Acaro

 

ÁCARO-RAJADO assume relevância em soja no MT

A praga, até então mais incidente no algodão, aumenta gradativamente a importância na soja, visto o uso de inseticidas não seletivos, a adoção de algodão de segunda safra após a soja e os períodos de seca, entre outras causas

Engenheiro agrônomo Miller Vinícius Vidotti, Programa de Monitoramento e Adubação da Fundação MT

A safra 2015/16 ficou marcada por longos períodos de estiagens, associados com altas temperaturas, em diversas regiões de Mato Grosso, causando reduções expressivas na produção de soja. Essas perdas foram decorrentes não apenas das condições climáticas, mas também do aumento po- Fotos: Divulgação pulacional de pragas, favorecidas por estas condições ambientais, tais como o complexo de lagartas, a mosca-branca e o ácaro-rajado.

O ácaro-rajado (Tetranychus urticae) é um antigo conhecido dos cotonicultores, pelos danos causados e pela dificuldade de controle nos algodoeiros. Na cultura da soja, até então, não havia uma importância expressiva, mas seus ataques estão aumentando gradativamente, devido ao aumento no uso de fungicidas para o controle de doenças, inseticidas não seletivos aos inimigos naturais, adoção do sistema soja/algodão de segunda safra, períodos de seca e estado nutricional das plantas.

Na lavoura de soja, o ataque de ácaro- rajado inicia-se com a formação de pequenas reboleiras, que são facilmente distintas pela coloração “amarelada” em contraste com o verde da lavoura. Nestas reboleiras, olhando a face abaxial das folhas, constata-se a presença das colônias da praga (ovos, larvas, ninfas e adultos), bem como de teias características dessa espécie. Na face superior das folhas, inicialmente observamse pequenas regiões cloróticas que, com o passar do tempo e aumento da infestação, tornam-se maiores e amareladas e, posteriormente, amarronzadas (Hoffmann-Campo, Corrêa-Pereira, Moscardi, 2013). Sob condições severas de infestação, as folhas tornamse amarronzadas, secas e eventualmente podem cair.

Os ácaros não se alimentam de seiva no floema, mas de células. Eles as perfuram na epiderme com o aparelho bucal e sugam todo o conteúdo celular. Essa alimentação não apenas provoca a morte das células como também a perda de água através dos pontos de alimentação (Di Fonzo, 2016). Este é um ponto importante: enquanto há umidade disponível no solo, e o sistema radicular consegue absorver água o suficiente para repor a transpiração, inclusive aquela nos pontos de alimentação dos ácaros, dificilmente observam- se folhas dessecadas e desfolha por conta do ataque de ácaros.

Isso é bem evidente no campo. Talhões infestados por ácaros, que passaram por um estresse hídrico no final de enchimento de grão, apresentaram uma desfolha repentina, encontrando- se as reboleiras completamente desfolhadas em R5.5. Em geral, as reboleiras atacadas por ácaros, situadas em terraços e cascalheiras, também são as que sofrem as maiores perdas, e elas decorrem do comportamento de distribuição espacial agregada da espécie.

Controle químico — Em relação ao controle, uma única aplicação de acaricida, em condições de alta infestação, não é capaz de reduzir satisfatoriamente a população da praga. Primeiramente, porque existe uma dificuldade de controle devido à localização das colônias na parte inferior das folhas. Também há uma quantidade grande de ovos originando novos indivíduos que não são afetados por esses produtos, e que geram novos indivíduos rapidamente.

Na imagem, talhões infestados por ácaros em lavoura que passou por estresse hídrico no final de enchimento de grão, com desfolha repentina, assim como reboleiras completamente desfolhadas em estádio R5.5

Nessa situação, aplicações sucessivas seriam necessárias. Suekane et al (2012) estudaram o nível de dano econômico dessa praga em soja e indicaram que 13% a 15,8% de área foliar amarelecida é economicamente prejudicial à cultura. O ideal, segundo Di Fonzo (2016), é iniciar o controle no aparecimento das primeiras reboleiras, em condições que favoreçam a explosão populacional da praga. O controle em situações de altas infestações, mesmo que efetivo, não evita as perdas ocasionadas pelos inúmeros pontos de alimentação, que continuam a perder água.

No campo, notam-se também diferenças na reação das cultivares quanto ao ataque de ácaros. Essas diferenças provavelmente se devam a características das folhas como pilosidade e espessura da cutícula, mas carecem de mais estudos para discriminar variedades resistentes e as causas da resistência. O ácaro-rajado na soja, até o momento, tem recebido pouca atenção quanto ao manejo. Devido ao aumento de ocorrência e ao potencial de danos dessa praga, medidas de controle devem ser adotadas, principalmente em condições de estiagem que favorecem os surtos e acentuam os danos dessa praga.