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B8 vai mexer com as oleaginosas

Em março de 2017 entra em vigor no Brasil o B8 (8% de biodiesel no diesel), em substituição ao B7, que vai demandar, apenas em soja, 2,8 milhões de toneladas

Donizete Tokarski, diretor superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio)

Com o avanço da mistura obrigatória, a indústria brasileira de biodiesel se prepara para uma nova fase. Em março de 2017, passa a valer o B8 (8% de biodiesel adicionado ao diesel fóssil) em todo o território nacional. O crescimento esperado é de cerca de 700 milhões de litros/ ano. O setor projeta uma demanda de 4,5 bilhões de litros em 2017, frente aos 3,8 bilhões estimados para 2016. Poucas vezes estivemos diante de um produto com tantas externalidades positivas. O Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), iniciado em 2005, vem mudando a economia agrícola e contribuindo para melhorar a estrutura socioeconômica do País, com inclusão da agricultura familiar, interiorização da indústria e geração de empregos qualificados. Isso faz do biodiesel o “pré-sal verde” do Brasil.

A substituição gradual do diesel fóssil também gera benefícios ambientais e de saúde pública com a redução das emissões de diversos poluentes e gases de efeito estufa. O mercado de biodiesel proporciona, ainda, um destino nobre para o sebo bovino e óleo de fritura, que passaram a fazer parte do mix de matérias-primas para sua produção, eliminando formas de descarte inadequadas que contaminavam especialmente as águas. Além disso, as externalidades positivas do biodiesel repercutem especialmente no processamento de oleaginosas e nas cadeias alimentares.

A ociosidade nas etapas industriais (capacidade de processamento de oleaginosas próxima a 40% e na capacidade de produção de biodiesel, da ordem de 50%) permite uma alta flexibilidade para que a cadeia de produção do biodiesel como um todo avance. Considerando a manutenção da participação atual do óleo de soja na produção do biocombustível, que é de 77%, a necessidade adicional de óleo de soja para o aumento de B7 para B8 será de 480 mil toneladas, em 2017. Isso gera uma demanda de processamento de cerca de 2,4 milhões de toneladas a mais de soja. No total, para produzir os 4,5 bilhões de litros estimados para 2017, serão necessárias cerca de 14 milhões de toneladas de soja para a produção de 3 milhões de toneladas de óleo.

E tem matéria-prima suficiente? O Departamento de Agricultura dos EUA (Usda) estima que a safra de soja 2016/ 17 do Brasil alcance o recorde de 102 milhões de toneladas. Desse total, mais de 50% será exportado em grão, sem nenhum tipo de agregação de valor. Logo, há matéria-prima mais do que suficiente e, além disso, a previsão de aumento da demanda estimula novos investimentos para ampliação da capacidade de produção, intensificando o processamento interno de soja e a agregação de valor.

É importante lembrar que o uso do óleo de soja na fabricação desse combustível renovável não concorre com a produção de alimentos. Muito pelo contrário. O aumento da demanda pelo óleo viabiliza a expansão da produção da parte proteica, que é a verdadeira demanda crescente da alimentação global. Isso porque o principal produto da soja é o farelo (proteína) que resulta em aproximadamente 80% do grão após o esmagamento. Esse produto alimenta as cadeias de proteínas animais: bovinos, aves, suínos, ovos, lácteos, peixes e derivados. Dessa forma, o biodiesel funciona como um catalisador da produção de proteínas. O excedente de farelo, além de gerar produto para exportação, também oferece às cadeias alimentares matéria-prima mais barata e agregação de valor à pauta de exportação.

Tokarski: “Para produzir os 4,5 bilhões de litros de biodiesel estimados para 2017, serão necessárias cerca de 14 milhões de toneladas de soja para a produção de 3 milhões de toneladas de óleo”

Oportunidades não aproveitadas — “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Ao invés de serem abastecidas com um combustível renovável produzido a partir de matérias-primas locais, as máquinas agrícolas estão consumindo diesel fóssil, inclusive importado. Enquanto isso, o uso de biodiesel nesses equipamentos pode reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa da agropecuária brasileira. Desde 2015, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) autoriza o uso voluntário de B30 em máquinários – e B20 em ônibus e caminhões – para grandes consumidores de diesel. Basta que os interessados solicitem da distribuidora da qual já adquirem o diesel com 7% de biodiesel, a mistura B30 ou B20, dependendo do caso. Ou seja, o Brasil já tem o uso previsto em lei, e há o compromisso assumido no Acordo de Paris, há matéria-prima, indústria com capacidade ociosa, enfim, só falta aproveitar melhor esse potencial.

O setor de cana, por exemplo, ocupa hoje no Brasil 9,5 milhões de hectares e produz 690 milhões toneladas por ano. Para isso, as máquinas agrícolas consomem aproximadamente 690 milhões de litros de diesel anualmente. Se essas máquinas utilizassem o B30, conforme já autorizado por lei, o resultado seria 383 milhões de toneladas de CO2 evitadas. Isso equivale ao plantio de 2,8 milhões de árvores por ano, isto é, 295 árvores para cada mil hectares processados com B30. Cada colheitadeira de cana utilizando B30 reduz 78 toneladas de CO2 por ano, o que equivale a 570 novas árvores para cada colheitadeira.

A lógica também vale para outras culturas, inclusive a soja, principal matéria- prima para o biodiesel. Por isso, não faz sentido que uma colheitadeira de soja, em Mato Grosso, utilize diesel fóssil importado, quando o estado é um dos maiores produtores de biodiesel do Brasil. Uma colheitadeira de soja usando B30 representa redução de aproximadamente 93 toneladas de CO2 por ano, o equivalente ao plantio de 680 árvores. Além disso, o biodiesel é mais barato que o diesel fóssil em diversas regiões do País e as principais fabricantes de motores já dão garantia para o uso do combustível renovável. O biodiesel é o melhor combustível do Brasil. A sociedade precisa incorporar isso e usufruir dos benefícios de um produto que é nacional, gera emprego e renda e ainda melhora a qualidade do ar e, consequentemente, a qualidade de vida.