Plantio Direto

 

Estratégias para COBERTURA do solo em plantio direto

Engenheiro Agrônomo Gessí Ceccon, Dr. em Agricultura, analista da Embrapa Agropecuária Oeste

Osistema plantio direto pressupõe o cultivo de plantas com o menor revolvimento possível do solo, mantendo-o sempre coberto e com alternância de culturas, no espaço e no tempo. A cobertura é essencial para inibir a germinação de sementes de plantas infestantes, manter a umidade no solo e proporcionar o melhor crescimento das plantas, enquanto a alternância de culturas interrompe o ciclo de algumas pragas e doenças das plantas cultivadas. Com o surgimento da soja resistente ao glifosato, as plantas infestantes poderiam ser uma estratégia para cobertura do solo, porém, podem ser altas as doses de herbicida necessárias para retirada dessas plantas no momento de estabelecer a cultura de interesse econômico, além de elas se tornarem problema permanente na lavoura.

Nas Regiões Centro-Sul do Brasil, onde a ocorrência de chuvas é mais uniforme durante o ano e as estações mais definidas, muitas são as espécies de plantas que podem ser utilizadas para cobertura do solo. Como exemplo, tem-se trigo, triticale, aveia, nabo-forrageiro, azevém, entre outras, que, embora produ- Fotos: Gessi Ceccon zindo média quantidade de palha cobrem o solo devido a menores temperaturas e à menor degradação do material vegetal nessas regiões. Destacam-se o trigo e a aveia-branca por produzirem grãos para alimentação humana e diminuir a infestação por plantas daninhas, principalmente buva e amargoso, que são plantas de difícil controle em cultivos anuais.

À esquerda, milheto em crescimento rápido e ciclo curto, e à direita, a Brachiaria ruziziensis, que tem ciclo perene e crescimento inicial lento

Em condições de clima tropical, quando predomina a sucessão soja-milho safrinha, é possível obter grandes quantidades de palha com diversas espécies, como o milheto e as crotalárias, inclusive como opção para rotação de culturas, mas têm ciclo curto e a decomposição dessas espécies é muito rápida de vido às altas temperaturas e à umidade do ambiente. Além disso, como as sementes dessas espécies não são utilizadas para alimentação animal, a logística de produção e comercialização dessas sementes é mais complexa. Ou seja, quando o agricultor precisa, não as encontra; quando o sementeiro tem, o agricultor não precisa.

O destaque entre as culturas, nesse caso, o milho safrinha, é a principal espécie com rendimento econômico direto e que produz grande quantidade de palha. Ainda assim, a cobertura do solo deixada pelo milho não é eficiente para o controle de plantas daninhas. Isso porque as folhas de milho que poderiam cobrir o solo uniformemente decompõem- se muito rápido, permanecendo apenas os colmos sobre o solo, que, embora em grande quantidade, não proporcionam cobertura uniforme, permitindo passagem de luz e surgimento de plantas infestantes na lavoura.

Animais em pastejo de braquiária durante o cultivo de milho safrinha, principal espécie com rendimento econômico direto e que produz grande quantidade de palha

A sucessão soja-milho safrinha é praticada em partes de todas as regiões do Brasil e proporciona cobertura do solo com tecido verde durante nove a dez meses, restando dois a três meses de solo descoberto. A soja é cultivada durante a primavera-verão, semeada no início do período chuvoso, e de milho safrinha no verão-inverno, semeado imediatamente após a colheita da soja. Após a colheita do milho safrinha, o solo permanece sem cobertura verde até a semeadura da próxima soja. Esse período, curto e sem ocorrência de chuvas, dificulta a implantação de uma espécie exclusivamente para cobertura do solo. Com isso, a semeadura de pastagens perenes, como Brachiaria e Panicum, logo após a colheita da soja, é uma estratégia para manter o solo coberto por mais tempo, principalmente no período mais seco do ano.

Pastejo em lavoura braquiária e de consórcio milho-braquiária, em agosto, sendo que a braquiária permanece crescendo mesmo em período de seca por ter se estabelecido durante o cultivo do cereal

Oportuna Brachiaria — A semeadura de uma espécie de Brachiaria em consórcio com o milho safrinha é uma das mais oportunas estratégias para manter o solo coberto, mantendo o milho como cultura de interesse econômico. O consórcio milho-braquiária é uma tecnologia reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) através do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, que permite identificar os locais em que a tecnologia pode ser utilizada, tendo financiamento e seguro para a lavoura nos estados de Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.

As duas espécies têm alta relação C/ N (45 a 50), quando comparadas às leguminosas, o que confere maior durabilidade dos resíduos no ambiente. O milho é cultivado como se fosse solteiro, sem alteração na adubação química, população de plantas ou época de semeadura. A braquiária pode ser semeada simultaneamente ao milho, com as sementes posicionadas de três a cinco centímetros de profundidade, com população média de cinco plantas por metro quadrado, para que não cause redução na produtividade do milho.

Assim, após a colheita do milho, a braquiária permanece crescendo, mesmo em período de seca, por ter se estabelecido durante o cultivo do milho e estar retirando água em maiores profundidades do solo. Esse consórcio apenas proporciona cobertura ao solo, que já é um avanço do ponto de vista dos princípios do plantio direto, mas sem realizar rotação de culturas porque o milho perma permanece na área. Se essa braquiária for mantida na área como pastagem, no verão ela fará rotação para a soja.

A semeadura de uma braquiária, logo após a colheita da soja, é também uma importante estratégia para cobertura do solo e rotação de culturas para o milho safrinha. Os detalhes de sua implantação dependem da estrutura da propriedade e dos objetivos de sua implantação: se palha ou pasto. O importante é que as sementes sejam posicionadas a uma profundidade de três a cinco centímetros e planejar o estabelecimento de 10 a 20 plantas por metro quadrado, quando o objetivo for pastejo. Para produção de palha, cerca de cinco plantas por metro quadrado são suficientes para boa cobertura do solo.

Nas propriedades em que a braquiária será utilizada apenas para cobertura, ela pode ser semeada imediatamente após a semeadura do milho safrinha, priorizando a utilização das máquinas para implantação do milho safrinha, por apresentar maiores produtividades nas primeiras semeaduras. Em propriedades que têm criação de animais, essa braquiária deve ser semeada antes ou na mesma época de semeadura do milho safrinha, preconizando assim o fornecimento de pasto aos animais já no início do período seco do ano.

A quantidade de sementes, em quilos por hectare, para estabelecimento de cada cultura, pode ser obtida com a seguinte equação: população de plantas por metro quadrado x massa de mil sementes/valor cultural de germinação. Importante realizar o teste de germinação das sementes em condições semelhantes à realidade da lavoura onde a braquiária será estabelecida. Assim mesmo, a quantidade de sementes pode variar, dependendo da profundidade de semeadura e da umidade no solo.

A Brachiaria ruziziensis destaca-se para cobertura do solo e produção de palha pelo rápido fechamento do solo e pela facilidade de dessecação que antecede a semeadura da soja. As demais cultivares de espécies de Brachiaria ou Panicum podem ser utilizadas para cultivo em áreas de lavoura, a depender dos objetivos do agricultor e das características de cada cultivar.

A presença de animais na lavoura significa introdução de fungos e bactérias benéficos ao sistema de produção de grãos e, principalmente, a utilização deanimais jovens, recém desmamados, é importante para o maior ganho de peso desses animais, que se alimentam da braquiária, estimulando a rebrota e, consequentemente, facilitando sua dessecação, podendo diminuir o intervalo entre a dessecação e a semeadura da soja. Além disso, a presença animal causa certa compactação superficial do solo e facilita o corte da palha e acondicionamento da semente de soja com o solo na operação de semeadura.

O cultivo de braquiária solteira proporciona rotação de culturas para o milho safrinha, mas se deixada como pastagem durante o verão, proporciona rotação de culturas também para soja. Com isso, exercita-se a integração lavoura-pecuária (ILP), que se torna uma estratégia com retorno econômico para cobertura do solo e a rotação de culturas para o plantio direto. Informações adicionais podem ser obtidas nos seguintes endereços: vídeo Consórcio Milho-Braquiária em http:// bit.ly/2eKea5x; livro Consórcio Milho-Braquiária em http://bit.ly/2eJBtLh; e Série Embrapa: implantação e manejo de forrageiras em consórcio com milho safrinha em http://bit.ly/2dBXbVv.