Plantio Direto

 

HORTALIÇAS: novo desafio para a evolução do SPDP

Engenheiros agrônomos Jamil Abdala Fayad, mestre, Epagri; Marcelo Zanella, extensionista, Epagri; Jucinei Comin, doutor, professor da UFSC; Leandro do Prado Wildner, mestre, Epagri/Cepaf

A sociedade vem exigindo cada vez mais alimentos de qualidade, ou seja, alimentos saudáveis, livres de agroquímicos e transgênicos e de alto valor biológico. A paisagem do meio rural catarinense desenhada pela agricultura familiar e constituída por um imbricado arranjo de lavouras, pastagens, pomares, florestas, bosques e corredores ecológicos que interligam córregos e rios conspira com esse desejo da sociedade. No Brasil, a produção de grãos conseguiu avançar, significativamente, nestes últimos 40 anos em produtividade das culturas e no controle da erosão hídrica através do sistema plantio direto na palha, mas não no sentido da produção limpa.

Já na atividade leiteira, e principalmente em Santa Catarina, a produção no sistema à base de pasto em manejo rotativo com ênfase no sistema Voisin vem caminhando rapidamente para um sistema limpo de agroquímicos e transgênicos. Porém, em se tratando de hortaliças, tanto em SC quanto no Brasil, os agricultores permanecem arraigados ao sistema convencional com uso intensivo do solo e agroquímicos, que gera sérios problemas de erosão hídrica, contaminação do solo, água, alimentos e pessoas, além de promover perdas de produtividade, qualidade de alimentos e diminuição da renda do agricultor.

Nesse contexto, o Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH) apresentase como uma proposta real e viável de transição para um sistema de produção de hortaliças saudáveis, para a sociedade e ao ambiente natural, capaz de, gradualmente, tornar mais equilibradas as relações presentes nesse cenário.

PD de brócolis: há mais de 20 anos a Epagri iniciou o SPDH, aproximando as atividades da pesquisa agropecuária e da extensão rural e aprofundando as relações técnico-científicas com ONGs e universidades

Pesquisa e extensão rural — Há mais de 20 anos a Epagri iniciou o Sistema Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), aproximando as atividades da pesquisa agropecuária e da extensão rural e aprofundando as relações técnico-científicas com ONGs e universidades (UFSC/CCA, de Florianópolis; e CAV/Udesc, de Lages/ SC). Vale salientar que o SPDH é uma proposta de transição para toda a agricultura familiar que pratica o sistema convencional ou industrial, capaz de dinamizar as transformações nos sistemas de produção e consumo de alimentos, para que evoluam na busca da complexidade do agroecossistema, promovendo a saúde de plantas e melhorando as relações sociais, políticas, econômicas e ambientais.

Apesar de seus inúmeros e conhecidos benefícios, o plantio direto adotado em larga escala no País continua fortemente dependente de insumos de síntese química, tais como os adubos altamente solúveis e agrotóxicos, com destaque para os herbicidas. Por isso, surgiu a necessidade de construir uma “estratégia de produção” que, além de diminuir expressivamente as perdas de solo, água e nutrientes, promovesse a gradativa eliminação do uso de agrotóxicos e adubos altamente solúveis, diminuísse o custo ambiental e de produção, mantivesse ou até aumentasse o rendimento das culturas e, sobretudo, promovesse o conforto do trabalho humano e a saúde dos trabalhadores e consumidores.

Apesar de seus inúmeros e conhecidos benefícios, o plantio direto adotado em larga escala no País continua fortemente dependente de insumos de síntese química, tais como os adubos altamente solúveis e agrotóxicos, com destaque para os herbicidas. Por isso, surgiu a necessidade de construir uma “estratégia de produção” que, além de diminuir expressivamente as perdas de solo, água e nutrientes, promovesse a gradativa eliminação do uso de agrotóxicos e adubos altamente solúveis, diminuísse o custo ambiental e de produção, mantivesse ou até aumentasse o rendimento das culturas e, sobretudo, promovesse o conforto do trabalho humano e a saúde dos trabalhadores e consumidores.

Com essa perspectiva surgiram os resultados das primeiras experiências do SPDH em 1998, na Epagri – Estação Experimental de Caçador/SC. Consolidava- se assim uma resposta ao cultivo de hortaliças nos modelos convencional, do cultivo mínimo e do plantio direto apenas na palha. Naquela época, participaram do grupo de trabalho o Centro de Pesquisa e Assessoria Agrícola (Cepagri), quando foi aprofundado o conceito de “transição” de um modelo de agricultura fragilizado e dependente para outro mais equilibrado e autônomo, e a Universidade do Estado de Santa Catarina, através do CAV/Udesc, de Lages, ajudou a ampliar os conceitos e melhorar as práticas de manejo de adubos verdes e de culturas, o manejo da água no SPDH e estipular a necessidade de produzir, no mínimo, dez toneladas de fitomassa (palha) por hectare ao ano pelas plantas que compõem o plano de rotação.

Alguns desses conceitos e práticas foram adotados e aprimorados nos experimentos de SPDH conduzidos na EE Ituporanga/SC e nas gerências regionais da Epagri de Ituporanga e da Grande Florianópolis a partir de 2005, mas principalmente nas Lavouras de Estudos (LE) conduzidas pelos lavoureiros do SPDH em tomate, melancia, moranga híbrida, chuchu, brássicas, cebola, mandioquinha- salsa e alface. Nessa fase, passam a integrar o grupo de trabalho pesquisadores e extensionistas da Epagri, facilitadores do Projeto Microbacias 2, professores e acadêmicos da UFSC, através do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Agroecologia, que agregaram os conceitos da “transição agroecológica”, da convivência dos cultivos com plantas espontâneas, o plantio direto no verde, o aperfeiçoamento e a ampliação do eixo técnico-científico na promoção de “saúde e conforto de plantas”, o cultivo de adubos verdes e a rotação desses com as culturas comerciais e com animais manejados no sistema de pastoreio racional Voisin (PVR) e a meta final do processo de transição agroecológica com a adoção de sistemas agroflorestais (SAFs).

Início nos anos 1990 — O SPDH surge na década de 1990 com uma proposta de ruptura aos sistemas tradicionais de produção cujo princípio básico diz respeito à construção coletiva da transição de uma agricultura convencional para a agricultura agroecológica. Seus objetivos são diminuir, até eliminar, o uso de agrotóxicos e adubos altamente solúveis; reduzir a dependência de insumos e os custos de produção; e manter e/ou aumentar a produtividade dos cultivos.

Couve-flor na palha: o plantio direto de hortaliças apresenta-se como uma proposta real e viável de transição para um sistema de produção de hortaliças saudáveis, para a sociedade e o ambiente natural

Atualmente, trabalha-se mais intensamente em dois eixos interdependentes: o político-pedagógico e o técnico-científico. Dentro da concepção metodológica assumida na construção do SPDH, no início dos trabalhos com indivíduos e coletivos de agricultores familiares, agentes de assistência técnica e extensão rural (Ater), estudantes, pesquisadores e professores é pactuado um compromisso mediante um contrato de trabalho. Nesse contrato, documentado na forma de uma Linha do Tempo, ficam registradas as atividades programadas para um ano, tais como as datas das discussões e dos cursos sobre os princípios e técnicas do SPDH, de implantação das LE e das visitas de agentes de Ater aos lavoureiros e a outros agricultores, as datas para viagens de estudo e de encontros para socialização dos resultados e, por fim, a renovação ou não do contrato para mais um ano de trabalho.

Através do contrato, efetivam-se a continuidade e a evolução do processo. As LE, por sua vez, constituem-se em verdadeiros locais de mediação entre o conhecimento popular e o científico, onde lavoureiros e técnicos (agentes de Ater, pesquisadores, professores e acadêmicos) capacitam-se ao interpretar e praticar os passos para a construção do novo sistema de produção e de relacionamento entre os envolvidos no processo. Para dar conta da demanda formalizada no contrato de trabalho, é de fundamental importância que o agente de Ater também seja um pesquisador, fazendo experimentos integrados com pesquisadores nas LE e nas estações experimentais. Dessa forma, a pesquisa tradicional realizada nas estações desempenha o papel de ferramenta complementar a outra forma de pesquisa fortemente imbricada na realidade das LE, na qual lavoureiros e técnicos estudam e interagem.

A propriedade rural transforma-se, portanto, em local de produção, adaptação e aplicação de tecnologias para construção do SPDH. As estações experimentais da Epagri, por exemplo, ao estarem conectadas à realidade dos sistemas de produção de alimentos da agricultura familiar, passam a atender as demandas de pesquisa para a adoção do SPDH, tais como o controle biológico, desenvolvimento de máquinas e equipamentos, introdução e estudos ecofisiológicos de adubos verdes, rotação de culturas e de criações no sistema de pastoreio Voisin, nutrição de plantas, fisiologia da produção, entre outras.

No eixo técnico-científico, umbilicalmente conectado ao eixo político-pedagógico, o princípio central é a promoção da saúde de planta, tendo como base os seguintes preceitos:

1. promoção do conforto da planta, orientado pela minimização de estresses nutricionais (salinidade, pH e disponibilidade de nutrientes) e ambientais (disponibilidade de água, temperatura, luminosidade, velocidade de difusão do ar, entre outros). O uso de arranjos espaciais é associado à arquitetura do sistema radicular, ao tamanho da planta e à quantidade de frutos, conforme as necessidades de cada cultura, auxiliando na obtenção do conforto da planta. São também exemplos disso a poda em cucurbitáceas (melancia e moranga), a verticalização do sistema de condução do tomateiro e o uso de indutores de resistência e da calda bordalesa a 0,3%;

2. nutrição das plantas com base nas taxas diárias de absorção de nutrientes, adequando-as às condições ambientais, às reservas nutricionais do solo e aos sinais (aparência) apresentados pela planta;

3. rotação de culturas, tendo como base de sustentação o cultivo de adubos verdes (cultivados e/ou plantas espontâneas), evoluindo para a rotação com animais manejados no sistema de pastoreio Voisin, caracterizando um sistema de integração lavoura-pecuária;

4. manutenção permanente da cobertura do solo em quantidade e qualidade, mediante a adição de massa vegetal (fitomassa) superior a dez toneladas de massa seca por hectare e por ano, por meio dos planos de rotação de culturas;

5. revolvimento do solo restrito às linhas de plantio ou berços de semeadura;

6. amostragem estratificada do solo para análise química e acompanhamento evolutivo de seus atributos através do perfil cultural do solo;

7. manejo de adubos verdes espontâneos, de forma que possam melhorar o sistema, mas com o cuidado de não prejudicar a produção da cultura econômica, evoluindo para o plantio direto no verde (estratégia eficiente para eliminar o uso dos herbicidas).

O SPDH foi desenvolvido a partir de bases metodológicas sólidas e propósitos muito bem definidos. Atualmente, conta com iniciativas em todo o território catarinense, com as mais diversas culturas hortícolas, e passa a influenciar, inclusive, os sistemas de produção de culturas tradicionais de grãos e fruteiras. Mas o mais importante é que os agricultores familiares, o público alvo para os quais os técnicos (extensionistas e pesquisadores) da Epagri trabalham, estão compreendendo a proposta de trabalho e, sentindo os resultados positivos daquilo que fazem no campo, passam a adotá- la dia após dia.