Fitossanidade

 

FERRUGEM: o enfrentamento ao maior inimigo

O monitoramento da doença e a sua correta identificação nos estádios iniciais são ações fundamentais para o controle eficiente, assim como a escolha do mais adequado fungicida. A seguir, um verdadeiro manual de como enfrentar a mais perigosa das ameaças à sua lavoura de soja

Claudia V. Godoy, fitopatologista da Embrapa Soja

Conforme as semeaduras avançam para novembro e dezembro, a multiplicação do fungo nas primeiras lavouras aumenta a quantidade de esporos no ambiente (na imagem, soltando-se da planta), o que pode favorecer a antecipação dos sintomas

Com a maioria das áreas de soja semeadas na safra 2016/17, segue a preocupação do produtor de como proteger suas lavouras da ferrugemasiática. Desde o seu relato no Brasil, em 2001, a ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, tem se configurado como a principal doença da cultura. Isso se deve ao seu alto potencial de dano e constante presença em praticamente todas as regiões produtoras ao longo desses anos. Após 15 safras de convívio com a ferrugem, muitas informações sobre a doença e seu controle foram geradas e acrescentadas ao que se conhecia até a sua introdução. No entanto, cada safra tem apresentado um padrão diferente, em razão das variações climáticas, e desafios surgem tornando as recomendações de manejo dinâmicas de forma que se ajustem às novas situações.

Medidas como a adoção do vazio sanitário, período de 60 a 90 dias sem plantas de soja durante a entressafra, devem ser tomadas antes da implantação da lavoura. Para escapar da doença, pode-se realizar a semeadura de cultivares precoces logo após o término do vazio, para aproveitar a redução de esporos do fungo proporcionada por esse período sem soja. As cultivares com genes de resistência ainda são minoria entre os materiais disponíveis, mas representam uma importante ferramenta no manejo dessa doença. Após semeada a soja, resta ao produtor monitorar para verificar o aparecimento da doença e utilizar os fungicidas para a proteção da lavoura.

A identificação dos primeiros sintomas na lavoura não é uma tarefa fácil para o produtor. Apesar de muitos conhecerem os sintomas da ferrugem, eles são bastante diminutos e discretos, podendo passar despercebidos até que as primeiras folhas comecem a amarelecer. Embora o fungo seja disseminado pelo vento e venha de fora da lavoura, os primeiros sintomas iniciam-se pelo terço inferior das plantas e aparecem como minúsculas pontuações mais escuras que o tecido sadio da folha. A confirmação da ferrugem é feita pela constatação, no verso da folha (face abaxial) de saliências semelhantes a pequenas feridas ou bolhas, que correspondem às estruturas de reprodução do fungo (urédias). Essa observação é facilitada com a utilização de uma lupa de 20 a 30 aumentos ou sob um microscópio estereoscópico.

O monitoramento da doença deve ser realizado de forma mais abrangente possível, com maior atenção para as primeiras semeaduras e os locais com maior acúmulo de umidade, devendo ser intensificado próximo ao florescimento (cultivares determinadas) ou ao fechamento das ruas de semeadura (cultivares indeterminadas) e/ou à constatação da ferrugem na região. Deve-se coletar folhas dos terços médio e inferior das plantas e observar contra a luz, procurando pontuações escuras. Os sintomas tendem a começar por baixo na planta devido ao microclima mais favorável (maior umidade) e também a proteção contra raios UV, que apresentam efeito deletério para os esporos do fungo. Outras doenças apresentam sintomas semelhantes aos da ferrugem, sendo que a confirmação é feita pela observação das urédias no verso das folhas.

Nas primeiras semeaduras, dificilmente os sintomas de ferrugem são observados antes do fechamento das ruas de plantio. À medida que as semeaduras avançam para novembro e dezembro, a multiplicação do fungo nas primeiras lavouras semeadas aumenta a quantidade de esporos no ambiente, podendo favorecer a antecipação do aparecimento dos sintomas.

Mapa da doença — Para auxiliar o produtor, o Consórcio Antiferrugem (CAF) disponibiliza em sua página (www.consorcioantiferrugem.net) o mapa de ocorrências de ferrugem relatadas na safra. O importante no mapa são as primeiras ocorrências que alertam o produtor para a presença do fungo na região. Essas ocorrências são relatadas por laboratórios credenciados ao Consórcio, mas podem ser informadas pelo próprio produtor pelo e-mail caf.cnpso@embrapa.br. A tendência observada ao longo dos anos de monitoramento da ferrugem é que relatos em lavouras comerciais iniciam-se após a segunda quinzena de novembro, com cadastros em praticamente todas as regiões em dezembro. Na safra 2016/17, os primeiros relatos foram em Taquarituba/SP, em 11 de novembro e Castro/PR, em 18 de novembro, ambos realizados por pesquisador da Fundação ABC, integrante do Consórcio Antiferrugem.

O monitoramento da ferrugem e a sua identificação nos estádios iniciais são essenciais para o controle eficiente. O Consórcio Antiferrugem recomenda que o controle da doença seja realizado com aplicações de fungicidas no início do aparecimento dos sintomas, quando ocorrerem no vegetativo, ou preventivamente. O controle preventivo deve levar em conta os fatores necessários à ocorrência da ferrugem (presença do fungo na região, idade da planta e condição climática favorável), a logística de aplicação (disponibilidade de equipamentos e tamanho da propriedade), a presença de outras doenças e o custo do controle.

Além do momento correto para o controle, a escolha do fungicida é outro fator muito importante para o sucesso no manejo da doença. Apesar de existirem mais de 120 fungicidas registrados no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), eles vêm sendo reavaliados devido à redução de eficiência em decorrência da seleção de populações do fungo P. pachyrhizi menos sensíveis/resistentes aos mesmos.

Controle químico — Os principais fungicidas registrados são misturas de fungicidas sítio-específicos, isto é, agem em pontos específicos do metabolismo do fungo, como os fungicidas Inibidores da Desmetilação (IDM, “triazóis”), que atuam inibindo a formação da parede celular do fungo e representam ao redor de 70% dos fungicidas registrados para a ferrugem; os Inibidores da Quinona externa (IQe, “estrobilurinas”) e os Inibidores da Succinato Desidrogenase (ISDH, “carboxamidas”), que agem inibindo a respiração do fungo.

A menor sensibilidade aos fungicidas IDM e IQe já foi confirmada no Brasil, envolvendo mutações ou superexpressão de genes do fungo. Embora normalmente esses mecanismos afetem todos os fungicidas de um mesmo grupo, a resistência/ menor sensibilidade a fungicidas ocorre de forma diferenciada para os ingredientes ativos dentro dos grupos. Dessa forma, é importante que o produtor fique atento para os resultados de eficiência dos fungicidas disponibilizados pelos ensaios em rede da safra anterior. Desde 2003/ 04, ensaios em rede vêm sendo realizados por instituições públicas e privadas com o objetivo de comparar a eficiência de fungicidas para diferentes alvos biológicos, sendo realizados para ferrugem desde a primeira safra.

Nos ensaios realizados para o controle da ferrugem-asiática na safra 2015/16, foram avaliados 17 fungicidas, sendo três deles incluídos para monitoramento da sensibilidade do fungo (T2 a T4), seis ainda em fase de registro (T12 a T15, T17 e T18) e os demais (T5 a T11 e T16) são misturas prontas de diferentes modos de ação (tabela 1). Nesses ensaios são realizadas aplicações sequenciais dos produtos, iniciando no pré-fechamento e reaplicando em intervalos de 21 e 14 dias. As áreas para condução dos ensaios são semeadas tardiamente, para aumentar a probabilidade de ocorrência da doença, em função do aumento de inóculo do fungo ao longo da safra.

Nos ensaios realizados em 2015/16, as maiores porcentagens de controle foram observadas para as misturas de IQe com o ISDH benzovindiflupir (T18 - 78% e T11, 76%), seguido das misturas triplas de IQe, IDM e ISDH (T17 - 71%; T16 – 69%) e da mistura de IQe + IDM (T8 – 68%) (Tabela 1). As misturas prontas de fungicidas IDM + IQe com fungicida multissítio (mancozebe – T13 a T15) apresentaram controle variando de 55% a 64%, sendo observada redução de severidade significativa com o aumento da dose da mistura azoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T14 e T15). A menor severidade dentre essas misturas foi observada para picoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T13).

A baixa eficiência de controle com ativos isolados: tebuconazol (T2 - 19%), azoxistrobina (T4 - 24%) e ciproconazol (T3 - 26%) evidenciam a menor sensibilidade do fungo P. pachyrhizi aos fungicidas IDM (T2 e T3) e IQe (T4), confirmada por meio de bioensaios e estudos moleculares.

Nos ensaios em rede os fungicidas são avaliados individualmente, em aplicações sequenciais, para determinar a eficiência de controle. Essas informações devem ser utilizadas na determinação de programas de controle, priorizando sempre a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação e adequando os programas à época de semeadura. Aplicações sequenciais de fungicidas com um mesmo modo de ação podem selecionar indivíduos resistentes/ menos sensíveis, a exemplo do que aconteceu com os IDM e IQe.

Fungicidas multissítios foram avaliados quando a ferrugem foi relatada no Brasil. No entanto, em função da menor eficiência de controle comparado aos fungicidas IDM e misturas de IDM + IQe nesses testes iniciais, foram desconsiderados para o controle da ferrugem. Com a redução de eficiência dos fungicidas IDM e das misturas de IDM + IQe, fungicidas multissítios têm sido registrados para o controle de doenças na soja e sua utilização aumentou na última safra em associação aos fungicidas sítio-específicos. Na safra 2014/15, foi iniciada a avaliação dos fungicidas multissítios pela rede de ensaios para controle da ferrugem, isolados e em combinações com fungicidas sítio-específicos.

Nos ensaios com multissítios isolados são realizadas cinco aplicações, iniciando no pré-fechamento e reaplicando com intervalo médio de dez dias entre as aplicações, para conhecer a eficiência individual de cada fungicida. Fungicidas multissítios não penetram na folha como os fungicidas sítio-específicos e são mais sujeitos a lavagem por chuva e degradação, por isso, o intervalo de reaplicação desses produtos é menor.

Nos ensaios em rede da safra 2015/ 16, a porcentagem de controle dos melhores fungicidas multissítios, com cinco aplicações, variou de 56% a 67% em relação ao tratamento testemunha (tabela 2), sendo inferior ao tratamento com o fungicida sítio-específico azoxistrobina + benzovindiflupir, com três aplicações. Os fungicidas multissítios têm sido considerados como uma ferramenta importante em programas de manejo da ferrugem na soja, por aumentarem a eficiência de controle dos fungicidas com problemas de resistência, além de poder atrasar o aparecimento nos que ainda não apresentaram.

Além dos ensaios com os produtos isolados, ensaios com fungicidas multissítios em combinação com fungicidas sítio- específicos foram realizados em 2014/15 e 2015/16. De forma geral, o aumento de eficiência do fungicida sítio- específico em combinação com o multissítio é maior quanto menor a eficiência do sítio-específico isolado, mas nem sempre é suficiente para um controle eficiente da doença. A dose do fungicida multissítio é importante para obter os resultados observados nos ensaios em rede e há interação entre o fungicida sítio-especifico e o fungicida multissítio, devendo ser evitadas generalizações. Os fungicidas multissítios podem ser uma ferramenta importante em programas de manejo da ferrugem-asiática, sendo necessário o registro no Mapa para a sua utilização.

Pelos resultados dos ensaios em rede pode-se observar que há um número limitado de fungicidas com boa eficiência de controle para ferrugem. E os novos fungicidas, em fase de registro, são novas combinações dos modos de ação já disponíveis no mercado ou associações com fungicidas multissítios. Não há nenhum modo de ação novo em teste nos ensaios para entrar no mercado nos próximos anos. Por ser um processo natural, é grande a probabilidade de que a resistência à maioria dos novos fungicidas sítio-específicos ocorra. No entanto, a vida útil desses produtos pode ser prolongada com o uso racional e a adoção de boas práticas culturais.

Uma das formas de reduzir a pressão de seleção para resistência é limitar o número de aplicações de fungicidas na cultura. Como o aumento na necessidade de utilização de fungicidas ocorre com o avanço na época de semeadura, a definição de datas-limites de semeadura pode contribuir para a redução do número de aplicações. Instruções normativas têm sido propostas limitando a data de semeadura para reduzir a pressão de seleção para resistência.

Os estados de Goiás, do Mato Grosso e do Paraná, limitaram a semeadura da soja até 31 de dezembro e, Tocantins, até 15 de janeiro. O objetivo é reduzir as semeaduras que necessitam de maior número de aplicações para atrasar a resistência aos fungicidas ISDH. Essas semeaduras após janeiro representaram menos de 1% da área de soja no Brasil, no entanto, o uso intensivo de fungicidas nessas áreas pode acelerar a perda de eficiência dos fungicidas, colocando em risco o controle da ferrugemasiática. Os resultados apresentados só foram possíveis com o trabalho conjunto de diversas instituições de pesquisa, que integram o Consórcio Antiferrugem.