Soja

 

Soja em VÁRZEAS de arroz ganha terreno no RS

No Rio Grande do Sul, a área de soja cultivada em várzeas de arroz irrigado saltou de 11.150 hectares para 270.368 em apenas seis anos. Entre as vantagens, o sistema é uma eficaz ferramenta no controle de doenças, pragas e invasoras, como o arroz vermelho

Ana Claudia Barneche de Oliveira e Ana Paula Afonso Rosa, pesquisadoras da Embrapa Clima Temperado

O cultivo da soja em áreas de várzea de arroz irrigado do Rio Grande do Sul tem crescido nas últimas safras como alternativa de diversificação de culturas e opção extra de renda. A área cultivada no estado com lavouras de arroz irrigado gira em torno de 1 milhão de hectares, sendo que a expansão das áreas cultivadas com soja passou de 11.150 hectares 2010 para 270.368 em 2016, com produtividades Fotos: Ana Paula Afonso Rosa médias variando de 1.800 a 2.300 quilos/ hectare. Nessa nova fronteira da soja está sendo desenvolvido todo um trabalho técnico a fim de fornecer informações detalhadas sobre o melhor sistema de produção.

O primeiro impacto dessa mudança é econômico, pois implica na reestruturação da propriedade em termos de sustentabilidade financeira. O segundo é tecnológico, já que os principais fatores limitantes para que essa cultura seja produtiva e rentável nesse sistema são a deficiente drenagem natural do solo e a ocorrência de frequentes períodos de estiagem, o que obriga os produtores a buscarem avanços tecnológicos envolvendo o manejo da cultura e cultivares mais adaptadas ao sistema.

Além desses aspectos, o cultivo da soja em áreas de várzea de arroz irrigado do Rio Grande do Sul também se constitui em uma ferramenta eficaz no controle de doenças, pragas e invasoras como o arroz vermelho na cultura do arroz irrigado. Estabelecer as bases de um manejo adequado que permita potencializar e estabilizar o rendimento da soja em solos arrozeiros tem sido o foco das pesquisas conduzidas pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) e pela Embrapa Clima Temperado, sediada em Pelotas/RS.

Programa de melhoramento — A Embrapa Clima Temperado e o Irga, bem como outras instituições de pesquisa, tem dado ênfase no Programa de Melhoramento da Soja para áreas de arroz, com o desenvolvimento de novas cultivares. Assim como o trabalho de pesquisa abrange as áreas de manejo do solo (drenagem, drenos superficiais e profundos, camalhões) compactação de solos, integração lavoura -pecuária e irrigação. Com isso, essas instituições vêm obtendo resultados na área do melhoramento com o lançamento e a identificação de cultivares mais tolerantes ao encharcamento.

Outros resultados promissores envolvem o manejo dos solos com a técnica sulco/camalhão em áreas sistematizadas com e sem declive para esses cultivos. O sistema consiste na estruturação da lavoura para a irrigação por sulcos, obtendo-se, ao mesmo tempo, grande benefício em drenagem, com o cultivo sobre os camalhões formados entre os sulcos. Essa técnica, como sistema complementar de drenagem superficial do solo, tem se mostrado muito eficiente mesmo nos cultivos em áreas sistematizadas sem declive, onde não existe um gradiente para escoamento superficial da água. O principal requisito para a irrigação por sulcos é que o terreno tenha uma declividade constante e uniforme, requerendo geralmente a sistematização do terreno.

Pragas, doenças e controle — Outro aspecto importante é o controle de pragas, e a lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis includens) tem se tornado um sério problema fitossanitário na cultura da soja, com vários surtos ocorrendo isolados ou associados à lagartada- soja (Anticarsia gemmatalis). No ambiente de áreas de várzea de arroz quando cultivado com soja, o que tem sido visto ao longo dos anos é que as primeiras infestações são de lagarta-dasoja e, logo após, aumenta consideravelmente a ocorrência de falsa-medideira (figura 1).

Figura 1. Número médio de lagartas de Anticarsia gemmatalis e Chrysodeixis includens na Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado na safra 2013/2014, cultivar Potência. Capão do Leão/RS, 2014.

Atualmente, de uma a três aplicações de fungicidas para o controle da ferrugem são realizadas pela quase totalidade dos agricultores que cultivam soja no Rio Grande do Sul, resultando em algumas consequências indesejáveis que afetam o manejo de pragas na cultura. Por exemplo, a menor incidência de fungos entomopatogênicos como a Nomuraea rileyi (doença-branca) e daqueles pertencentes ao grupo dos Entomophthorales, tais como Pandora sp. e Zoophthora sp. (doença-marrom), podem estar correlacionados ao uso frequente de fungicidas.

A lagarta C. includens era naturalmente mantida em equilíbrio por epizootias desses fungos que, certamente, estão sendo controlados pelos fungicidas utilizados para o controle da ferrugem-dasoja. Essa situação tem se tornado frequente em áreas de várzea de arroz. A utilização de pulverizações sequenciais pelos produtores visando evitar o aumento de lagartas torna-se mais comum devido à pouca eficiência no controle das lagartas-falsa-medideiras. No entanto, há pouco estudo sobre o momento adequado das pulverizações e dos inseinseticidas mais eficientes para controle satisfatório das lagartas da subfamília Plusiinae na cultura da soja. O fato de C. includens possuir o hábito de se alimentar das folhas do terço inferior das plantas dificulta o contato das mesmas com os inseticidas, principalmente considerando que as grandes infestações ocorrem após o fechamento da cultura.

A simples observação visual não expressa a população real presente na lavoura. Atualmente se recomenda que as ações de controle devem ser iniciadas quando a desfolha for de 30% no estádio vegetativo e 20% no reprodutivo. Paralelamente à desfolha, recomenda-se observar o nível de ação baseado na densidade populacional de lagartas, ou seja, realizar a intervenção de controle quando forem observadas através do pano-de-batida 20 lagartas grandes (>1,5 cm) por metro. Para Helicoverpa armigera, devido a sua recente introdução no País, estudos sobre o nível de ação ainda são insipientes. Os dados disponíveis hoje são baseados na literatura internacional (Tabela na página seguinte).

A percepção desses resultados tem gerado diversos movimentos em prol da consolidação da soja em um ambiente tradicionalmente liderado pela cultura do arroz irrigado. Nesse sentido, houve uma consolidação da área cultivada com soja em áreas de várzea do cereal. Mas ainda há espaço para uma expansão, pois a falta de áreas para expansão e o elevado preço da terra nas regiões tradicionais de produção de soja também tem sido outro motivo para que produtores dessas regiões busquem outras fronteiras ainda dentro do estado e experimentem outras formas de manejo, em diferentes tipos de solos destas áreas sujeita a inundação do solo.

O primeiro impacto do cultivo de soja por parte de arrozeiros é o aspecto econômico, pois ocorre a reestruturação da propriedade em relação à sustentabilidade financeira