Eduardo Almeida Reis

 

ADÁGIO

EDUARDO ALMEIDA REIS

O Google tem 500 mil entradas para o adágio “de médico e de louco todo mundo tem um pouco”. No meu caso, ficou faltando o arquiteto das obras que projetei e construí para moradia e outras serventias rurais. Algumas de sucesso como o depósito de ração à prova de ratos.

Quando trabalhei no Globo, as oficinas ficavam no pavimento térreo e a redação, no segundo andar. Fiz matéria de página inteira sobre ratos e conheci a consagração profissional naquela tarde. Seis funcionários das oficinas, com seus macacões sujos de graxa, subiram à redação “para conhecer o rapaz que entende de ratos”. Um de cada vez, os seis me contaram que suas casas eram infestadas de ratos. O jovem jornalista que entendia de ratos não pôde ajudálos, pois o problema é muito sério no mundo inteiro. Naquele tempo, de acordo com as publicações da Organização Mundial de Saúde, só não havia ratos nas localidades muito secas, em que a pouca água de beber era guardada em bilhas de barro. No Rio, o pessoal das zoonoses não falava da extinção, mas do “controle” dos ratos. Roedor controlado difere de roedor extinto.

Em rápidas pinceladas, meu paiol tinha base de alvenaria de metro e meio de altura. Antes do piso concretado havia uma camada de cacos de vidros de garrafas para impedir que os ratos pudessem chegar ao piso furando buracos na base. O concreto tinha uma espécie de marquise em toda a volta, de 30 ou 40 centímetros, com uma chapa de metal formando um U de cabeça para baixo.

A escada de acesso ao paiol não tocava o chão e só era descida quando a porta de metal estava aberta. A fazenda tinha luz, que não chegava ao paiol para evitar que os ratos entrassem pelos fios condutores da eletricidade. Sim, a exemplo dos nossos atletas que hoje brincam sobre fitas de cinco centímetros, e pulam, e andam, os ratos circulam pelos fios elétricos.

Em rigor, só existia um meio de o rato alcançar o depósito de ração: se viesse escondido nos sacos, hipótese em que não teria água de beber. Não sei quantos dias vive um rato sem água, mas aprendi que as pessoas, depois de 48 horas a seco, entram em grave desequilíbrio “hidroeletrolítico” e batem o pacau.

Nos anos todos em que minha engenharia funcionou, nunca tive notícia de ratos no paiol, mas os faróis dos carros, mais de uma vez, iluminaram o administrador transando com a gorda cozinheira em um depósito vizinho, o antigo paiol, que não tinha paredes, onde guardávamos os sacos de sal. Imensamente gorda, a cozinheira salgada devia ser uma delícia.

Ouvindo falar de uma granja de galinhas em que as colunas de eucalipto não-tratado ficavam sobre roletes de cimento acima do nível solo, para retardar seu apodrecimento, o “genial” arquiteto que lhes fala tratou de construir um quarto de arreios baseado naquilo que lhe contaram.

Acontece que os roletes da granja eram de concreto e tinham um pino em cima, que entrava pelo buraco feito na coluna de eucalipto. Os meus, por ignorância do arquiteto, eram de cimento sem a ferragem do concreto e tinham o pino em cima, onde mandei assentar a coluna de eucalipto. Porta, paredes de madeira, telhas de barro, arreios arrumados – a construção ficou uma beleza e foi ao chão na primeira ventania com a quebra dos roletes. Ventania assustadora, que arrancou seis araucárias de uma alameda vintenária. Ainda assim, admito que cairia com qualquer ventinho pela falta da ferragem nos roletes.

Mas o ponto alto de minhas incursões arquitetônicas foi o banheiro com aquecedor a gás engarrafado, em que os botijões e o aquecedor ficavam em um cômodo anexo, externo, e porta veneziana para ventilar.

Banheiro de 4m por 1,4m (5,6m2) com privada, o indispensável bidê e bancada com lavatório, além do boxe sem cortina ou blindex. Como? Foi muito fácil: um metro de largura por metro e quarenta de comprimento. A parede azulejada que “fechava” o boxe só tinha um metro, deixando passagem de 40 cm para o herói entrar e sair. Não respingava água para o lado de fora do boxe, que tinha o piso ligeiramente mais baixo que o resto do banheiro. Dois ralos, um no boxe e outro no piso do resto resolviam o problema. Ralos foram problemas noutros imóveis em que morei. Dois apês alugados, edifício de poderosa construtora, alcançaram a perfeição na imbecilidade arquitetônica: todos os ralos eram mais altos que os pisos, obrigando as funcionárias a recolher em um balde a água de limpeza para despejar nos ralos.