Milho

 

As perspectivas para o MILHO 2017

São muitos os fatores que vão definir a rentabilidade do cereal no ano que vem, sobretudo para a segunda safra. Câmbio, exportações e consumo brasileiros, La Niña, Donald Trump, estoques americanos, etc. Hoje as cotações em Chicago são as mais baixas em oito anos

Paulo Molinari, consultor de Safras & Mercado

Acaracterística do mercado de commodities é de utilizar o perfil sazonal dos seus quadros de oferta e demanda mais os fatores econômicos para definir uma trajetória de preços. De 2007 até 2014, os mercados mundiais encontraram espaço nesse ambiente de sequentes quebras de safra nos principais produtores mundiais e consequente retração de estoques para gerar um ambiente expressivo para preços internacionais.

Associado a isso, o dólar “fraco” no ambiente internacional permitiu a ampliação do comércio internacional e sustentação na demanda. Esse ciclo terminou em 2014/15. Agora, o quadro é de estoques altos nas principais commodities, petróleo extremamente baixo e dólar “forte”. Fatores que seguem pressionando as cotações internacionais e sinalizando que cada commodity precisará de fatos novos para gerar um ambiente positivo para os preços ao longo de 2016/17.

As últimas safras mundiais têm sido muito favoráveis à produção. Tanto América do Sul quando Estados Unidos têm produzido safras continuadamente recordes como reflexo da demanda e dos preços médios acima dos custos de produção. Esse movimento cíclico de preços recordes trouxe também o incentivo ao plantio em novas áreas e à elevação da tecnologia aplicada.

Basicamente, essa transição de 2016 para 2017 depende agora das condições desta nova safra sul-americana e seus efeitos para os preços no primeiro semestre de 2017. Deve-se sempre lembrar que, assim como preços altos incentivam a produção, preços baixos podem inverter esse ritmo positivo motivacional para o produtor.

Os preços não são motivadores para um plantio mais animador na safrinha 2017, e espera-se uma retração de área plantada para o próximo ano

Efeito La Niña — Fora esse quadro, o restante é ritmo de demanda. Preços baixos motivam a demanda e não há porque visualizar demanda em queda para 2016/17. O fenômeno climático La Niña instalou-se neste segundo semestre de 2016 e terá o seu auge no verão sul-americano de 2017. Isso quer dizer que, após uma safra recorde dos Estados Unidos, o foco é o movimento especulativo climático sobre a América do Sul. O La Niña tradicionalmente traz movimentos de clima que estabelecem chuvas abaixo do normal para a Argentina e ao Sul do Brasil. Esses efeitos dependem da intensidade do fenômeno, a qual somente se saberá mais adiante.

O milho brasileiro terá um 2017 muito diferente do registrado em 2016. O difícil ano de 2016 foi uma consequência da desatenção do setor consumidor em relação aos fatos ocorridos no mercado interno brasileiro, como uma superexportação e um forte corte de plantio na safra de verão. Criou-se o ambiente de que uma safrinha sempre crescente é suficiente para atender mercado interno e exportação e notouse que isso não é sustentável. Além disso, a atenção a informações distorcidas e irreais em relação ao quadro brasileiro de oferta e demanda levaram os consumidores a uma visão distorcida do abastecimento futuro.

Para 2017, a primeira grande mudança está na própria atitude dos consumidores nacionais. Há uma maior preocupação em se posicionar em estoques, a antevisão de que os mercados somente se acomodam com a entrada da safrinha e não apenas com a produção de verão, bem como pela clara situação de que o consumo interno não cedeu a ponto de tornar o quadro confortável.

Por outro lado, a produção de verão tende a ser melhor do que a de 2016, ou seja, os preços motivaram os produtores ao plantio. E isso tende a ajudar consumidores do Sul e parte do Sudeste, regiões que estão apresentando um melhor aumento de área. Porém, deve-se entender que não houve forte recuperação de área em Minas Gerais e Goiás, e essas regiões somente terão regularização no segundo semestre, assim como o Nordeste, que somente terá sua safra em meados de junho à frente.

Sem dúvida, parece que o primeiro semestre de 2017 será bem mais acomodado em termos de preços para o milho. Ou, pelo menos, longe do quadro vivido em 2016. Porém, é preciso ainda avaliar os efeitos do La Niña sobre a safra sul-americana, bem como o perfil de preços com efeitos nas safras seguintes.

Menor cotação em Chicago — Os níveis de preços na Bolsa de Chicago hoje são os menores em oito anos. Os estoques norte-americanos superam 60 milhões de toneladas. Parece natural que haverá cortes de área plantada nos Estados Unidos na safra 2017, situação que poderá gerar alguma movimentação de preços internacionais a partir de abril e um maior foco no clima nas safras do Hemisfério Norte.

Espera-se também um efeito negativo sobre o plantio da safrinha 2017 brasileira. Os níveis de porto apontam para R$ 33 a R$ 35 a saca para agosto/ setembro 2017. Sem dúvida, um preço que ajudará os consumidores de mercado interno a reduzir custos internos, tendo em vista que o seu maior concorrente, o exportador, não dispõe de condições para preços mais altos.

Retração de área — Esses preços, porém, não são motivadores de um melhor plantio na safrinha 2017 e pode-se esperar uma retração de área plantada para o próximo ano. Não se pode afirmar que isso será um problema ao abastecimento brasileiro. Porém, a atenção à safra norte-americana 2017 e ao clima na safrinha em ano de La Niña será fundamental para a composição de preços.

Sem dúvida, uma situação mais confortável para os consumidores brasileiros de milho, porém, que exige manutenção das atenções sobre os acontecimentos. Fatores extramercado como o quadro político- econômico mundial após as eleições norte-americanas certamente trarão forte volatilidade aos mercados. A atenção ao câmbio neste contexto internacional parece bastante evidente no momento.

Haverá cortes de área plantada nos Estados Unidos na safra 2017, o que poderá gerar alguma movimentação de preços internacionais a partir de abril