Na Hora H

 

A CRISE JÁ VEM PROVOCANDO VÍTIMAS. HOJE SÃO OS PRODUTORES, AMANHÃ PODEM SER OS CONSUMIDORES

ALYSSON PAOLINELLI

Asorte está sendo lançada juntamente com as sementes que o produtor brasileiro planta neste momento. Quem conhece o setor sabe que é com imenso sacrifício que este ato de fé está sendo realizado neste ano em nosso País. Aqueles que não sofreram os efeitos das intempéries do ano passado, com mais facilidade estão implantando as suas lavouras neste ano, pois além de terem tido uma boa comercialização dos seus produtos, ainda puderam ficar adimplentes com os seus financiadores do ano anterior.

Os que tiveram problemas climáticos, e não foram poucos, estão fazendo um verdadeiro ato heroico, buscando mercado financeiro a juros astronômicos ou na venda antecipada (barter) com juros maiores ainda, com a esperança de que possam recuperar os desastres sofridos nos anos anteriores.

Em algumas regiões do País esse desastre ecológico já se repete há três ou quatro anos seguidos, e o produtor está totalmente descapitalizado e à mercê dos seus credores, que passam a cobrar juros extorsivos. Muitos deles já foram “eliminados” como inadimplentes e, sem crédito de qualquer natureza para exercerem a sua ingente tarefa, a de “plantar e produzir” para este País. O número de produtores alijados do processo produtivo neste ano é simplesmente espantoso.

E, vejam, muito deles são produtores de extensas áreas em regiões importantes que neste ano fazem diminuir as estatísticas de previsões em nossas safras. As medidas de socorro prometidas pelo Governo estão muito lentas. Em algumas áreas, nem chegaram ainda. O tempo de plantio vem passando e a terra à espera das sementes e dos fertilizantes ainda está vazia.

É principalmente para esse produtor que estamos chamando a atenção. Não podemos admitir que, em um país em crise econômica como a que vivemos hoje, seja permitido que se percam tantos “soldados” nessa batalha, a única de onde se tem conseguido retirar os recursos que necessitamos para sobreviver.

Considero um suicídio o fato de esses soldados estarem saindo da batalha. Foram todos eles essenciais no desbravamento de tantas e importantes áreas. De onde temos tirado a riqueza que o Brasil necessitou para suportar as crises que enfrentamos nos últimos anos. O País não foi capaz de dar a esses produtores os meios para reduzir os seus riscos, tanto climáticos como de mercado, e agora não pode abandonar esses heróis ao relento. A Constituição brasileira, em seu art. 187, exige do Governo essa providência. De 1988 (ano da promulgação da nossa Constituição) até hoje, o que se fez nessa área foram arremedos que nada resolveram o problema a ser enfrentado. Dinheiro para desvios e roubalheiras não faltou, mas para produzir com dignidade está faltando. Isso não é uma heresia?

Engenheiro agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura