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MANUTENÇÃO para colher melhor

Para prolongar a vida útil das colheitadeiras e evitar, ou ao menos minimizar, paradas indesejáveis no momento da colheita, os cuidados e ajustes nos múltiplos componentes da máquina são muitos e minuciosos. Alguns reparos devem ser feitos na entressafra, enquanto que outros, diariamente

Luis Fernando Vargas de Oliveira, Marcelo Silveira de Farias, Alfran Tellechea Martini, Juan Paulo Barbieri e Giácomo Müller Negri, do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema), da Universidade Federal de Santa Maria/RS

A operação de colheita é uma das etapas mais importantes na produção agrícola, visto que essa operação é responsável pela retirada do produto final do campo. Nesse contexto, são inseridas as colhedoras de grãos, máquinas que realizam as funções de corte, recolhimento, trilha, separação, limpeza e armazenamento dos grãos. O sistema de corte e recolhimento é composto pela plataforma de corte e canal alimentador, já no que se refere ao sistema de trilha, três tipos são disponibilizados aos agricultores: tangencial (convencional), híbrido e axial, sendo que este último substitui o cilindro e o sacapalha por um ou dois rotores dispostos longitudinalmente na colhedora.

A limpeza dos grãos, retirada de impurezas, é feita por peneiras que possuem aletas de abertura regulável. Essa limpeza é auxiliada por um fluxo de ar oriundo do ventilador, fazendo com que as impurezas mais leves sejam retiradas para fora da máquina. Após passar pelo processo de limpeza, os grãos são transportados e armazenados no tanque graneleiro.

Para que todos os sistemas da colhedora funcionem de forma correta e confiável, é imprescindível a manutenção dos componentes de cada sistema. Normalmente, as manutenções de colhedoras são executadas nos períodos de entressafra, logo após o término da colheita, quando as máquinas passarão por um período de ociosidade e são conhecidos todos os problemas apresentados durante a última colheita. Visando prolongar a vida útil dessas máquinas e evitar/minimizar paradas indesejáveis durante a colheita, esse trabalho tem por objetivo apresentar os principais pontos de manutenção de uma colhedora de grãos, para cada um dos seus sistemas de funcionamento, como o descrito a seguir:

Sistema de corte e alimentação: A operação de colheita de grãos inicia com o corte das plantas que serão processadas. Esse corte é realizado por facas que realizam um movimento alternativo, e contra facas fixadas nas ponteiras da plataforma. A manutenção desses componentes consiste na troca de peças danificadas, como dedos quebrados ou facas desgastadas. Ao fazer o posicionamento e a centralização do material cortado, passa-se para o molinete e ao condutor transversal (caracol ou draper). No molinete, faz-se necessária a troca dos dedos dos pentes, quando danificados. O mesmo deve ser feito com os dedos retráteis do condutor transversal. Seguindo as recomendações do fabricante, faz-se rigorosamente a lubrificação dos mancais de rolamentos e o ajuste da tensão das correias.

O sistema de condução transversal do tipo draper surge como alternativa para colhedoras de médio e grande portes. Essa tecnologia é formada por uma esteira de borracha na parte inferior da plataforma que proporciona redução de perda de grão e maior homogeneidade na alimentação da máquina, reduzindo obstruções. A esteira apresenta ressaltos para melhorar a aderência das plantas. Devido ao desgaste desses ressaltos, a esteira deve ser substituída.

Após o corte e a centralização do material, o mesmo é conduzido até o início do processamento pelo condutor longitudinal ou canal alimentador, conhecido popularmente como “pescoço”, onde uma esteira metálica conduz o material até a entrada do cilindro ou rotor, iniciando assim o processo de trilha. Com o passar do tempo, acentua-se o desgaste dessa esteira, sendo necessário o ajuste da tensão e a troca das travessas.

Sistema de trilha e separação: No Brasil, as colhedoras de grãos contam com diferentes sistemas de trilha e separação: tangencial (saca-palha), sistema axial (rotor) e híbrido, com predomínio do sistema axial, em que 75% dos modelos ofertados são equipados com esse sistema. A manutenção desses sistemas é bastante simples, mas por serem itens localizados em pontos de difícil acesso na máquina, o período recomendado para realizar a manutenção é na entressafra das culturas. Já no período de colheita, realizam-se verificações rotineiras, como limpeza e lubrificação de componentes, em especial de mancais e rolamentos.

Nos sistemas de trilha tangencial deve-se observar o desgaste do côncavo e barra ou dentes do cilindro, sendo que, quando apresentarem desgaste excessivo, recomenda-se a substituição dos componentes, pois poderá ocasionar em perdas na qualidade do material trilhado. No sistema saca-palha, realiza- se a verificação das telas, observando se as mesmas não estão obstruídas e se os mancais não apresentam desgastes.

Nas colhedoras de fluxo axial, existe uma grande diversidade de componentes utilizados pelos fabricantes. Porém, como regra geral, deve-se verificar o desgaste das barras de raspagem, gengivas, côncavo, batedores e rolamentos do eixo. Esses componentes, quando danificados, podem ocasionar vibrações excessivas que comprometem o funcionamento de todo o sistema.

Sistema de limpeza: Esta unidade é responsável pela limpeza final dos grãos, a qual é feita de forma mecânica e pneumática. O sistema de limpeza é composto por bandejão, peneiras, superior e inferior, extensão da peneira superior (peneira de retrilha), ventilador e chapas defletoras de ar. A limpeza desses componentes é a principal manutenção a ser feita. Ela deve ser realizada diariamente antes de iniciar a colheita e/ ou ao longo da jornada de trabalho, especialmente em condições de umidade na lavoura. Quando os componentes apresentarem desgaste excessivo, é necessária a sua substituição.

As peneiras devem estar limpas e desobstruídas. Caso ocorra acúmulo de palha sobre as mesmas, os grãos não passarão pela peneira, sendo arrastados para a parte posterior das peneiras, provocando excesso de retrilha. Com a máquina sobrecarregada, há riscos maiores de quebra e de perdas de colheita. Por isso, a peneira superior deve trabalhar sempre limpa, permitindo apenas a passagem dos grãos. No que diz respeito ao ventilador, devido à rotação elevada de trabalho, a lubrificação criteriosa dos mancais de rolamentos é essencial.

Sistema de transporte e armazenamento: Dentre os itens que compõem as colhedoras, também é imprescindível atentar para a manutenção daqueles destinados a manejar o material colhido, tais como elevador de grãos limpos e de retrilha, sistema de carregamento e condutor helicoidal de abastecimento e descarga (rosca varredora) do reservatório de grãos. Os itens são compostos por correntes, engrenagens e materiais metálicos, os quais sofrem desgastes. A vida útil desses componentes está relacionada à maneira com que o equipamento é utilizado, à característica abrasiva do material colhido e, principalmente, à manutenção realizada nas partes que os constituem.

Desse modo, há necessidade de que os operadores sigam as recomendações dos fabricantes, principalmente no que diz respeito à lubrificação periódica dos mancais e das correntes. Além disso, após o término da colheita das culturas, devem-se revisar os rolamentos e engraxá- los, já as correntes dos elevadores de grãos e de retrilha devem ser removidas, limpas e lubrificadas com óleo.

Há também a necessidade de realizar a lubrificação das caixas dos elevadores, o que irá evitar a oxidação dos metais e prolongará a vida útil do sistema. Não menos importante que os itens citados anteriormente, devem-se revisar os condutores helicoidais de carga e descarga do reservatório de grãos e, quando necessário, eles devem ser revestidos ou substituídos. Depois de realizados esses procedimentos, os componentes devem ser montados novamente, tomando cuidado com o alinhamento das engrenagens e o tensionamento e a fixação dos sistemas e das correntes presentes.

Na manutenção do motor, limpar ou trocar o filtro de ar, visto que algumas culturas produzem grande quantidade de poeira, levando a acumular maior quantidade de pó no filtro, o que obstrui a admissão de ar

Motor: O motor é um dos principais componentes de qualquer máquina agrícola, nas colhedoras é o responsável pelo fornecimento de potência para o deslocamento e acionamento de todo o sistema industrial da máquina. Tendo em vista a importância dessa fonte de potência na operação de colheita, é necessária a execução de manutenção adequada. Na manutenção do motor, deve-se proceder com a limpeza ou troca do filtro de ar, em que a opção pela troca ou limpeza desse componente dependerá do seu tempo de uso e das condições do ambiente de trabalho, visto que algumas culturas produzem grande quantidade de poeira, acumulando maior quantidade de pó no filtro, obstruindo a admissão de ar.

Além do sistema de admissão de ar, o motor depende do sistema de alimentação de combustível. Para seu correto funcionamento, deve ser feita a troca dos filtros de combustível, em intervalos de tempo determinados pelo fabricante, a fim de evitar problemas na bomba e nos bicos injetores. O óleo lubrificante e o filtro devem ser substituídos conforme orientação do fabricante. Esse procedimento visa à integridade dos componentes móveis do motor, reduzindo, principalmente, o atrito entre os componentes. Para melhorar o arrefecimento do motor, o radiador deve estar sempre limpo, com as aletas desobstruídas, para facilitar a troca de calor entre o fluido de arrefecimento (água) e o fluxo de ar gerado pela ventoinha.

No período de colheita, as colhedoras de grãos devem apresentar alta confiabilidade, garantindo, assim, elevado ritmo operacional (hectares/hora). Mas para que isso ocorra, seus sistemas devem funcionar adequadamente. Nesse sentido, as manutenções devem ser realizadas durante a entressafra, quando os componentes danificados durante a colheita da safra anterior são substituídos, e também diariamente, através da limpeza de diversos componentes da máquina, lubrificação de pinos graxeiros e verificação do nível de óleo do motor. Esses procedimentos são importantíssimos para diminuir a probabilidade de quebras e, consequentemente, atrasos durante a operação de colheita.