Agricultura Familiar

 

ERVA-MATE: para ir muito além do chimarrão

Katia Regina Pichelli, Embrapa Florestas

Historicamente a erva-mate tem sido fundamental para a economia de muitos municípios da Região Sul, afinal, é o principal produto não-madeireiro do agronegócio florestal na região. Fazem parte da economia ervateira aproximadamente 700 indústrias beneficiadoras, que envolvem o trabalho de cerca de 150 mil pequenos produtores, localizados em mais de 480 municípios, e que propiciam em torno de 700 mil empregos. Aproximadamente 80% da produção brasileira destina-se ao mercado interno, sendo que 96% são consumidos como chimarrão e 4%, na forma de chás e outros usos.

O setor ervateiro, que já teve um ciclo econômico no qual era chamado de “ouro verde”, passou por um longo período de estagnação, com consequente queda nos investimentos e no desenvolvimento de tecnologias. Com potencial para o desenvolvimento de novos produtos e a descoberta pelo mercado internacional, o setor precisa inovar para atender essas novas demandas. A verdade é que o setor tem muito a crescer, tanto em produtividade quanto em qualidade. Novos produtos e mercados também mostram um horizonte importante e promissor para a cadeia produtiva.

Estas foram algumas das reflexões do seminário Erva-mate XXI: modernização no cultivo e diversificação do uso da erva-mate, realizado em Curitiba, em outubro. “O setor ervateiro passa por um momento em que são necessárias discussões sobre novos produtos, mercados, exportação e inovação, além, é claro, dos desafios da pesquisa e atualização do sistema de produção da espécie para dar apoio a esse salto”, sintetiza o coordenador do evento, Ives Goulart, da Embrapa Florestas. “Nosso objetivo com esse evento foi chamar a atenção do setor ervateiro para as novas perspectivas de mercado, novas formas de manejo do cultivo e para as diversas possibilidades de usos da erva-mate, muito além do chimarrão”, explica Joel Penteado Jr., da Embrapa Florestas.

Atualmente, embora sem retomar as dimensões do passado áureo, o mercado ervateiro vem mostrando reação positiva. E a descoberta do potencial da erva-mate pelo mercado internacional mostra-se uma oportunidade de desenvolvimento. Dentro dessa perspectiva, Heroldo Secco Jr., da empresa Mate Tea From Brazil, afirma que a erva-mate ainda precisa formar uma imagem de produto confiável e de qualidade. “O mundo precisa conhecer os benefícios e a versatilidade do mate, mas também depende de o setor se organizar para saber o que quer ofertar e também querer investir”. O empresário alertou para a oportunidade de “apresentar” o mate para a juventude, pelo potencial como produto natural. O estímulo ao mercado mundial também é uma oportunidade, em especial com a diversificação de produtos.

Roberto Ferron, do Instituto Brasileiro do Mate (Ibramate), enfatiza que um dos gargalos é o processo industrial, o mesmo de 40 anos atrás. “Temos uma boa base produtiva, mas é necessário aumentar o consumo. Nesse ponto, novos produtos são uma alternativa”, acrescentou. Sobre o consumo interno, lembra ser preciso criar o hábito do consumo de ervamate no País. “À exceção do chimarrão, tererê e chá, que são conhecidos, cerca de 19 estados não conhecem o mate. Temos uma grande possibilidade de crescimento”, destaca.

Melhoramento genético — O pesquisador Ivar Wendling, da Embrapa Florestas, destaca o potencial do melhoramento genético, em especial, o desenvolvimento de cultivares com teores diferenciados de cafeína, as técnicas de clonagem e a formação de uma rede de validação de novos materiais nos estados produtores. “Melhoramento genético é uma parte muito importante, mas pequena quando se fala em qualidade e produtividade”, afirma Wendling. “O sistema de produção como um todo tem que ser trabalhado. É o conjunto de fatores que faz ter uma matéria-prima de qualidade, e com certeza a indústria tem que estar junto. Indústria e produtor têm que ser mais integrados e sincronizados”. O pesquisador acredita ainda em plantios com objetivos específicos, como, por exemplo, para produtos energéticos, chimarrão descafeinado, etc. “Não precisamos ter áreas grandes, mas sim nichos de mercados diferentes. Isso nos mostra o potencial que a erva-mate nos dá”.

Dentro do desenvolvimento de novos produtos e do potencial da erva-mate, a professora Grace Gossmann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, salienta que a erva-mate é uma matéria-prima com ampla disponibilidade. “Mas temos a necessidade de padronizar essa matéria- prima para validar ensaios biológicos de extratos e frações”, sugere. “Há conhecimento científico que justifica seu uso no desenvolvimento de novos compostos ativos”, explica. “No entanto, o desenvolvimento de produtos de erva-mate somente será efetivado através de uma rede de colaboradores”.

Uma das conclusões do seminário é que o setor precisa de discussões para encontrar novas possibilidades de usos da matéria-prima erva-mate

Juliana Montagner, da Associação dos Amigos e Parceiros da Erva-mate do Polo do Alto do Vale do Taquari, sediada no Rio Grande do Sul, ressalta que os desafios tecnológicos da produção da ervamate são imensos. “É uma planta que está sendo projetada para o mundo. Precisamos agregar valor internamente e também preparar a erva-mate para o Brasil e para o mundo”, pondera. “Essas inovações estão no campo, na pesquisa, na extensão rural, na aplicação disso ao campo, inovações na indústria, inovações nos produtos. E tudo isso de uma forma que proporcione o desenvolvimento sustentável da erva-mate”, complementa.

Efeitos na saúde — A discussão sobre a composição química da erva-mate e seus efeitos sobre a saúde humana são tema do trabalho de Nelson Bracesco, da universidade Udelar, do Uruguai. O país tem um grupo interdisciplinar de estudos com erva-mate e saúde, que promove o estudo e a sensibilização sobre o tema. Bracesco salienta a necessidade de mais pesquisas a respeito do efeito da erva-mate no organismo e para também desvendar mitos, mostrando ao consumidor que a erva-mate é um produto saudável. “A erva-mate tem mais polifenóis totais que o vinho”, exemplifica. “E existem trabalhos que mostram os benefícios do mate na redução de processos inflamatórios e também de colesterol”, acrescentou. “Estudos vão comprovar futuramente que a erva-mate tem propriedades antimutagênicas, em especial, no combate ao câncer”.

O Seminário foi promovido pela Embrapa Florestas, Ibramate, Instituto de Florestas do Paraná, Instituto Emater Paraná, Associação dos Engenheiros Agrônomos do Paraná/Curitiba e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR). Mais informações sobre o evento e as demais palestras em www.embrapa.br/florestas.