéria-prima, que é o grão, quanto para os produtos de maior valor agregado, o que é o caso do óleo e do farelo. Outra condição bem importante é que dependemos muito da exportação. Hoje dois terços da cadeia da soja são exportados. A cotação do dólar, que é a moeda da exportação, vem se mantendo em alta, o que beneficia o produtor que recebe mais pela sua safra. Então, essas razões fazem com que a cadeia da soja obtenha um resultado que às vezes até surpreende os analistas da área.

O preço não é um dos melhores da história recente, mas também não é um preço ruim, porque está acima de US$ 10 o bushel. Não está perto dos US$ 15, como aconteceu há alguns anos, mas está longe dos US$ 6, o que também já ocorreu. Então, o preço, o câmbio, a organização da cadeia e a dependência forte da exportação nos permitem prever um ano relativamente positivo. E se nosso amigo São Pedro ajudar, teremos uma safra acima de 101 milhões de toneladas, o que será um recorde para o Brasil. Ao mesmo tempo, os grandes consumidores, como a China, continuam ampliando suas compras. Acho que o mercado está equilibrado e demandante. Tudo isso nos faz acreditar que 2017 será um marco interessante para o setor.

A Granja – Considerando a importância das exportações para a cadeia da soja, quais são os principais desafios no mercado internacional?

Lovatelli – Hoje a China é o carro-chefe do mercado externo para nós. Um dos nossos desafios é conseguirmos ampliar as vendas de produtos com maior valor agregado para o país asiático, porque hoje as importações dos chineses são basicamente de soja em grão, ou seja, matéria-prima para ser processada lá. Isso faz com que, de certa forma, também exportemos nossas fábricas e nossa mão de obra, já que estamos viabilizando o parque industrial chinês, enquanto o nosso trabalha com certa ociosidade. Então, o grande desafio que eu vejo é mudarmos um pouco esse balanço por meio de negociações de altíssimo nível aproveitando que existe uma vontade política bastante forte para promover os produtos brasileiros no exterior. O Governo está adotando medidas para organização de estruturas visando ao incremento das exportações. O presidente Michel Temer e o ministro Blairo Maggi estiveram viajando pela Ásia recentemente para tentar prospectar mercados, e existem possibilidades muito interessantes em outros países asiáticos que importam boas quantidades de farelo e óleo, mas onde o Brasil ainda tem uma participação pequena. É o caso, por exemplo, de Vietnã, Malásia, Coreia do Sul, Mianmar, Tailândia, entre outros. Então, com esses países nós podemos fazer um trabalho de prospecção diplomática, política, técnica e, evidentemente, comercial, para conseguir melhorar nossa participação em vendas com maior valor agregado, leia-se aqui, o farelo de soja.

A Granja – E quanto ao óleo?

Lovatelli – Nós temos uma tendência, que é inquestionável, que é aumentar o consumo do óleo por causa do biodiesel. A partir de 2017 haverá um acréscimo de um ponto percentual na mistura do diesel com o biodiesel, que é basicamente feito com o óleo de soja. Este ano a mistura subirá de 7% para 8%, 9% em 2018 e 10% em 2019. Cada um ponto percentual de aumento implica em 2 milhões de toneladas de soja que devem ser processadas. Esses 2 milhões produzem 20% de óleo e 80% de farelo. Então, nós temos uma grande produção de farelo que é usado principalmente na indústria da ração animal. Para esse produto nosso grande cliente é a Europa. Temos que aumentar a nossa participação principalmente no exterior, porque acredito que o aumento no consumo do farelo no mercado doméstico é pequeno e, por isso, precisamos abrir mercados para esse excedente. Uma das nossas ideias, quando falamos em China, é prospectar o mercado política e tecnicamente com o apoio do Itamaraty e de estruturas como a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e a Camex (Câmara de Comércio Exterior), onde contamos com pessoas que conhecem profundamente o mercado chinês. Então, temos uma estrutura focada no mercado asiático, que é o grande cliente para a cadeia da soja. Com a China, poderíamos estabelecer acordos de reciprocidade de forma que eles adquiram uma cota de farelo de soja.

Penso que os chineses sempre serão nossos parceiros na soja, por uma razão muito simples. Não há nenhuma proteína vegetal em volumes disponíveis e preços acessíveis como a soja. Você não consegue substituir essa proteína em um estalar de dedos. E não há disponibilidade no resto do mundo. Nós dependemos muito da China para a venda externa da nossa soja, o que pode até ser interpretado como um certo risco, mas eles também precisam de nós porque não existe oferta de soja que cubra as necessidades da China nos outros países produtores. Nos Estados Unidos, a área para a soja está praticamente esgotada, e o consumo doméstico é muito alto. Na Argentina, a produção ainda pode se desenvolver mais, porém, com menos capacidade que o Brasil. A própria China, que produz 17 milhões de toneladas de soja por ano, não pode expandir quase nada, porque não tem terras férteis e um problema sério de falta de água. Então, a China precisa tanto de nós quanto nós deles. É uma relação saudável, mas que pode ser qualificada.

A Granja – De que forma o Brasil poderá ampliar a produção para atender a demanda dos mercados interno e externo?

Lovatelli – O Brasil tem 25 milhões de hectares – que já foram devidamente mensurados por entidades sérias – de pastagens degradadas na região do Cerrado. É uma área enorme. Hoje, nós somos o segundo maior produtor de soja do mundo e cultivamos 33 milhões de hectares. Ou seja, mais 25 milhões de hectares são praticamente outro Brasil produzindo soja. E o que é mais importante: sem derrubar uma só árvore.

A Granja – Em 2016 tivemos a mudança no governo dos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump. Essa novidade poderá trazer alguma mudança importante para o mercado da soja brasileira?

Lovatelli – É difícil fazer projeções. Pelo que vimos até agora, ele tem um discurso protecionista. No entanto, não sabemos se ele fará exatamente o que falou durante a campanha. Inclusive já voltou atrás em algumas questões, mas a política é assim mesmo. A cadeia soja não depende dos EUA como um cliente. O que pode afetar são outras cadeias, de produtos acabados, se houver mais proteção à indústria local. Eu, honestamente, não acredito que isso vá ocorrer. Se acontecer, será em pequena escala, até porque as instituições americanas e as grandes organizações industriais e comerciais têm um poder muito forte. Ao mesmo tempo, o Congresso americano tem um poder de veto muito grande, ou seja, o presidente não pode resolver fazer coisas da noite para o dia.

A Granja – A Abiove participa ativamente de programas que valorizam a produção sustentável da soja. Quais são as perspectivas e vantagens dessas iniciativas, considerando o cenário para o produtor, mas também o âmbito internacional?

Lovatelli – O Brasil é um objeto de desejo no que diz respeito às condições climáticas e à capacidade de gerar oxigênio com nossas matas e nossos processos. Isso tem sido pauta em países importantes, principalmente na Europa. O consumidor, cada vez mais esclarecido no mundo inteiro, exige padrões de qualidade ambiental para os produtos que compra. Isso se transformou em processo contínuo e crescente praticamente em toda a Europa. Entre os nossos clientes por lá está a Holanda, que exige que os produtos tenham um comportamento ambiental impecável, o que é perfeitamente compreensível e justo. Então, dentro desse processo, o consumidor, com o apoio de ONGs, começou a pressionar os grandes compradores europeus. Isso passou a demandar alterações no nosso comportamento, com ações, por exemplo, como monitoramento do desmatamento na Amazônia.

A Abiove saiu na frente em 2006, com a Moratória da Soja, quando decidimos que no Bioma Amazônia não compraríamos soja advinda de áreas desmatadas a partir de julho de 2006. Essa foi uma decisão da Abiove e da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais), que representam quase 80% da compra de soja do País. Criamos a moratória e em seguida convidamos as ONGs para participarem do processo. Criamos um grupo de trabalho com a indústria, as ONGs e, mais adiante, convidamos o Ministério do Meio Ambiente e organizações financeiras que disponibilizam crédito aos produtores. Além de termos visto uma grande redução do desmatamento ilegal na região, passamos a interagir com ONGs como Greenpeace, TNC, WWF e outras, de forma totalmente integrada e com um objetivo em comum. Foi a primeira vez que isso aconteceu com a indústria. Há dez anos não falávamos com essas organizações, apenas via mídia e, aí, o perdedor dessa relação éramos nós, a indústria. Hoje essa relação é extremamente construtiva, assim como o trabalho contínuo da moratória que tem resultados muito positivos.

A Granja – A associação também participa do Programa Soja Plus, que prega a sustentabilidade nas propriedades. Qual a importância das ações desse projeto?

Lovatelli – A consciência geral da população e do produtor rural mudou muito de dez anos para cá. Todos precisam trabalhar a sustentabilidade. O Soja Plus oferece ao produtor um processo de ensino nos três pilares da sustentabilidade, ou seja, na área econômica, ambiental e social, onde transmitimos, de forma gratuita, todos os conceitos para que ele possa atingir patamares de sustentabilidade da produção mais próximos da demanda internacional. Os produtores adoraram e estão aderindo ao programa com uma velocidade impressionante. Já são quatro estados que fazem parte: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia e Minas Gerais. E Goiás e Maranhão serão os próximos. São 2,7 milhões de hectares abrangidos e 8 milhões de toneladas de soja verificada em um trabalho que é realizado com parceiros em cada local, como é o caso da Aprosoja. De certa forma o programa substitui as certificações internacionais que são idealizadas em gabinetes técnicos e que não têm o conhecimento do nível de dificuldade e das condições que o produtor rural tem em sua fazenda aqui no Brasil. Temos fazendas em lugares remotos com complicações na gestão das mesmas e que precisam ser ajudadas.

A Granja – A Abiove defende o pagamento por serviços ambientais aos produtores. Como estão as discussões sobre esse tema?

Lovatelli – Gostaria de dizer que está indo bem, mas ainda não posso falar isso. Temos a lei ambiental mais completa e dura do mundo. Em nenhum outro país há uma lei em que o produtor deve preservar entre 20% e 80% da propriedade dependendo da região e não recebe nada por isso. O Governo não oferece guarida financeira para isso. Há muitos anos pedimos uma compensação, mas obviamente o mercado não quer pagar por isso. O mercado pede excelência no que produzimos, mas manter os preços de sempre. Existem algumas iniciativas, mas irrelevantes dentro do todo. Temos que continuar brigando para que o mercado efetivamente coloque a mão no bolso para nos ajudar a continuar melhorando o nosso trabalho.