Soja

 

Soja: viabilidade da INOCULAÇÃO em cobertura

Pesquisa na Unesp avaliou diferentes possibilidades de promover a fixação biológica de nitrogênio (FBN) na soja em cobertura, incluindo sistemas que combinam milho, integração lavoura-pecuária e adubação verde com crotalária

Eng. Agr. Luiz Gustavo Moretti, mestre em Sistemas de Produção e doutorando em Agricultura, títulos pela Unesp

A inter-relação entre a cultura da soja e bactérias do gênero Bradyrhizobium é conhecida mundialmente como a “simbiose perfeita”, pois agrega tanto ao meio ambiente como à economia mundial. Por meio dessa relação, os microrganismos formam pequenos nódulos ao longo do sistema radicular, transformando o N2 atmosférico em compostos assimiláveis pela planta. A soja é beneficiada com um dos nutrientes mais requeridos para a sua produção, e a bactéria por sua vez é agraciada por carboidratos a ela direcionados.

Ao longo dos últimos 70 anos essa relação vem sendo intensamente estudada por diversos órgãos de pesquisa, públicos e privados, nacionais e internacionais. Principalmente no Brasil, onde atualmente a soja é cultivada em mais de 33 milhões de hectares, a segunda maior produção mundial, estes estudos são extremamente importantes. Pois, se a fixação biológica de nitrogênio (FBN) não fosse eficiente nessa cultura, possivelmente, o cultivo seria inviável no País. Segundo a literatura, para uma produtividade média de 3 mil quilos de grãos por hectare, implicariam na necessidade de 240 quilos/hectare de nitrogênio, e com uma taxa de 50% de aproveitamento dos fertilizantes nitrogenados, equivaleria a 1.067 kg/ha de ureia. Sendo assim, um custo mínimo adicional ao produtor de R$ 1.400/ha. Estima-se que a FBN traz uma economia de fertilizantes nitrogenados em US$ 7 bilhões anuais.

Em nosso projeto de mestrado desenvolvido na Universidade Estadual Paulista (Unesp/Campus de Ilha Solteira/ SP), fomentado pela Fundação Agrisus, com orientação do professor Dr. Edson Lazarini, co-orientação da pesquisadora Dra. Mariangela Hungria (pesquisadora da Embrapa Soja), e colaboração de alunos de pós-graduação e graduação em Agronomia: João Bossolani, Tiago Parente, Eric Saito, Bruno Zaninetti, Adalberto Rezende, Raphael Negrisoli, Sheila Caioni e Izabela Rodrigues, visamos otimizar a FBN na cultura da soja em diversos sistemas de produção no sistema plantio direto, avaliando novas modalidades de inoculação (padrão + em cobertura), comportamento da bactéria e resposta da cultura em combinação com resíduos de palhadas antecessoras.

O experimento, conduzido na safra 2015/16, visou estimular a formação de uma população secundária de nódulos ativos no final de ciclo da cultura, principalmente em raízes laterais, a partir de inoculações em cobertura em estádios fenológicos vegetativos e reprodutivos. Saindo do pressuposto que a FBN é controlada pelo macrosimbionte (planta), que de tal forma, durante a fase vegetativa, o microsimbionte (bactéria) é beneficiado pela relação fontedreno, e a partir do início da fase reprodutiva (R1) essa relação é modificada, sendo então o dreno os órgãos reprodutivos, assim os nódulos deixam de ser estimulados. Dessa forma, já se conhece que o pico da nodulação na cultura é no pleno florescimento (R2), e posteriormente há uma senescência natural de nódulos, restando na fase de enchimento de grãos (R5) em menor quantidade, porém, com maior massa e atividade.

Foram conduzidos três sistemas de produção de maior interesse na região: milho (segunda safra) – soja; sistema integração lavoura-pecuária/ILP (com Urochloa ruziziensis) – soja; e adubação verde (com Crotalaria spectabilis) – soja. Avaliamos a qualidade e a quantidade de palhada fornecida pelas culturas antecessoras à soja e o condicionamento de microclima ideal para os microrganismos fixadores. Esses três sistemas de produção foram conduzidos em condições de sequeiro ou com suplementação hídrica por aspersão (pivô central).

O intuito de nosso trabalho não foi encontrar uma alternativa à inoculação via semente, sendo ela essencial e deve ser realizada da melhor forma possível, mas sim trabalhar com hipóteses de aumentar a nodulação ou permanecer estável a partir de R2, como já mencionado. Essa hipótese é fundamentada no meio científico, em que, por mais que o agricultor cultive soja por várias safras e inocule todos os anos com a bactéria, o banco de estirpes presente em seu solo pode apresentar latência ou menor atividade do que as mesmas estirpes presentes no inoculante. Assim, uma pulverização complementar em cobertura, adicional à inoculação via semente, poderia aumentar as unidades formadoras de colônia (UFC), possibilitando maior nodulação.

Alternativa adicional — Existem relatos a campo sobre inoculações em cobertura em regiões sojicultoras tradicionais, no entanto, os produtores tentam usar tal técnica de forma corretiva, quando não houve sucesso na inoculação via semente. Nesse estudo, os pesquisadores veem a técnica como alternativa adicional e não corretiva, sendo necessária uma eficiente nodulação primária proveniente da inoculação via semente. Vale ressaltar que a infecção da bactéria na planta ocorre imprescindivelmente via radicular e, principalmente, em zonas de crescimento de pelos radiculares. Dessa forma, existe a necessidade que seja realizada a pulverização em jato dirigido ao solo, e que essa bactéria seja incorporada ao perfil para que entre em contato com a raiz. Os microrganismos têm sensibilidade a luz, umidade e temperaturas altas. Com o uso de irrigação, como em sugerido experimento, ou previsão de chuva após a aplicação do inoculante em cobertura, tal prática poderia ser adotada pelo agricultor.

A viabilidade de um nódulo é de aproximadamente 40 dias, desde sua formação até sua senescência, e essa formação (infecção) e morte apresenta uma dinâmica em todo o ciclo da cultura. Portanto, têm-se ao mesmo tempo nódulos sendo formados e nódulos em senescência. Logo, seria interessante conciliar qual o melhor momento (estádio fenológico) para a pulverização do inoculante em cobertura, para que esse nódulo esteja em plena atividade no período de enchimento de grãos. No entanto, deve ser ressaltada a operacionalidade de referida técnica, em que, na prática, a maioria dos cultivares comerciais apresentam fechamento entrelinhas por volta de V7 – R1, inviabilizando ou dificultando uma pulverização com jato dirigido, mesmo com utilização de pêndulos.

Neste experimento conduzido na Unesp - Campus de Ilha Solteira, realizamos oito tratamentos com inoculação, sendo três testemunhas: sem inoculação ou adubação com 200 quilos de nitrogênio/hectare e inoculação via semente (padrão). Outros três tratamentos com inoculações complementares em cobertura na fase vegetativa: via semente + aplicação de inoculante em cobertura no estádio vegetativo V1; via semente + inoculação em cobertura em V3; e via semente + inoculação em cobertura em V6. E outros dois tratamentos apresentaram inoculações complementares na fase reprodutiva, ou seja, em R1 ou R3: via semente + R1; via semente + R3. Todos os tratamentos foram avaliados na presença dos restos culturais de milho, Urochloa ruziziensis ou Crotalária spectabilis, com ou sem suplementação hídrica. As aplicações de inoculante em cobertura foram realizadas com um volume de calda de 150 litros/ hectare e o inoculante líquido apresentava uma concentração de 7 x 109 UFC/ml. Em área irrigada, após cada pulverização houve irrigação com lâmina de dez milímetros.

Foi relatado distinto comportamento da bactéria em relação aos modos e momentos de aplicação do inoculante, sob as palhadas e o uso da irrigação. A palhada de U. ruziziensis apresentou boa uniformidade e produção de fitomassa, criando ótimo microclima para o desenvolvimento da bactéria. Todavia, como a palhada da braquiária é bastante densa, a irrigação e/ ou condições de pluviosidade foram importantes para lixiviar os microrganismos pela palhada e fazê-los atingir os primeiros centímetros de solo, facilitando a chegada até a raiz.

Enquanto isso, em condições de Cerrado, a crotalária é considera um dos melhores adubos verdes para integrar a rotação de culturas. Porém, por ser uma leguminosa, ela apresentou rápida decomposição, o que significa que, em 30, 40 dias, deixa pouca palha sobre o solo. Se isso é negativo na manutenção da palhada em sistema plantio direto, já que a área fica desprotegida, para uma pulverização em cobertura é vantajoso, pois irá facilitar o contato da bactéria com solo e raiz, além de a rápida ciclagem de nutrientes favorecer a ação dos microrganismos. Já a palhada de milho analisada neste estudo apresentou desuniformidade, com muito colmo e poucas folhas, não gerando um ambiente exatamente favorável ao desenvolvimento das bactérias. Mas, ao mesmo tempo, estamos falando da principal cultura de segunda safra, que com inoculações em condições úmidas, também traz resultados positivos.

Em resultados mais expressivos ao produtor, verificamos que as inoculações em cobertura em um ambiente com controle de irrigação possibilitaram a lixiviação da bactéria nos primeiros centímetros de solo, tendo melhores resultados sob palhada de braquiária e crotalária, com produtividade média, no tratamento via semente + inoculações em estádios vegetativos, entre 4.500 a 5 mil quilos/hectare, contrapondo a produtividade média de 3.600 quilos/hectare no tratamento padrão (via semente). Observamos uma média de 40 nódulos ativos por planta em R5, contra 28 nódulos ativos no tratamento padrão. Para que a nodulação secundária esteja ativa em enchimento de grãos, o momento ideal que concilia a operacionalidade da técnica e alta atividade nodular seria por volta de V4 a V6.

No entanto, quando não se tem o artificio da irrigação ou a possibilidade de contar com precipitação pluviométrica, a técnica depara-se com dificuldades de aplicabilidade, pois a bactéria permanecerá sobre a palhada, sendo degradada pela luz e temperatura, assim como foi verificado no experimento de sequeiro. Nesse âmbito, a produtividade de grãos na soja apenas foi influenciada pelas palhadas anteriores, mostrando a braquiária e a crotalária como melhores opções. Por fim, relatamos que esses resultados indicam que a soja mantém a capacidade de formação de nódulos durante todo o ciclo, inclusive respondendo a inoculações suplementares, sendo essa técnica responsiva e viável. No entanto, ainda há a necessidade de melhores ajustes para a aplicabilidade e operacionalidade segundo a realidade de cada sojicultor.